Familiares de Cícero Sandroni foram consolados em velório na ABLErica Martin/Agência O Dia

Rio - Familiares e amigos prestaram as últimas homenagens ao jornalista Cícero Sandroni, na tarde desta quarta-feira (18). O velório do ex-presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL) foi realizado na sede da Casa, no Centro do Rio. O escritor morreu aos 90 anos, em casa, no Cosme Velho, Zona Sul, na terça-feira (17), vítima de choque séptico causado por infecção urinária. Ele também sofria do mal de Alzheimer. O sepultamento ocorreu por volta das 15h, no Cemitério São João Batista, em Botafogo, no mausoléu da ABL. 
O jornalista deixou a mulher, Laura Austregésilo de Athayde, os filhos Carlos, Clara, Eduardo, Luciana e Paula, e o neto Pedro. No velório, a ABL e outras instituições enviaram coroas de flores com homenagens a Sandroni. A companheira e filhas do escritor receberam condolências de parentes e amigos. Ele ocupava a cadeira 6 da Academia desde 2003, de onde também foi presidente, entre 2008 e 2009. 
Membros da ABL lamentaram a morte e destacaram o trabalho de Sandroni no jornalismo e na literatura, como o presidente, Merval Pereira, que o descreveu como "grande jornalista e acadêmico dedicado à Casa" e "defensor da liberdade". Já Godofredo de Oliveira destacou sua atuação crítica contra o regime militar. "Só a ousadia de criar uma revista dedicada à "Ficção" em plenas trevas autoritárias já o coloca entre os grandes (...) A ABL foi sua vida, o jornalismo o seu amor", declarou. 
"Arrasado. Ninguém mais amigo dos amigos do que Cicero. Fomos amigos desde 1967, estivemos juntos em três redações e nunca nos afastamos. Foi o maior incentivador a que eu entrasse para a Academia e, quando isso aconteceu, o destino fez com que nunca compartilhássemos uma sessão", lamentou o também jornalista e escritor Ruy Castro. 
"Perdi o amigo querido, o ótimo presidente da Academia Brasileira de Letras, jornalista de larga experiência e ficcionista. A origem da família dele era de Pisa e a minha de Lucca, inimigos históricos. Dizíamos brincando que a nossa amizade representava uma contradição histórica, porque apontava para a harmonia e a paz. Tenho esperança de que um livro de memórias póstumas traduza a delicadeza de suas páginas da infância em São Paulo. Saudades e solidariedade para a família", afirmou o poeta e escritor Marco Lucchesi.
Em nota, o Ministério da Cultura lamentou a morte do jornalista. "O Ministério da Cultura presta homenagem ao jornalista e escritor e se une à família, aos amigos e aos admiradores de Cícero Sandroni neste momento de luto". 
Trajetória
Cícero Augusto Ribeiro Sandroni nasceu na cidade de São Paulo, em 26 de fevereiro de 1935. Com a transferência de sua família para o Rio, em 1946, concluiu os estudos secundários e cursou a faculdade de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica (PUC) e a Escola Brasileira de Administração Pública (EBAP) da Fundação Getúlio Vargas, como bolsista.
A carreira de jornalista teve início em 1954, com passagens pela Tribuna da Imprensa, Correio da Manhã, Jornal do Brasil, Rádio Jornal do Brasil e O Globo, onde se destacou na cobertura da política exterior, como a primeira visita do político soviético Nikita Kruschev à Organização das Nações Unidas (ONU). Além disso, em abril de 1960, integrou uma equipe que cobriu a inauguração de Brasília. No ano seguinte, foi Secretário de Imprensa da Prefeitura do Distrito Federal.
No ano de 1976, o jornalista coordenou, com os escritores Rubem Fonseca, Lygia Fagundes Telles, Nélida Piñon, Hélio Silva, José Louzeiro, Ary Quintella e Jefferson Ribeiro de Andrade um manifesto contra a censura aos livros, assinado por mais de mil intelectuais brasileiros, conhecido como o Manifesto dos Mil. Publicado na imprensa, o documento impediu a continuação da censura aos livros, que havia proibido a circulação de mais de quatrocentos títulos de autores do país e estrangeiros.

Em 1995, deixou o jornalismo para escrever com a mulher a biografia de Austregésilo de Athayde. Ele chegou a voltar à profissão nos anos 2000 e em 2002 escreveu o livro "50 anos de O Dia" sobre a história do jornal. Já em 2003 se afastou novamente, dessa vez para escrever a história do "Jornal do Commercio". No mesmo ano, se tornou o sexto ocupante da Cadeira nº 6 da ABL, eleito por unanimidade, em 25 de setembro, na sucessão de Raimundo Faoro. Ele tomou posse como presidente da Academia em 13 de dezembro de 2007, em eleição unânime.