Turismo gera renda e a preservação do peixe-boi

Conscientização das populações ribeirinhas no Nordeste está ajudando na sobrevivência dos mamíferos marinhos, um dos animais ameaçados de extinção

Por paulo.gomes

Caçados por pescadores e feridos em embarcações%2C peixe-boi quase foi extinto. Hoje existem 1 mil animaisDivulgação / SOS Mata Atlântica%2C

Rio - Bacuri é o mais novo membro de uma família de peixes-boi marinho que graças a um programa único e pioneiro de preservação ambiental — a APA Costa dos Corais, no Nordeste — está livre da extinção. Ele foi o primeiro bebê do mamífero aquático nascido em cativeiro no Brasil. O ‘curral’ fica localizado no Rio Tatuamunha, no município de Porto de Pedras, em Alagoas.

Com o apoio da Fundação Toyota do Brasil e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), no ano passado, mais quatro peixes-boi foram reintroduzidos em seu habitat natural, depois de passarem por um período de adaptação longe da ação de turistas e caçadores.

Desde 1994, mais de 40 animais, muitos órfãos, foram resgatados de criadouros ilegais e devolvidos à natureza. A ação contribuiu para que a espécie deixasse de constar na categoria ‘Criticamente em Perigo’, sendo listada na categoria ‘Em Perigo’, da lista de espécies da fauna brasileira ameaçadas. Hoje, pesquisadores contabilizam até 1.000 animais entre os estados de Alagoas e Amapá. Antes eram 500.

O sucesso do programa só foi possível pelo envolvimento das comunidades ribeirinhas. Pai de cinco filhos, Antônio Alves da Silva, de 38 anos, é um dos 48 pescadores que passaram a proteger o animal, que no passado foi seu pior inimigo. “A gente colocava a rede de manhã e à noite não havia um único peixe para alimentar a família. Eles arrebentavam tudo”, conta o pescador que como muitos chegaram a agredir o animal para se livrar dele. Hoje retira seu sustento trabalhando como guia, enquanto as mulheres fazem artesanato para vender aos turistas. “Minha vida melhorou muito. E o melhor é que estamos ajudando a preservar esse paraíso para meus filhos e netos”, diz, orgulhoso.

Presidente da Associação Peixe-boi, Flávia Rego, explica que 70 famílias vivem em função da espécie. A entidade recebe até 70 visitantes todos os dias para passeios em jangada para ver o animal solto na natureza. “O turismo de observação é um dos maiores geradores de renda no município”, revela.

Apesar dos programas de proteção, o peixe-boi não está imune à extinção, como explica o oceanógrafo Mauro Maida. “Hoje a ameaça não é mais a caça, mas a perda dos manguezais que estão sendo depredados para criação de camarões”, alerta.

A preservação da espécie depende da sobrevivência dos manguezais. “Eles são o berçário dos oceanos. Mais de 80% das espécies dependem desse ecossistema que é o maior aliado contra o aquecimento global. Os mangues são os que mais absorvem carbono da atmosfera. Estados têm que focar políticas públicas na proteção desse meio”, diz Clemente Coelho, diretor-presidente do Instituto Bioma Brasil.

Paraíso dos corais

A luta pela preservação ambiental em 413 mil hectares de vida marinha, entre os estados de Pernambuco e Alagoas, enfrentou a resistência de pescadores. Há cinco anos, a Área de Proteção Ambiental (APA) Costa dos Corais, gerida pelo governo federal, através do ICMBio, com apoio da Fundação Toyota do Brasil e a SOS Mata Atlântica, tem ajudado a preservar recifes essenciais à sobrevivência de mais de 185 espécies de peixes e crustáceos.

Proteção dos recifes de corais em Tamandaré aumentou o pescadoDivulgação / SOS Mata Atlântica

Em Tamandaré (PE) foi criada a Zona de Preservação da Vida Marinha, fechada para estudos científicos. Lá, pesquisadores observaram o retorno de espécies ameaçadas como o Mero. “Pescadores reclamavam da restrição da sua principal atividade. Mas hoje comemoram o aumento do pescado no entorno da área de proteção”, diz o oceanógrafo Mauro Maida.

Curiosidades do peixe-boi

Peixes-boi marinho são mamíferos herbívoros que, quando adultos, podem atingir 600 quilos e medir até quatro metros. Comem por dia 10% do seu peso em plantas como capim-agulha e folhas de mangue. A população diminuiu drasticamente devido à caça. Por serem muito dóceis eram mortos com arpões ou a pauladas quando subiam à superfície para respirar.

A reprodução ocorre na cheia dos rios, entre junho e dezembro. Como todo mamífero, a gestação é demorada: até 14 meses para o nascimento de um filhote. As fêmeas amamentam por dois anos, quando voltam a engravidar. Eles vivem 60 anos. O animal pode ficar até cinco minutos em baixo da água sem respirar. Em repouso, consegue permanecer até 20 minutos submerso.

A jornalista viajou a convite da Fundação Toyota do Brasil

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