Eterna dama

Mais linda e mais jovem primeira-dama que o país já teve, Maria Thereza Goulart elevou autoestima dos brasileiros numa década em que as mulheres já ensaiavam uma revolução de costumes

Por O Dia

Rio - A década de 60 ferveu: revolucionou o mundo, o Brasil e a cabeça das mulheres. Se no começo dos anos 1960 elas usavam recatados maiôs Catalina, faziam vestidos rodados em costureiras e se espelhavam nas ingênuas misses, ao longo do período, as mulheres se reinventaram: colocaram as pernas de fora usando minissaias radicais, bordaram o símbolo hippie no jeans boca de sino e o biquíni – ousadia de musas como a francesa Brigitte Bardot – virou a bandeira de garotas que iam à praia no Castelinho (trecho de Ipanema que ficava entre as ruas Rainha Elizabeth e Francisco Otaviano) para discutir política e falar sobre o Cinema Novo.

“No fim da década de 60, muitos jovens substituíram os temas políticos pelo da liberdade individual. A repressão a ser combatida deixou de ser a do regime militar e passou a ser a sexual e a familiar. Este anseio por liberdade sexual parece ter sido um elemento importante para a transformação de Leila Diniz (1945-1972) em um símbolo de mulher revolucionária”, avalia a antropóloga Mirian Goldenberg.

Clique para ver o infográfico completoArte: O Dia

Porém, quando a gaúcha de São Borja Maria Thereza Goulart tornou-se, em 1961, aos 21 anos, a primeira-dama mais bonita e mais jovem do Brasil – com a renúncia de Jânio Quadros (1917-1992), seu marido, João Goulart (1919-1976), assumiu o poder – os anos ainda pareciam dourados e as mulheres, submissas. Eram poucas as inseridas no mercado de trabalho; as que ousavam ser desquitadas ficavam mal faladas (o divórcio foi legalizado em 1977 no Brasil) e a liberdade sexual começou a ser apenas vislumbrada com o surgimento da pílula anticoncepcional no mesmo período.

“As mudanças comportamentais começaram a ocorrer depois da Segunda Guerra Mundial, mas a mentalidade só se transformou no início da década de 70”, analisa a psicanalista e colunista do DIA Regina Navarro Lins. “Maria Thereza, assim como a maioria das mulheres da época, ainda era um retrato da década de 50, da mulher que jamais vai se separar do marido, de um tempo em que as coisas eram permanentes. Ela não foi afetada pelo feminismo, que ainda era embrionário no Brasil”, lembra a jornalista Germana de Lamare, que trabalhou no ‘Correio da Manhã’ na década de 60.

Mas o que faltava em engajamento sobrava em glamour. Maria Thereza elevou a autoestima dos brasileiros, que tinham orgulho de sua bela figura. A mulher de João Goulart foi comparada a Jacqueline Kennedy (1929-1994), icônica primeira-dama dos Estados Unidos, e considerada uma das dez mulheres mais bonitas do mundo pela revista norte-americana ‘Time’. De lambuja, encantou até Frank Sinatra (1915-1998), que enviou uma carta para a primeira-dama brasileira depois de ela ter elogiado o cantor em uma entrevista.

Para o lendário estilista Guilherme Guimarães, um dos mais badalados dos anos 60, Maria Thereza era ainda mais bonita que Jacqueline Kennedy. “Enquanto Jackie tinha o rosto quadrado e os olhos separados, Maria Thereza era dona de traços e perfil perfeitos. Jacqueline era uma mulher do mundo, já Maria Thereza nasceu no interior do Rio Grande do Sul. Mas ambas tinham uma elegância que vinha de dentro”, compara.

E Maria Thereza gastou a beleza cravando a sua marca na moda brasileira. Elegeu um costureiro nacional, Dener Pamplona de Abreu (1937-1978), para assinar seu guarda-roupa, tal qual Jackie Kennedy, que tinha no francês naturalizado norte-americano Oleg Cassini o seu costureiro oficial. “Eu só usava as roupas dele, que eram chiquérrimas. Quando voltei da Espanha e desembarquei como primeira-dama, em 1961, vestia uma roupa de Dener, que tinha uma inteligência fantástica.

Como era muito tímida, pedi algumas dicas para ele, que, me sugeriu, por exemplo, deixar de roer as unhas. Em público, só aparecia com unhas postiças”, conta Maria Thereza, hoje com 73 anos. “Dener também me ensinou a descer escada e me disse: ‘Quando não tiver assunto, sorria e cumprimente as pessoas’”, emenda. Quando Jango foi deposto em 1964 por conta do golpe militar, a primeira-dama deixou o luxo para trás. “Perdi tudo. Joias, vestidos... saí com uma maletinha minha e uma outra das crianças”, lamenta.

Apesar do desfecho súbito, a parceria entre Maria Thereza e Dener entrou para a história. “Ela valorizou a moda nacional. E se tivessem observado a maneira de ela se vestir teriam visto que João Goulart jamais poderia ser comunista”, observa a pesquisadora de moda e jornalista Ruth Joffily. “Maria Thereza tinha um visual de alta-costura, muito elitista. E Dener era o grande nome da época”, afirma a jornalista Iesa Rodrigues. “Ela se deixava vestir. E Dener adorava Maria Thereza, ela era a musa dele”, conta Guilherme. “Maria Thereza era considerada a mais bonita e a mais elegante primeira-dama do Brasil. Era um referencial de beleza e, por extensão, difundiu os valores de moda”, explica João Braga, professor de História da Moda da Faap e da faculdade Santa Marcelina (SP).

A amizade da ex-primeira-dama com o excêntrico costureiro também rendeu divertidas histórias. No Livro ‘Dener – O Luxo’, publicado originalmente em 1972, o costureiro relata um interrogatório policial pelo qual passou logo depois do golpe militar: “Soube que o senhor essa noite estava revoltado. O senhor é amigo da família presidencial...e o senhor está mesmo revoltado?”, questionou o policial, ao telefone.

“Revoltadíssimo, senhor, o que Maria Thereza fez é um crime! Um crime!”, respondeu Dener, exaltado. “Eu fiz vestidos para Maria Thereza para todas as ocasiões. Para recepções, para casamentos, para funeral, para solenidades oficiais. Só não fiz um vestido para deposição. Porque ela não me pediu. Mas Maria Thereza tinha roupas apropriadas. Poderia usar um tailleur marrom, cinza grafite, ou um tailleur preto com blusa branca. Pois não é que ela perde a cabeça, fica nervosa, sei lá o que aconteceu...”. No que o policial, espantado, pergunta o que tinha acontecido. “Ora, o que aconteceu! O que aconteceu é que ela foi exilada de turquesa!”.

Jackie Kennedy foi ícone de moda

Quando ocupou o posto de primeira-dama dos Estados Unidos, em 1961, Jacqueline Bouvier Kennedy tinha 31 anos, dez a mais que Maria Thereza Goulart. Em 1963, John Kennedy foi assassinado em Dallas, nos Estados Unidos, e a imagem da primeira-dama norte-americana de tailleur rosa sujo de sangue rodou e comoveu o mundo. Em menos de três anos de governo do marido John, Jackie imprimou uma elegância que foi muito além das roupas, transformando-a em um dos maiores ícones de moda do século 20.

São muitas as marcas registradas no estilo de Jacqueline Kennedy, que, em 1968, casou-se com o bilionário grego Aristóteles Onassis, ficando conhecida como Jackie O. Na época em que reinou na Casa Branca, eternizou o pillbox hat, pequeno chapéu redondo, usado no alto da cabeça, inclinado para trás. Vestidos sofisticados, redingotes e tailleurs impecáveis também faziam parte da lista, que inclui ainda colar de pérolas de três voltas, luvas brancas, lenços e óculos escuros enormes. Jackie morreu em 1994, vítima de um câncer linfático, mas seu estilo segue inspirando gerações.

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