Por bruno.dutra

São Paulo - O ganho da produtividade é a chave para a garantia da continuidade do crescimento econômico e, em consequência, da manutenção das conquistas sociais dos últimos anos — que deverá ser um dos principais desafios do próximo mandato da presidenta Dilma Rousseff, a partir de 2015. Essa é uma das conclusões a que chegaram economistas ouvidos na reportagem de capa da próxima edição da revista “Conjuntura Econômica”, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV/Ibre).

“Hoje, a melhor política social para o país é a econômica, pois a sustentabilidade desse salto inclusivo depende de um crescimento sólido”, disse o subsecretário de Ações Estratégicas da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) da Presidência da República, Ricardo Paes de Barros, um dos especialsitas ouvidos na matéria. Ele lembra que, apesar da colaboração de programas sociais como o Bolsa Família, mais da metade da inclusão registrada na última década veio da renda do trabalho, principalmente pelo aumento real do salário. Por isso mesmo, os especialistas ouvidos pela revista enfatizam que é preciso focar a produtividade da economia, cujo crescimento nos últimos anos esteve abaixo dos salários. Em tempos de desemprego baixo, só o ganho da produtividade vai assegurar a retomada do crescimento.

Segundo dados da SAE, no período de 2001 a 2011, a taxa média anual de crescimento da produtividade brasileira foi pouco mais de 1%, contra média de 2,4% dos outros países da América do Sul.

Trabalho dos pesquisadores Fernando Veloso, Silvia Matos e Bernardo Coelho, da Economia Aplicada da FGV/Ibre, identifica as nuances contidas dentro desse quadro aparentemente estanque. Uma dessas variações é o recuo da produtividade entre 1995 e 2003, de 0,2% ao ano, para logo crescer cerca de 2,1% entre 2003 e 2012, mas de forma desigual entre os setores. Tanto que, entre 2003 e 2012, não teve como maior impulso a indústria, mas os setores agropecuário (6,2%) e de serviços (1,7%).

Para melhorar essa dinâmica, Silvia afirma que será inevitável iniciar ajustes sem comprometer parte do emprego e dos salários. “Se a produtividade não vem com a inovação, com a qualificação, chega um momento em que ela tem que ser feita via quantidade, pois não é possível preservar totalmente o emprego e a renda comprometendo a rentabilidade das empresas”, salienta.

Esse, aliás, é o grande entrave que hoje impede de se pensar o investimento em capital físico — que poderia garantir resultados mais rápidos em relação a investimentos em educação ou inovação — como alternativa de resgate da produtividade perdida. Nos últimos três anos, as empresas que operam no Brasil registraram acentuada queda em suas margens. Levantamento com mais de 700 empresas não financeiras apontou que a rentabilidade sobre o patrimônio líquido caiu de 16,4% em 2010 para 7,1% em 2013.

Carlos Rocca, diretor do Centro de Estudos de Mercado de Capitais do Ibmec, aponta como principal motivo desse resultado o aumento do custo unitário do trabalho (variação entre salário e produtividade), que não pode ser repassado para o preço final dos produtos. Na indústria, isso se dá por esta se defrontar com a concorrência dos importados: “Vejo poucas razões para as empresas tomarem decisão de investir até uma eventual retomada do crescimento”.

Para Regis Bonelli, coordenador-geral do Boletim Macro do Ibre, o caminho que resta para gerar um impacto relevante na produtividade é perseverar no investimento em infraestrutura. “Ainda que a perspectiva no curto prazo não seja boa, esses investimentos poderiam gerar um choque de demanda positivo. No caso de transportes, geram vasos comunicantes que promovem mais dinamismo à economia”.

Já Silvia alerta que é preciso ter cautela nas políticas para fomentar o emprego: “A medida de desoneração da folha de pagamento, por exemplo, pode se converter em um tiro no pé”. Para ela, em vez de estimular o aumento de eficiência, a medida dá margem para que a empresa mantenha uma operação intensiva em mão de obra, ainda que pouco produtiva.

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