Setor gastronômico da Feira da Glória foi alterado para a Praça ParisReginaldo Pimenta / Agência O Dia

Rio – Comerciantes e frequentadores da tradicional Feira da Glória aprovaram o primeiro domingo com parte das barracas de comida montadas dentro da Praça Paris. A mudança, ainda em fase de testes, foi feita pela prefeitura para melhorar o ordenamento na região. Na semana passada, alguns comerciantes reclamaram que não puderam vender seus produtos, após uma ação da Secretaria Municipal de Ordem Pública.
Centenas de cariocas e turistas aproveitaram o domingo de tempo bom no Rio para circular pelo evento, que também contou com a presença de agentes de fiscalização da Seop. Ao DIA, a comerciante Meyre Ferreira, de 55 anos, que trabalha no local há duas décadas com artesanato e comidas, elogiou as mudanças, mas pregou cautela por se tratar de um evento-teste. "Foi um sucesso. Tem alguns moradores que me procuraram, e alguns não estão satisfeitos, mas outros já me parabenizaram, falando que é um sucesso, e está sendo. O movimento está alto, graças a Deus. Estou acompanhando tudo. Estamos em um teste, mas eu tenho certeza que já foi um sucesso", disse.
Meyre afirmou que alguns problemas relatados normalmente por moradores da região, como a invasão de barracas nas ruas, também melhoraram e explicou que está tentando conscientizar as pessoas sobre essas questões. "Está todo mundo aqui, as fiscalizações... Não tem nada na rua, melhorou bastante. Vamos ter problema? Sim, porque às vezes, não é nem do expositor. O que aconteceu com as barracas na rua é que frequentadores colocaram elas lá, e a gente teve esse problema. É igual lixo. Eu estou organizando todo mundo para não jogar lixo, mas tem frequentador que come e joga o lixo no chão. Isso nos prejudica também. Mas estamos orientando, pedindo."
Quem também aprovou foi Joana Cardozo, 45, da equipe de administração do evento. Ela considerou que o primeiro dia com a novidade deu certo. "Nos organizamos aqui, falamos sobre algumas readaptações e, nesse primeiro momento, está sendo bem legal, porque as pessoas sentiram falta de nós, lá do outro lado. Elas acabaram vendo as nossas bandeiras, divulgações coletivas e todo mundo acabou migrando para cá. Está um ambiente bem legal, de passeio. Pessoas sentando na grama, comendo, colaborando e vindo aqui visitar a gente", destacou.
O comerciante Nailson Fernandes, 24, trabalha há um ano vendendo torresmo, e também gostou na ida para a Praça Paris. "Para o primeiro dia, eu pensei que ia ser menos [vendas]. Até que não foi tão pouco quanto o esperado. Mas também não está a mesma coisa que lá [na Avenida Augusto Severo], achei que ia ser um pouco pior, mas graças a Deus, para o primeiro dia, está ótimo."
Busca por mais diálogo 
André Sena, 44, é dono de uma barraca de cerveja e também comemorou o bom movimento, mas alertou que ainda é preciso esperar para ver se novidade "vai pegar".
"Aparentemente está positivo. Temos apenas que entender se esse público está curioso para entender o que está acontecendo ou se eles vão ficar com a gente, como o público que conquistamos ao longo de todos esses anos. É o primeiro dia. Aqui no Rio, tudo que é novidade, as pessoas aderem, mas tem que saber se a clientela que frequentava a gente lá no espaço gastronômico vai vir à Praça Paris também, porque aquele é um público de feira praticamente internacional. As pessoas vinham à Glória para participar dessa feira. Temos que entender como isso vai acontecer."
André relatou, também, que não houve diálogo com órgãos da prefeitura e afirmou que as mudanças foram impositivas. "Semana passada, eles não permitiram que nós trabalhássemos, e essa semana, depois de algumas reuniões, eles vieram com a decisão de que seria na Praça Paris. Não fomos ouvidos em momento nenhum. Estamos há muito tempo tentando abrir um espaço de interlocução, denunciando os problemas da feira, dizendo que está acontecendo isso, aquilo, e não houve nenhum tipo de intervenção das nossas solicitações", reclamou.
Em nota, a Subprefeitura do Centro afirmou que realizou uma reunião junto aos feirantes que tinham suas barracas gastronômicas na Avenida Augusto Severo, na última quarta-feira (16). "Durante o diálogo, foi acordado junto com os expositores que a partir deste domingo (20), eles passariam a atuar na Praça Paris, com o intuito de estabelecermos o ordenamento e a organização da feira", informou o comunicado.
'Clima de família'
O engenheiro civil Anderson Ruffino, 30, morador da Tijuca, frequenta a Feira da Glória, em média, duas vezes por mês. Ele foi ao local com a namorada, Monique Peixoto, e se surpreendeu com a novidade. "Eu, particularmente, gostei bastante. Para a gente, que vai atrás das comidas típicas dos países, ficou mais confortável, e também ficou um clima bem familiar, porque aquele espaço [Praça Paris] não tinha muito uso e as pessoas estão lá, fazendo piquenique. Ficou bem acolhedor. Foi uma boa alternativa para aquela muvuca que estava ali na Avenida Augusto Severo", exaltou.
"A feira, com mídias sociais, cresceu bastante na divulgação. Cada vez, tem mais gente visitando, inclusive de fora do Brasil. Os turistas frequentam a feira. Com isso, tem muito mais barracas, vendedores. Agora, dá para respirar mais. O passeio ficou mais confortável", completou o frequentador.
Preocupação
A solução, no entanto, não agradou a Wilson Guedes, presidente da Associação de Moradores e Amigos da Glória (AMAG), que considera que a Praça Paris está "degradada". "Apesar de ter passado por um processo de revitalização recente, ela continua muito degradada. Trazendo esses eventos, o que está acontecendo é o seguinte: o evento, mais o deslocamento de 40 barracas à praça, se isso funcionar como teste, vão colocar mais barracas, o que vai trazer mais gente para a praça, e provocar mais pisoteamento. Vai acabar com a grama, que existe ainda hoje lá."
Vale ressaltar que outras barracas de comida, além de food trucks, seguirão posicionados ao longo da Rua da Glória e da Augusto Severo.
Anúncio nas redes
O prefeito Eduardo Paes anunciou, na última sexta-feira (18), a transferência do setor gastronômico para a Praça Paris. O mandatário justificou a mudança em publicação nas redes sociais. "A Feira da Glória, a maior feira de rua do Rio e patrimônio carioca, havia se tornado um verdadeiro caos, com absurdos que iam desde ponto de ônibus como depósito de mercadoria, até dezenas de botijões de gás um ao lado do outro, sem nenhum tipo de segurança", escreveu.
A Feira Livre da Glória foi oficialmente declarada Patrimônio Histórico, Cultural e Imaterial do Estado do Rio de Janeiro, no último dia 8 de julho. O local oferece grande diversidade de produtos, incluindo comidas e bebidas típicas, artesanato, roupas e objetos de decoração, além de apresentações musicais, como rodas de samba. 
 * Colaborou Reginaldo Pimenta