Praia pouco frequentada na Baía da Ilha Grande vira cenário para casamentos

Longe do burburinho da Vila do Abrahão, Enseada de Araçatiba atrai turistas com lendas, histórias e belezas ainda pouco exploradas

Por O Dia

Rio - Foi ele quem se apaixonou primeiro pelo lugar. E resolveu preparar uma surpresa para a amada. Numa tarde de sexta-feira de agosto, se casaram, tendo apenas o pôr do sol como testemunha, em um dos cenários mais deslumbrantes que a natureza pode proporcionar: a Enseada de Araçatiba, na Baía da Ilha Grande.

Moradores do Recreio, na Zona Oeste do Rio, o economista Riko Assumpção, de 32 anos, e a administradora Alice Mallet, 34, escolheram a Praia de Araçatiba para selar a união que já dura dois anos. “Foi tudo maravilhoso. Do jeito que eu queria”, resume ela.

O plano inicial do casal era celebrar a união no Caribe, mas o mar cor de esmeralda da Baía de Ilha Grande seduziu o rapaz, que conheceu o paraíso tempos atrás e sonhava em levar a namorada.

Riko e Alice se casaram numa tarde sem amigos nem família%3A só o pôr do sol como testemunhaAcervo Pessoal

“Gosto de locais com muito verde. Nosso último passeio foi a Fernando de Noronha”, conta o economista que, inacreditavelmente urbano, pedira Alice em casamento em plena Nova York, em um primeiro de abril.

Há dois meses, a decisão de casar na ilha, em uma cerimônia simples e intimista, foi tomada. Eles contrataram os serviços da Pousada Refúgio do Capitão, uma das poucas que existem por ali.

Cada detalhe do cerimonial e da produção ficou por conta da equipe da pousada. Do celebrante ao buquê da noiva, passando pelo jantar a dois à luz de velas, a fotografia, a música suave... De brinde, o belo e quase intocado ecossistema da ilha.

Os dois já embarcaram para Paris, na França, onde ele fará um mestrado em Finanças durante os próximos dois anos. Para trás, a lembrança de um casamento inesquecível, em total harmonia com a natureza.

Riko e Alice não são os primeiros. Há 15 anos, quando a Ilha era bem menos habitada, o biomédico Helio Millan, 38, e Daniele Millan, 39, também diziam ‘sim’ para uma história que hoje navega nas águas nem sempre calmas do mar da Baía, entre o barco Deusa Maior e a terra firme, no cais de Angra dos Reis.

O trajeto de 14 km leva quase duas horas de viagem. “Naquela época, não tinha luz elétrica, todos os convidados vestiam branco, pés na areia”, lembra ela. Os filhos do casal acompanham os pais nas idas e vindas. E também levam os amigos para curtir a Ilha. Como os pais faziam antigamente.

Viagem por histórias e lendas da Ilha

Longe do agito da Vila do Abrahão, a mais movimentada da Ilha Grande, Hélio promove passeios à Enseada de Araçatiba, que incluem uma aula de histórias e lendas sobre a região. Tudo entremeado por paradas para mergulho nas águas cristalinas. O visitante pode conhecer as fazendas marinhas (onde se cultiva algas marinhas, mexilhão e vieiras), antigas fábricas de sardinha criadas por japoneses e a comunidade de caiçaras, com pouco mais de 250 habitantes.

Reza a lenda que o recanto verde esconde uma fazenda para tráfico de escravos. Aqueles que adoeciam eram jogados ao mar. E que um naufrágio de Pedro II a caminho de Portugal deixou por ali um tesouro da Família Imperial.

Hélio segue os passos da mãe, que há mais de 30 anos jogou para o alto um importante cargo na Unicamp e se rendeu aos encantos da Ilha. Margareth Millan, 56, conheceu um ‘bajcheco’ (nome dado aos nativos), um marujo filho de pescador. Nascido numa canoa a remo, Ademar da Conceição, 48, hoje comanda o barco da família.

Por trás da janela torta

Palco de casamentos ecológicos, a Pousada Recanto do Capitão era, no início, apenas uma janela. “Eu comprei uma janela torta. Não sabia o que tinha atrás dela”, lembra Margareth, que divide a administração e a cozinha do estabelecimento com a tarefa de escrever um livro sobre as dores e delícias de viver no meio do mar.

O ‘start para chutar o pau da barraca’, como diz, surgiu depois de longos anos levando para a Ilha inúmeras caravanas de amigos nos fins de semana. Ali ela fixou residência depois de muitas idas e vindas (6h de viagem) até Campinas. E foi pioneira no turismo ecológico na Enseada, a primeira a fincar uma pousada no local — hoje são 15 pousadas, pequenos restaurantes e casas para veraneio. “Naquela época não tinha nem um quinto das casas que tem hoje. Não tinha nem boteco de pinga”, conta a ex-analista de sistemas.

Ela tenta explicar a decisão de deixar para trás a vida executiva de diretora do Núcleo de Informática da Unicamp. “Fui abduzida. Sou uma pessoa centrada, equilibrada. Nunca fui ‘porra louca’. Mas quando botei o pé na praia, me apaixonei. Acho que foi destino”, diz ela, sobre a magia que a ilha exerce em quem a visita. “Na cidade se trabalha para adquirir bens, acumular, comprar coisas. E aqui a gente descobre que para se sentir feliz não precisa de nada. A Ilha é meio bruxa, meio mágica, te encanta”, filosofa.

* A jornalista viajou a convite da Secretaria Municipal de Turismo de Angra dos Reis. No próximo domingo, osd esafios de gerir o turismo e o lixo na Baía da Ilha Grande. Você vai conhecer a história das "mulheres vermelhas".

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