“Atlas da Exclusão Social no Brasil” aponta que democracia é fator de inclusão

Publicação mostra que, nos anos 2000, o cenário democrático contribuiu para reduzir a pobreza. Mas a violência nas regiões urbanas aumentou

Por monica.lima

São Paulo - Chegou às livrarias o segundo volume do “Atlas da Exclusão Social no Brasil”, organizado pelos economistas Alexandre Guerra e Marcio Pochmann e o geógrafo Ronnie Aldrin Silva. Baseado nos dados dos Censos Demográficos do IBGE, dos anos de 2000 e de 2010, o livro analisa o fenômeno da retração da exclusão social do na primeira década do Século XXI. Escrito por uma equipe multidisciplinar formada por cinco autores — o sociólogo André G. Campos; o jornalista Daniel Castro; e os economistas Marcos Paulo Oliveira, Ricardo L. C. Amorim e Rodrigo Coelho — a publicação observa a evolução de seis indicadores sociais para dimensionar a melhoria na qualidade de vida da população brasileira.

“Esta é a segunda vez que estamos produzindo uma análise a respeito do Brasil de acordo com esse índice de exclusão social. Estávamos preocupados com uma abordagem mais ampla da questão social. Esta análise decenal nos permitiu reconhecer avanços significativos, embora o Brasil ainda tenha indicadores de exclusão muito fortes. Temos muito desafios para enfrentar até garantir um padrão de vida digna para todos”, descreve Marcio Pochmann, ex-presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e que atualmente é presidente da Fundação Perseu Abramo, do PT.

De acordo com o economista, a melhoria generalizada dos indicadores sociais de pobreza, emprego, desigualdade, alfabetização, e escolaridade está relacionada a três fatores: democracia, crescimento econômico e distribuição de renda. “A democracia tem se mostrado fundamental para fazer com que as ações de políticas públicas tenham conexão mais direta com a população, especialmente com aqueles que detêm a maior quantidade de votos, que no caso brasileiro, são os mais pobres. Além disso, o país voltou a crescer, passando a ter o que distribuir”, argumenta.

Pochmann diz que nos anos 60 e 70 o Brasil manteve um ritmo de crescimento econômico muito superior ao que foi registrado nos anos 2000, no entanto, o país vivia num regime militar, sem democracia, e o resultado da política econômica era muito favorável aos já beneficiados pelo modelo econômico. “Ou seja, tínhamos um crescimento, sem democracia, sem políticas de distribuição de renda, o que resultou numa falta de enfrentamento da exclusão social. Já nos anos 80 e 90, tivemos a retomada da democracia, mas não tivemos crescimento econômico e, portanto, não tivemos o que distribuir”, diz.

O ex-presidente do Ipea relembra que, nos anos 2000, além da distribuição de renda, possibilitada pelo crescimento econômico, houve ainda a expansão do emprego, aliada à valorização do salário mínimo e à ampliação dos programas de transferência de renda, que ganham importância ao ter seus valores e número de beneficiários ampliados.

Contudo, o segundo volume do “Atlas da Exclusão” aponta que as desigualdades regionais ainda persistem. Tanto que as ofertas de emprego são maiores nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. “Essa diferença regional é uma marca brasileira que se expressa de maneira inequívoca por causa dos ciclos econômicos, muito concentradores, como o ciclo do açúcar em Pernambuco; o ciclo do ouro, em Minas ; e do café, em São Paulo”, diz Pochmann. “A superação dessa realidade vai demorar, porque vivemos um processo de desindustrialização nas regiões mais importantes do país. Precisamos constituir uma política nacional de desenvolvimento regional, identificando as vocações locais, potencializando os investimentos”, defende.

O economista ressalta que, apesar da redução da exclusão social, houve um aumento da violência para as regiões urbanas. “Há um deslocamento da violência bruta da sociedade agrária para as regiões urbanas. Há sinais de intolerância no modo de vida das grandes cidades”. 

O atlas revela ainda que a expansão do emprego foi alavancada sobretudo pelo setor de serviços e que houve uma redução do analfabetismo, assim como aumento da escolaridade. “Temos hoje um analfabetismo residual, entre os segmentos populacionais de mais idade, que vai se extinguir naturalmente, com a morte dessas pessoas, e não por força de políticas publicas. Conseguimos universalizar o acesso à educação, mas precisamos promover um avanço qualitativo daqui para frente, para enfrentar o chamado analfabetismo funcional”, diz.

Segundo Pochmann, para que a desigualdade continue caindo, é necessário que o Brasil volte a crescer e, assim, se promova o avanço na redistribuição de renda: “É necessário arrecadar mais dos ricos e menos dos pobres para distribuir a renda recolhida de uma forma inversamente proporcional em relação a quem colaborou”.

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