Salvino Oliveira foi preso em operação realizada nesta quarta-feira (11)Reprodução
Publicado 13/03/2026 14:58
Rio - O vereador Salvino Oliveira (PSD), preso nesta quarta-feira (11) por uma suspeita de ligação com a facção Comando Vermelho (CV), teria recebido mais de R$ 100 mil, durante um período de quatro meses, devido a uma ligação com uma empresa de informática sediada no Complexo da Maré, na Zona Norte.
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A Polícia Civil divulgou, na tarde desta sexta-feira (13), informações sobre o que motivou o pedido de prisão temporária do parlamentar. Segundo a corporação, foram identificadas transações atípicas e/ou suspeitas no segundo semestre de 2024, nas quais ele é beneficiário de valores provenientes de empresa de informática, em uma área controlada pelo CV.
Ainda de acordo com a Civil, não há qualquer justificativa lícita e aparente que explique a relação comercial entre Salvino e a pessoa jurídica. Além disso, os dados levantados revelaram que, em apenas quatro meses, o vereador recebeu créditos suspeitos e/ou atípicos que ultrapassam R$ 100 mil, incluindo 11 depósitos em dinheiro vivo. Os dados de inteligência foram comunicados por relatório de inteligência financeira solicitado no curso da investigação.
A apuração que motivou a Operação Contenção Red Legacy, deflagrada na quarta-feira (11), teve início em 2024. O objetivo é combater as atividades ilícitas de empresas de exploração de internet do Complexo da Penha, também na Zona Norte, identificadas sob o controle do traficante e líder do CV, Edgar Alves de Andrade, o Doca.
Durante a investigação, a Civil afirmou que agentes encontraram diálogos que envolvem diretamente Salvino e outros alvos da operação, como Landerson Lucas dos Santos - sobrinho do traficante Marcinho VP -, com o Doca e o "síndico do Gardênia". De acordo com a corporação, neste bairro, foram construídos quiosques sem processo publicizado e voltado para exploração da facção, com intermediação do vereador.
Envolvimento de assessor 
Dados de inteligência, também informados nesta quarta pela Civil, apontaram para movimentações suspeitas realizadas por pessoas jurídicas que têm como sócio o principal assessor de Salvino. A companheira desse homem, que não teve a identidade revelada, foi identificada como o centro de uma estrutura complexa voltada para a lavagem de dinheiro.
"Essa estrutura demonstra sofisticação e volume considerável: em sete meses, foram realizados mais de 20 saques em espécie de sua conta pessoal, que totalizaram R$ 2,4 milhões - uma média de R$ 100 mil por saque -, muitos ocorrendo em dias consecutivos. Além disso, uma das empresas em nome da esposa do assessor movimentou mais de R$ 35 milhões em pouco mais de dois anos, valores completamente incompatíveis com o faturamento declarado de aproximadamente R$ 2 milhões", explicou a Civil.
Desse montante recebido, foram identificados R$ 300 mil oriundos de uma empresa investigada por ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC).
A Civil ressalta que há fortes indícios de que o grupo tenta burlar mecanismos de controle e de fiscalização, uma vez que foram registrados quatro saques no valor de R$ 49.999,99 - um valor imediatamente inferior ao limite de R$ 50 mil, que obriga instituições financeiras a realizar a comunicação compulsória aos órgãos competentes.
Em pouco mais de dois anos, a movimentação total identificada apenas nas contas pessoais da sua mulher do assessor de Salvino superou R$ 3 milhões, valor incompatível com a renda declarada. Segundo a Civil, esse homem é sócio de uma empresa que recebeu R$ 390 mil, em duas transferências, sem a motivação lícita aparente e enviou mais de R$ 1 milhão para outra empresa sem justificativa comercial identificável.
"Esse mesmo assessor figura como sócio-diretor de uma pessoa jurídica cujo sócio presidente é filho do traficante Elias Maluco, falecido líder do Comando Vermelho e responsável pelo assassinato do jornalista Tim Lopes. O conjunto de elementos colhidos até o momento apontam que o investigado [Salvino] além dos elementos que recaem sobre si, possui vinculação direta com personagens relevantes desta estrutura sofisticada possivelmente voltada para a lavagem de dinheiro, mantendo como seu assessor uma figura de destaque na estrutura criminosa investigada", afirmou a nota.
Prisão temporária
Para a Civil, os elementos colhidos na investigação justificam o pedido de prisão temporária feito à Justiça do Rio. Tal representação teve como objetivo a necessidade imediata de preservar provas colhidas e de permitir a continuidade da coleta de novos elementos, tendo em vista o receio de que o Salvino, em liberdade, possa interferir nas apurações e destruir evidências relevantes.
O segundo motivo apresentado pela corporação diz respeito à decisão técnica adotada pelos responsáveis da apuração de não incluir na representação todos os dados financeiros levantados até o momento. Essa opção se deve à necessidade de preservar informações relativas a pessoa que não têm relação direta com o objeto central da investigação, bem como a garantia de que tais dados sejam submetidos a uma apuração técnica criteriosa pela Delegacia de Combate ao Crime Organizado e à Lavagem de Dinheiro (Dcoc-LD).
Os dados telemáticos foram considerados pelos investigadores como suficientes para fundamentar o pedido de prisão temporária. Contudo, a Civil explicou que eles não representam a totalidade dos elementos que compõem o quadro de indícios contra o vereador.
"O conjunto da inteligência financeira produzida - especialmente os Relatórios de Inteligência Financeira elaborados pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que reuniram e sistematizaram as provas técnicas descritas acima - forma um cenário coerente e consistente de envolvimento do investigado em atividades ilícitas de grande complexidade, o que torna a medida cautelar requerida não apenas justificada, mas necessária", destacou.
Salvino passou por audiência de custódia nesta quinta-feira (12) e teve a prisão mantida. O juiz Otávio Hueb Festa ressaltou que o mandado de prisão temporária contra ele, por organização criminosa e associação para o tráfico, ainda se encontra dentro do prazo de validade; que a decisão que ocasionou sua expedição seguia mantida pelo juízo natural; e que não houve irregularidades no ato da detenção.
O que diz a defesa?
Procurada, a assessoria do vereador afirmou que a nota da Polícia Civil ampliou as condições confusas da prisão ao descrever diversas condutas criminosas sem nominar os acusados e atribuir a cada um as suas responsabilidades.

"A polícia afirma possuir Relatório de Inteligência Financeira (RIF), mas este não faz parte do processo em que houve a decretação da prisão. A assessoria desconhece a sua existência, o que é grave e viola o direito à ampla defesa de qualquer acusado em um estado democrático de direito", defendeu a nota.

A assessoria ainda finalizou dizendo que é "absolutamente inverossímil" que Salvino tenha realizado qualquer movimentação deste vulto ou tenha qualquer relação com empresa, fintechs, ou lavagem de dinheiro.
Castro x Paes
Na quarta-feira (11), o governador Cláudio Castro (PL) usou as redes sociais para detonar o vereador. No X, antigo Twitter, ele afirmou que Salvino atacava o governo e às polícias, mas que, depois da operação, toda população estaria conhecendo "o seu real lado: trabalhava para bandido e não para o povo!".
"A operação revela que ele negociou com o traficante Doca para obter autorização e fazer campanha eleitoral em área dominada pela facção, em 2024. Esse Salvino também atacou brutalmente a Polícia Militar durante uma operação na Cidade de Deus. Da milícia ao Comando Vermelho, essas organizações criminosas vêm se infiltrando na Prefeitura do Rio de Janeiro há décadas! É só ver o domínio territorial que alcançaram ao longo dos anos. É o que sempre digo: não adianta, a verdade sempre prevalece!", escreveu Castro.
Nesta quinta-feira (12), o prefeito Eduardo Paes (PSD) defendeu Salvino, que foi seu secretário Especial de Juventude durante três anos. Em coletiva de imprensa sobre a renovação da frota de ônibus na Zona Oeste, ele disse que estará ao lado do vereador até que sejam provados os crimes a ele atribuídos.
"O Salvino é próximo a mim. Ele é uma aposta que fiz. Um jovem de uma favela, de uma comunidade do Rio de Janeiro, Cidade de Deus, que é uma parte expressiva da cidade. Quando eu o conheci, ele fazia estágio na Defensoria Pública e estudava na UFRJ. Mesmo assim, dedicava uma parte da sua noite para me ajudar na minha campanha. Para mim, seria uma surpresa. Se tiver alguma prova contra o vereador Salvino, eu vou ficar com o coração partido. Porque é um jovem que eu vi formando, que estimulei, nomeei secretário, ajudei a ser eleito vereador. Se tiver alguma coisa contra ele, eu não me omito", afirmou.
Nesta sexta-feira (13), durante inauguração do setor de trauma do Hospital do Andaraí, Paes voltou a falar sobre o parlamentar e afirmou que a prisão de Salvino é uma forma de atacá-lo.
"Tentaram me atingir, esses covardes. O Salvino se autointitulava, nos panfletos dele, como cria da Cidade de Deus. Isso partia, dessa gente preconceituosa, que ele tinha ligações com a comunidade dominada pelo tráfico, justamente pela incompetência dessa gente que manda no Estado do Rio. Se eles têm objetivo de me atacar, me ataquem. Não sejam covardes para atingir um jovem vereador. Se amanhã tiver alguma prova, eu vou ser o primeiro a dizer para responder por seus crimes, mas se Deus quiser, ele estará na terça-feira que vem na Câmara defendendo o povo pobre", completou.
De acordo com Paes, a defesa do vereador já entrou com um habeas corpus na Justiça.
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