Cláudio foi agredido no dia 11 de agosto, quando saiu de casa para andar de bicicletaReprodução / Câmeras de Segurança
Segurança relata que tentou parar colega que agredia ciclista
Depoimentos revelam versões conflitantes sobre morte de Cláudio Rafael e apontam que entregadores foram chamados para participar das agressões
Rio - Os depoimentos dos seguranças Davi Santos Machado, de 21 anos, e Jorge Luiz Ricardo Dias, de 56, prestados à 12ª DP (Copacabana), revelam versões conflitantes sobre a sequência de agressões que terminou com a morte do ciclista Cláudio Rafael Landeiro Moreira, de 37, no dia 11 de agosto.
Em sua primeira declaração, prestada espontaneamente no dia 17 de agosto, Davi afirmou que deu apenas um soco no braço de Cláudio durante uma discussão e que não havia presenciado as agressões posteriores. Três dias depois, já como investigado, mudou a versão e admitiu ter participado do espancamento.
Segundo o novo relato, Cláudio foi abordado na madrugada de 11 de agosto, na Rua Barata Ribeiro, depois que um morador chamou a atenção do segurança para a bicicleta. A vítima teria informado que o veículo não era roubado. Mesmo assim, Davi decidiu retirar a bicicleta do local.
O segurança reconheceu ter entrado em confronto físico com Cláudio e afirmou que, durante o deslocamento, encontrou dois entregadores de aplicativo. De acordo com o depoimento, eles perguntaram se o homem era ladrão. Davi respondeu que se tratava de um suspeito. Depois, os três teriam passado a agredir Cláudio com socos e pontapés.
Davi também admitiu ter usado um cassetete durante o espancamento. Em determinado momento, segundo o próprio relato, alguém teria dado ordens para que ele atingisse a vítima na cabeça. O segurança classificou posteriormente sua própria atitude como um "ato insano".
O depoimento de Jorge, prestado em 20 de agosto, acrescentou elementos à investigação e apresenta uma versão diferente da participação dele no crime. O segurança contou que recebeu uma ligação de Davi pedindo que fosse até a Rua Barata Ribeiro porque havia uma bicicleta supostamente roubada. Ao chegar, teria encontrado Davi com a bicicleta e Cláudio.
Segundo Jorge, Davi começou a agredir a vítima com socos e, depois, entrou em um estabelecimento comercial, de onde teria retirado um cassetete utilizado nas agressões. Jorge afirmou que levou a bicicleta e deixou o local. Mais tarde, voltou à região para procurar Davi. Foi então, segundo seu depoimento, que encontrou o colega na Rua Felipe de Oliveira acompanhado de dois entregadores.
Cláudio estava caído no chão e, de acordo com Jorge, era agredido pelos três. O segurança afirmou que não participou das agressões e disse ter pedido que Davi parasse. "Davi, sai daí! Vai ficar batendo no rapaz aí? Se aparecer uma viatura, você vai rodar no flagrante!", afirmou no depoimento.
Ainda segundo Jorge, Davi estava "muito agressivo" e teria sido responsável por chamar os entregadores para o local e incentivar as agressões.
Entregadores teriam sido chamados para participar
A versão apresentada por Jorge coincide, em parte, com a apuração da Polícia Civil. Segundo o delegado Ângelo Lages, titular da 12ª DP, os dois entregadores não chegaram ao local por acaso.
Davi teria abordado os motociclistas enquanto eles passavam pela Avenida e dito que havia um "ladrão de bicicleta". Os entregadores teriam seguido até a Rua Felipe de Oliveira e chegado antes dele. "Foi naquele ponto que a vítima acabou assassinada", afirmou Lages.
Com a prisão de Felipe Eduardo dos Santos Silva, de 23 anos, três dos quatro investigados apontados pela polícia estão presos. O único foragido é Ailton José da Silva, de 24 anos, que também é apontado como participante das agressões.
Além dos dois entregadores, a investigação mira Davi e Jorge. O delegado afirmou que não há imagens que mostrem Jorge agredindo diretamente Cláudio, mas existem registros posteriores em que ele aparece deixando o local ao lado de Davi, enquanto os dois carregavam porretes.
Segurança clandestina também é investigada
A investigação ainda apura a possível existência de uma rede informal de segurança privada atuando nas ruas de Copacabana. Imagens analisadas pela polícia mostram Davi entrando em um estabelecimento na Rua Barata Ribeiro e saindo com um pedaço de madeira que teria sido utilizado nas agressões. Segundo Lages, comerciantes que contratavam esse tipo de serviço serão chamados para prestar esclarecimentos.
A polícia também busca identificar outras pessoas que aparecem nas imagens do espancamento. Uma delas seria um homem que aparece dando um chute na cabeça de Cláudio quando ele já estava caído. "Existem outras pessoas que aparecem nas imagens e todas terão a participação analisada", afirmou o delegado.
Outra frente da investigação tenta esclarecer se houve omissão de socorro. As imagens mostram pessoas passando pelo local durante as agressões. A polícia quer identificar quem acionou o Corpo de Bombeiros e verificar se alguém deixou de ajudar a vítima.
Celular de segurança pode ajudar na investigação
Outro elemento que chamou a atenção dos investigadores aparece no depoimento de Davi. O segurança afirmou ter gravado a agressão com o próprio celular. Ele também declarou que apagou conteúdos do aparelho e forneceu a senha à polícia. A informação deverá ser confrontada com os dados extraídos do telefone para verificar se existem imagens, mensagens ou outros registros capazes de esclarecer a dinâmica do crime.
Relembre o Caso
Cláudio Rafael Landeiro Moreira, de 37 anos, saiu de casa, em Botafogo, na noite de 11 de agosto para andar de bicicleta. O veículo pertencia a uma de suas irmãs. Na Rua Barata Ribeiro, ele foi abordado após a suspeita de que a bicicleta pudesse ser roubada. Familiares relataram que Cláudio tinha transtornos mentais e não conseguiu explicar adequadamente a origem do veículo.
A abordagem terminou em violência. Segundo a investigação, ele foi levado até a Rua Felipe de Oliveira, onde acabou cercado e agredido. Imagens de câmeras de segurança registraram parte da ação. A análise policial aponta que Cláudio recebeu ao menos 57 golpes com pedaços de madeira, além de socos e chutes. Mesmo depois de cair desacordado, continuou sendo atacado.
O Corpo de Bombeiros foi acionado e levou a vítima ao Hospital Municipal Miguel Couto. Cláudio morreu em decorrência de traumatismo craniano e hemorragia interna.
Os investigados respondem por homicídio triplamente qualificado, por motivo torpe, meio cruel e impossibilidade de defesa da vítima. A Polícia Civil continua procurando Ailton José da Silva e apura a participação de outras pessoas registradas pelas câmeras.





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