Kathlen Romeu tinha 24 anos e estava grávida de 4 meses quando foi baleada e mortaReprodução/Redes Sociais

Rio - Familiares receberam com expectativa a decisão sobre o julgamento dos policiais envolvidos na morte de Kathlen Romeu. A jovem estava grávida quando foi baleada e morta em uma operação no Complexo do Lins, na Zona Norte, em 2021. Os desembargadores da 6ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio (TJRJ) rejeitaram, nesta quarta-feira (1º), os pedidos das defesas dos militates e mantiveram o júri popular de Rodrigo Correia de Frias e Marcos Felipe da Silva Salviano. 
Por unanimidade, os magistrados negaram os pedidos das defesas para a absolvição sumária dos PMs ou a anulação do julgamento. Na decisão, os desembargadores acompanharam o voto do relator do processo e o parecer da Procuradoria de Justiça, que reforçaram que a análise das provas cabe ao júri popular. Para a mãe de Kathlen, Jaqueline Oliveira, a medida representa mais um passo para que os acusados sejam responsabilizados. 
"A verdade é que depois do caos, a gente quer a justiça na mesma velocidade da perda e a minha luta se arrasta há 4 anos e 4 meses. Quando a gente recebe a notícia de um passo de vitória, a única sensação é de que o nosso dever está sendo cumprido, mas o chão se abre e fica na gente um misto de tristeza por estar vivendo isso e um pouco de alívio em saber que toda nossa luta, mesmo que devagar, está produzindo resposta. Para subir esse degrau, foi necessário muito desgaste físico e mental", desabafou.
Jaqueline lembrou que a jovem completaria 29 anos nesta sexta-feira (3). "Amanhã é aniversário da minha filha e o que Estado deixou foi camisa, faixa, luta, saudade e muita dor! A luta por memória, verdade, reparação e justiça será buscada em todas as instâncias e ao máximo rigor da lei! O Estado tem nome e sobrenome! É importante punir os responsáveis e toda a cadeia de comando! A minha filha não vai voltar, mas se há a devida punição, outras pessoas têm mais chance de nascer, crescer e viver". 
A defesa da família também celebrou a decisão. "Vitória importante: o recurso da defesa foi rejeitado e os policiais acusados pela morte da Kathlen Romeu vão, sim, a júri popular. Agora será o povo, no Tribunal do Júri, quem vai decidir o destino de quem tirou a vida dela. Justiça caminha, muito lentamente, mas caminha", escreveu o advogado Rodrigo Mondego em uma rede social. 
No 8 de junho de 2021, Kathlen Romeu, à época com 24 anos e grávida de quatro meses, foi baleada durante uma ação da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) do Complexo do Lins. De acordo com a denúncia do Ministério Público do Rio (MPRJ), os policiais dispararam contra suspeitos na região conhecida como Beco da 14, mas os tiros não atingiram os homens, que fugiram, e acertaram a jovem, que caminhava pela Rua Araújo Leitão com a avó. Os militares são acusados de efetuar os disparos e alegam que houve troca de tiros com traficantes, quando a vítima foi atingida.
Apesar da decisão para o julgamento dos policiais, a mãe de Kathlen se disse preocupada que outras jovens e moradores de comunidades do Rio sejam vítimas de violência, se as gratificações para policiais civis que "neutralizarem" suspeitos durante confrontos for sancionada. O projeto conhecido como "gratificação faroeste" foi aprovado pela Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) e seguiu para sanção ou veto do governador Cláudio Castro. O Ministério Público Federal (MPF) também se manifestou contra a medida
"É licença para matar! Para o Estado, todo preto, pobre, periférico e favelado é bandido! Se for sancionado, vão morrer umas 15 Kathlen diariamente (...) Bônus tem que ser pró-vida, tem que ser na educação e para saúde, que estão agonizando e salvam vidas! Para indenizar as famílias não tem dinheiro, mas para matar sempre sobra. Perdi minha filha e neto pelo braço armado do Estado e temo por quem mais posso perder se isso for sancionado!", declarou Jaqueline.