Por douglas.nunes
Entrevista com a jornalista Claudia Werneck%2C que fala sobre cotas%2C bolsa família e o ingresso de deficientes no mercado de trabalhoJoão Laet / Agência O Dia

Há 24 anos, a jornalista, escritora e ativista pelos direitos humanos Claudia Werneck luta e sonha por uma sociedade efetivamente inclusiva. Desde que mergulhou no universo da Síndrome de Down, quando ainda era repórter da revista "Pais & Filhos", ela já escreveu 14 livros, vendeu mais de 220 mil exemplares e fundou a ONG Escola de Gente, que, com atuação em 17 países, trabalha para que as sociedades sejam inclusivas e sustentáveis também para as quase 1 bilhão de pessoas com deficiência que vivem no mundo. Para a ativista, "crescer convivendo com as diferenças como algo não natural, e sim legítimo" é o único meio de acabar com a nossa cotidiana arte de discriminar. E para isso, uma nova escola teria papel fundamental. "É investindo na educação inclusiva que crio uma nova geração de pessoas aptas para a inclusão".

A sociedade brasileira é inclusiva?

Na prática, não. Há uma tendência de considerar que inclusão é algo ligado ao afeto, à tolerância, à aceitação. A inclusão não é trazer para dentro quem você considera que está lá fora. Se você toma a decisão de trazer para dentro, você também se sente em condições de levar aquela pessoa para a exclusão. A sociedade brasileira, embora tenha todas as condições de se tornar inclusiva - porque exercita diariamente uma convivência de diferenças - por outro lado confunde muito o que é a inclusão. Para nós, do movimento de inclusão, uma sociedade inclusiva é construída através da responsabilização também dos excluídos pelo processo inclusivo. Isso é diferente da visão de que eu, excluído, me considero com mais direitos do que uma pessoa não-excluída - porque eu passo fome, sou negro, ou sou criança.

Por falar em crianças, elas também sofrem exclusão?

Sim. Somos excludentes em relação aos adolescentes e às crianças. Embora haja muitas campanhas do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) e as ideias a respeito das crianças circulem, no dia a dia essa proteção é falha. Fizemos uma pesquisa na Bienal do Livro a respeito do número de editoras que publicam o ECA e quantas vendiam em formato acessível. Encontramos apenas uma editora que disponibilizava a lei no formato adequado e o ECA não tinha em lugar nenhum. O estatuto é a lei mínima para você manter e criar uma criança no país com garantia de direitos. Devia ser objeto de leitura, estar nas escolas, nas casas. O Brasil é um país que olha as pessoas que ele considera que estão em desvantagem por qualquer razão e tenta trazer para o sistema daqueles que não se consideram em desvantagem por alguma razão - porque são brancos, heteros, ricos - como se esse fosse um processo de inclusão. Mas esse é, na verdade, um processo do caos. Parte-se do princípio de que o meio em que vivem as pessoas que estão bem, é um meio bom. Este é um mundo onde os incluídos também são discriminados, com a diferença de que as pessoas que se sentem excluídas têm a consciência de que estão em desvantagem. E os incluídos não tem essa noção.

Como funciona essa discriminação?

O melhor aluno da sala é um exemplo. Ele se considera incluído, mas sofre muita discriminação por estar refém dessa situação, por não poder reverter a ordem do mundo em torno dele. Vivemos uma situação bastante fragmentada, onde o mundo dos incluídos também é um mundo de fragmentação, de exclusão, de uma falta total de visão sistêmica dos direitos humanos e do que é não discriminar. E não discriminar é o primeiro passo para uma sociedade inclusiva. O brasileiro se exercita muito em como disfarçar o seu grau de discriminação. Discriminação essa que, geralmente, é travestida do afeto.

É como a relação patrão e empregado?

Totalmente. Somos muito hábeis na nossa arte de disfarçar a discriminação. O fato de você ter consciência de algumas coisas não faz com que você mude, você aprende a domesticar e disfarçar o seu preconceito. Até o fato de eu ser uma ativista pela sociedade inclusiva, não faz de mim uma pessoa capaz de ser inclusiva o tempo todo e não discriminar. É preciso que se faça um exercício de coerência.

Como então tornar a nossa sociedade inclusiva?

Por meio da educação. Crescer convivendo com as diferenças como algo não natural, e sim legítimo. Nunca nasceu e nunca nascerá um ser humano igual ao outro. Educação inclusiva é a forma que a criança tem de começar desde cedo a exercitar a ética da diversidade, que não é exercitada com pessoas muito parecidas com a gente. É investindo na educação inclusiva que crio uma nova geração de pessoas aptas para a inclusão. E, nesse sentido, o Brasil deveria apostar mais na força mobilizadora de sua própria juventude, de 18 a 29 anos.

Por que?

Os jovens são os primeiros a ter filhos, os pediatras de plantão são os recém-saídos das universidades, as professoras de educação infantil são as recém-formadas. Então, se você forma jovens em uma perspectiva inclusiva, dando aulas de inclusão e não discriminação, você rapidamente muda esse modo de tratar a criança. E é isso que a Escola de Gente trabalha, usamos a juventude como força para isso.

Para você falta à nossa sociedade investir mais no combate à discriminação?

Acho que a sociedade brasileira tem uma arrogância de se considerar mais flexível, como se ser mais flexível significasse ser mais inclusivo. Na verdade, a inclusão é uma proposta que vai muito além de se colocar para dentro quem está do lado de fora. É construir sistemas com as pessoas que de fato existem, e não colocar as pessoas que você gostaria que existissem. As famílias deveriam educar seus filhos dizendo que vivemos num mundo com um número muito grande de deficientes e que eles não vão desaparecer. Elas continuarão a existir. Mas o discurso é diferente. Fala-se na deficiência como um problema de uma família coitada e azarada.

Chamar as crianças deficientes de "especiais" esconderia um preconceito?

Especial é no fundo um nome que você dá a alguém que você sabe que está muito mal, que você não quer que as pessoas saibam que ela é muito inferior a você. É assim que você tira dela o seu lugar de sujeito, com direito à educação, à saúde. O que aparentemente é lindo, dizer que tem um filho especial, esconde na verdade o ato de se comparar diferenças que não são comparáveis, que são falsamente organizadas e dar a sujeitos um status falsamente superior, quando na verdade é a metáfora de como você considera aquele ser inferior. A gente transita numa série de armadilhas. Em que de fato a gente investe mais tempo? Em combater a discriminação ou disfarçar nosso ímpeto de discriminar?

Deficiência é sinônimo de diferença?

A Convenção da ONU trata a deficiência como um conceito em evolução. Mas quando eu falo em deficiência, eu me refiro a todas as deficiências - físicas, intelectuais, sensoriais. Basicamente a minha preocupação está nos deficientes que estão na pobreza. Uma pessoa deficiente e na pobreza é uma pessoa com mais deficiência, porque a deficiência dela se agrava ainda mais se ela é pobre. A ONU diz que mais de 80% das pessoas com deficiência vivem na pobreza e nos países em desenvolvimento. E que mais da metade das pessoas com deficiência da América Latina vive na pobreza e estão no Brasil. Nosso país tem um problema que é o de fazer política pública fragmentada. Ou a pessoa trabalha com deficiência, ou trabalha com pobre. Se uma pessoa é pobre e deficiência, ela fica de fora. Se de fato as pessoas com deficiência estivessem sendo acolhidas, talvez tivéssemos um intérprete de Libras em cada uma das unidades de saúde e nas delegacias. Não se espera que pessoas pobres e com deficiência existam. É como se os nossos neurônios não fossem preparados para fazer essa conexão.

Sobre as escolas inclusivas, elas existem no mundo real?

As políticas educacionais definem que a escola deve ser inclusiva. Mas, na prática, se você olhar o gráfico de entrada nos últimos dez anos de crianças com deficiência, você vê que houve um crescimento, o que demonstra que essa escola vem se modificando sim. Sabemos que o processo não é perfeito, mas hoje há dinheiro para a inclusão. Há curso de formação para professores, dinheiro para acompanhante de uma criança que precisa trocar fralda em sala de aula. Você tem milhões de possibilidades. Mas é preciso um prefeito com vontade política para requisitar essa verba ao Ministério da Educação.

E as escolas, estão prontas?

A mídia adora essa pauta de que a escola brasileira não está preparada para ser inclusiva. E não está. Mas na verdade, a escola brasileira não está preparada para quase nada e nós continuamos mandando nossos filhos para lá. Ninguém espera a escola se preparar ou o ensino melhorar para colocar os filhos na escola. O problema das nossas escolas não é elas não estarem preparadas para a criança com deficiência, elas não estão preparadas para os diferentes modos de existir, tanto da parte dos alunos, quanto dos professores. Não é uma escola que entenda as diferenças como algo fertilizador de um processo de aprendizagem.

E qual é o papel das escolas especiais, como o Benjamin Constant (cegos) e o Instituto Nacional de Educação dos Surdos (Ines) nessa política?

A onda de campanhas dizendo que o governo queria acabar com essas escolas foi uma mentira para a população ficar apavorada. Nunca se quis acabar com o Benjamin ou o Ines. O que se diz é que lugar de criança é na escola, pública, que precisa ser inclusiva. O braile, a criança vai aprender no Benjamin Constant, no contraturno, ou na própria escola pública. É o que a gente chama de AEE (Atendimento Educacional Especializado), é o complemento da educação formal.

Qual seria a definição de inclusão para você?

A inclusão é uma proposta de reconstrução de todos os sistemas a partir da participação de todas as pessoas que existem. A inclusão está ligada ao direito de participar. E para participar você tem que exercer o direito de se comunicar e ser comunicado. Ainda não existe um diálogo entre pessoas com e sem deficiência, principalmente as pessoas com deficiência intelectual. Entendo que no dia em que todas as pessoas com deficiência tiverem o direito de se comunicar e ser comunicado, teremos um mundo novo.

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