Jairo Souza Santos JúniorReginaldo Pimenta/Arquivo O Dia
Caso Henry Borel: Defesa alega perseguição contra Jairinho e afirma que provas foram manipuladas
Advogados do ex-vereador tentam descredibilizar laudos, testemunhas e a atuação do pai do menino
Rio - No décimo e último dia do julgamento pela morte de Henry Borel, a defesa de Jairo Souza Santos Júnior, o Dr. Jairinho, concentrou sua sustentação na tentativa de convencer os jurados de que o ex-vereador é vítima de uma perseguição construída a partir de testemunhos manipulados, laudos periciais supostamente contaminados e uma atuação ativa de Leniel Borel, pai da criança, na condução das investigações.
Durante os debates, os advogados Fabiano Lopes e Zanone Junior retomaram uma série de argumentos apresentados ao longo da instrução processual e do interrogatório de Jairinho, buscando enfraquecer a credibilidade da acusação e das provas produzidas pela investigação.
A defesa voltou a questionar os laudos do Instituto Médico Legal (IML), destacando conversas entre a perita Gabriela Graça, Leniel e advogados ligados à assistência de acusação. Entre os trechos exibidos aos jurados, Fabiano ressaltou uma mensagem em que a perita teria escrito "Obrigada pela confiança" ao pai de Henry.
Segundo a defesa, as mensagens levantariam dúvidas sobre a imparcialidade dos pareceres periciais produzidos após a morte do menino. Os advogados sustentam que Leniel procurou a perita cerca de duas semanas depois da morte para discutir detalhes do caso e que essa aproximação teria influenciado alterações posteriores nos laudos.
Outro ponto explorado foi a sucessiva modificação dos exames periciais elaborados pelo médico legista Leonardo Huber Tauil. A defesa destacou que o documento passou por diversas atualizações ao longo das semanas seguintes à morte de Henry e argumentou que as mudanças colocariam em dúvida a consistência das conclusões apresentadas à Justiça.
Fabiano também voltou a sustentar a tese de que Leniel teria omitido informações relevantes sobre os dias anteriores à morte do filho. O advogado relembrou um suposto acidente de carro envolvendo Leniel e Henry antes do crime e mencionou pesquisas realizadas pelo pai da criança em farmácias após o menino reclamar de dores de cabeça.
Além disso, a defesa apresentou mensagens trocadas entre Leniel e Monica Renault para tentar demonstrar que o pai de Henry teria passado parte do fim de semana com ela, contrariando sua versão sobre o tempo que permaneceu exclusivamente com o filho.
A estratégia também incluiu ataques à credibilidade de testemunhas. A defesa afirmou que Leniel teria influenciado relatos de ex-namoradas de Jairinho, incluindo Débora Mello Saraiva, além de sustentar que depoimentos teriam sido direcionados pela polícia durante a investigação.
Em outro momento da sustentação, Fabiano acusou Leniel de tentar obter informações sobre os jurados do Tribunal do Júri, afirmando que ele teria solicitado que fosse "puxada a capivara" dos integrantes do conselho de sentença.
Os advogados também procuraram relativizar episódios de supostas agressões relatados por testemunhas. Segundo a defesa, situações descritas como violência não passariam de brincadeiras ou correções disciplinares sem gravidade. Fabiano argumentou que Jairinho não poderia ser condenado a décadas de prisão por episódios que, na visão da defesa, não configurariam agressões graves.
A sustentação ainda contestou o laudo psicológico apresentado no processo. A defesa criticou o psicólogo responsável pela análise comportamental dos réus, alegando que ele jamais ouviu diretamente Jairinho e a mãe da criança, Monique Medeiros, que também é ré no processo, para formular suas conclusões. Os advogados classificaram o profissional como alguém que sustentaria posições ideológicas incompatíveis com o perfil do ex-vereador.
Durante a apresentação, também foi retomada a tese de que Monique jamais teria acreditado que Jairinho representava perigo ao filho. Como exemplo, a defesa citou episódios da relação do casal após a morte de Henry, argumentando que determinadas atitudes da mãe da criança seriam incompatíveis com alguém que acreditasse estar convivendo com um assassino.
Ao longo de toda a sustentação, a defesa reforçou a narrativa de que Jairinho teria sido transformado no alvo central de uma investigação conduzida sob forte pressão pública e política, sustentando que a condenação do ex-vereador serviria aos interesses de terceiros.
Defesa de Monique alegou que mãe está sendo julgada apenas por ser mulher
Horas antes da manifestação da defesa de Jairinho, os advogados de Monique também apresentaram seus argumentos aos jurados.
O advogado Hugo Novais afirmou que sua cliente está sendo responsabilizada unicamente por ser mãe da vítima e não por provas concretas de participação ou omissão dolosa na morte de Henry.
Durante sua sustentação, Novais chegou a abrir a toga para exibir uma camisa com fotografias de Monique ao lado do filho. Segundo ele, a acusação tenta associar comportamentos pessoais da ré à sua responsabilidade criminal.
A defesa argumentou que a ex-professora não tinha condições de prever a morte da criança ou impedir o resultado fatal e relembrou os episódios de agressão atribuídos a Jairinho para sustentar que ela não possuía conhecimento da gravidade da situação.
A advogada Florence Rosa também criticou comentários feitos sobre a vida pessoal da ré após a morte do filho, como idas ao salão de beleza e à academia. Segundo ela, tais comportamentos não servem como prova de omissão ou negligência.
Enquanto isso, a assistência de acusação sustenta que Monique ignorou sinais claros de violência contra o filho e falhou em seu dever de proteção.
Relembre o caso
Henry Borel Medeiros, de 4 anos, morreu na madrugada de 8 de março de 2021 após ser levado por sua mãe e pelo então namorado dela ao Hospital Barra D'Or, na Zona Sudoeste do Rio.
Laudos periciais concluíram que a criança apresentava múltiplas lesões e que a causa da morte foi uma hemorragia interna provocada por laceração hepática decorrente de ação contundente.
O Ministério Público acusa Jairinho de homicídio triplamente qualificado, tortura, coação de testemunhas e fraude processual. Monique responde por homicídio por omissão imprópria, sob a acusação de ter deixado de agir para proteger o filho mesmo diante de sinais de agressões.
Após dez dias de julgamento, o Tribunal do Júri entra na fase decisiva dos debates finais. A expectativa é que os jurados se reúnam ainda nesta quarta para deliberar sobre a condenação ou absolvição dos réus.


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