Confiança em quem envia a fake news é determinante para a disseminação da informação falsa, diz o estudoImagem Internet

Menos de 30% dos participantes de um experimento controlado considerou uma notícia falsa como verdadeira. Ainda assim, mais da metade declarou que a comentaria com amigos ou familiares. Esse paradoxo — espalhar sem acreditar — está no centro de uma pesquisa conduzida por professores da ESPM.
No terceiro dos três experimentos realizados, 342 brasileiros foram expostos a uma fake news. Apenas 28,7% a consideraram confiável. Mesmo assim, 52,6% indicaram intenção de comentá-la com alguém próximo (quase o dobro). Os demais experimentos confirmaram padrão semelhante.
Quem enviou importa mais do que o que foi enviado
O experimento também manipulou a origem da mensagem: metade dos participantes recebeu a notícia de uma fonte percebida como confiável; a outra metade, de uma fonte sem credibilidade. O resultado é direto. Quando a fonte era confiável, 59,9% declararam intenção de compartilhar. Quando não era, o índice ainda chegou a 45,7%. A diferença de 14 pontos percentuais mostra que a identidade de quem envia a mensagem modula o comportamento de forma mais intensa do que a avaliação do conteúdo em si.
"O problema não está na má-fé. Está no atalho mental que o cérebro usa quando confia em quem enviou a mensagem", explica o professor Eduardo Mesquita, coordenador da pesquisa e docente do Programa de Pós-Graduação em Administração e do LifeLab da ESPM.
Três mecanismos explicam o fenômeno
A pesquisa identificou três fatores centrais. O primeiro é a transferência de credibilidade: a confiança em quem envia desativa o senso crítico sobre o conteúdo. O segundo é o atalho cognitivo: em um ambiente de excesso de informação, o cérebro tende a aceitar como plausível aquilo que vem de uma fonte familiar. O terceiro é a boa intenção como amplificador. Mensagens percebidas como úteis ou importantes para a rede do receptor (colegas, amigos e familiares) são compartilhadas com mais frequência, justamente porque a pessoa acredita estar fazendo algo positivo ao passá-las adiante.
Narrativas falsas que circulam em redes fechadas, como grupos de WhatsApp, tendem a se disseminar de forma invisível para as organizações afetadas até atingirem escala significativa, reduzindo drasticamente a janela de resposta disponível para gestores de marca e comunicação corporativa. O risco é especialmente relevante nos setores de saúde, alimentos e bens de consumo.
O fenômeno também afeta influenciadores digitais, médicos, professores e outras figuras de autoridade percebida. Ao desfrutarem de alta credibilidade junto às suas audiências, esses perfis podem amplificar desinformação de forma involuntária. "A autoridade percebida é um ativo precioso, mas também uma vulnerabilidade", diz Mesquita. "Quem tem audiência tem responsabilidade redobrada de verificar antes de compartilhar".
Cartilha
A partir dos resultados do estudo, os pesquisadores desenvolveram uma cartilha de conscientização voltada ao público geral. O material, produzido em um momento em que o país se aproxima de um novo ciclo eleitoral, oferece orientações práticas sobre como identificar e interromper a propagação involuntária de desinformação.