Por bruno.dutra
Brumadinho, MG - Diretor-presidente da Agência Nacional de Águas (ANA), Vicente Andreu, considera que medidas de controle de água poderiam ter sido tomadas mais cedo a fim de se evitar o atual estado de seca extrema em que se encontra o Sistema Cantareira. Até sexta-feira, o nível do reservatório, que abastece 6,5 milhões de pessoas na Grande São Paulo, tinha caído 8,2%.
Presente à assinatura do Protocolo de Intenções para a conclusão do Plano de Recursos Hídricos da Bacia do Rio Paraopeba — formada por 48 municípios —, que aconteceu na última sexta-feira, em Brumadinho, Minas Gerais, Andreu destacou que não há hoje nenhuma obra que seja capaz de suprir uma quantidade de água que o Sistema Cantareira precisa. Segundo ele, a única medida emergencial seria chover.
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“As obras que estão sendo anunciadas são positivas para o futuro, mas são obras que já deveriam ter sido feitas e não foram. O porquê de não terem sido feitos é uma questão que precisa ser perguntada aos responsáveis por essas decisões, que não fizeram essas obras no passado. Do nosso ponto de vista, também aprendemos que medidas de controle de água poderiam ter sido tomadas antes, reduzindo-se a quantidade de água do Sistema Cantareira para que hoje estivéssemos em uma situação mais confortável, que não estamos”, disse
Andreu também fez críticas à forma como o governo de Geraldo Alckmin vem gerindo a crise hídrica no estado. Embora reconheça que a política de bônus pela economia de água tenha, em um primeiro momento, surtido efeitos, o diretor-presidente da ANA considera a necessidade de criação de mecanismos de restrição para que se barre o aumento do consumo.
“O que eu sinto, e aí está a nossa discordância com São Paulo, é que se continua passando uma mensagem otimista de que ‘vai ter água, vai ter água, vai ter água’. Quando o que faz com que as pessoas relaxem um pouco e isso pode fazer falta, se as chuvas não voltarem na intensidade necessária”, criticou.
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Segundo Andreu, não basta apenas dar estímulos pela economia, é preciso criar mecanismo de restrição para se evitar o aumento do consumo. “Isso infelizmente não foi feito. No apagão elétrico de 2001 e 2002, a principal medida era uma necessidade de redução em 20%. Se a pessoa não reduzisse, teria uma tarifa progressiva e só depois da redução de 20% é que se ganhava o estímulo econômico. Embora a medida (em São Paulo) tenha também seu lado positivo, não chegamos à redução possível ou necessária de ser atingida. Por outro lado, quem tem mais renda acaba tendo um consumo maior num momento em que não deveria ter. As pessoas estão deixando de economizar o que deveriam economizar”, alertou.
Para Andreu, não apenas o agronegócio, responsável pelo o uso de 70% da água captada, é o grande vilão pelo desabastecimento. Todos, empresários, governo e população, têm sua responsabilidade. “Você consegue imaginar que haja 50% de perda de água na distribuição. Não é apenas o agronegócio o grande vilão. Todos têm sua parcela de culpa, inclusive a Dona Maria, que usa água para lavar a calçada”.
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No longo prazo, o caminho para se evitar uma crise hídrica nos próximos anos passa pela integração de diversas políticas em torno da temática da água e pelo fortalecimento dos órgãos gestores estaduais de água, como Igam (Instituto Mineiro de Gestão de Águas) e Inea (Instituto Nacional do Ambiente, Rio de Janeiro), e dos comitês de bacias hidrográficas.
Outra fragilidade na preservação dos recursos hídricos no país, apontada por Andreu, é a ausência de planos estaduais e municipais de preservação de recursos hídricos.
“Eles são raros nos municípios”. Considerando-se, ainda assim, um otimista por natureza, o diretor-presidente da ANA confia que a crise hídrica será o primeiro passo para que a população tenha mais consciência do uso e tratamento da água. “A ocorrência de eventos de seca e cheia têm sensibilizado as pessoas sobre a importância do tema. Ao se informarem mais, os cidadãos irão cobrar ações dos políticos. O político não se preocupa em tratar a questão da água porque não dá voto.”
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