A inflação dos alimentos, que puxa o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) e compromete o orçamento das famílias, ocorre com mais intensidade no meio da cadeia produtiva. Tomando como exemplo o tomate, vilão dos últimos tempos, o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV) constata que a inflação no atacado foi de 39,57%, no período de cinco anos — de dezembro de 2009 a igual mês de 2013 —, enquanto nas prateleiras, o mesmo produto ficou 22,4% mais caro e, no produtor, a variação foi de 29,53%.
A avaliação de André Braz, economista do Ibre, é que “o varejo conta com muita concorrência e, no caso do produtor, a possibilidade de recomposição de margem é menor ainda”. Já no atacado ocorrem os custos de distribuição. É nesta fase, diz ele, que estão muitos dos problemas estruturais do setor produtivo. Por isso, o economista aponta soluções de combate à inflação de alimentos por parte do governo que não passam pelo controle monetário e pela elevação da taxa básica de juros.
“Há problemas estruturais que variam de cadeia a cadeia. Linhas de crédito, assistência técnica e infraestrutura ajudam a reduzir a possibilidade de inflação. O combate passa pelo acesso à tecnologia, à disseminação de conhecimento. Educação e linhas de crédito têm resultados benéficos sobre os preços”, ressalta Braz.
O risco é um fator preponderante na formação dos preços de hortaliças, frutas e legumes, segundo ele. O tomate, por exemplo, é uma cultura com variações acentuadas de preços em curtos períodos. A consequência apontada pelos pesquisadores João Paulo Deleo e Renata Pozelli, do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, é exatamente o aumento ou a redução na oferta diante de fatores incontroláveis ao produtor.
Segundo eles, o fato de não serem commodities, como a soja, faz com que o risco de produção seja sempre maior e a possibilidade de aumento nos preços nas safras seguintes também. “O fato de as hortaliças serem perecíveis acentua os ciclos de capitalização e descapitalização do produtor. Em um ano de preços baixos, o produtor pode ter muito prejuízo, se descapitalizar e ficar sem condições de investir na safra seguinte. Isso, em geral, significa redução da área de cultivo. Como consequência, a oferta diminui e os preços aumentam”, afirmam.
Outro ponto particular é o fator mão de obra, que, no caso do tomate, pesa de forma preponderante sobre o preço, já que a colheita é feita manualmente, sem o auxílio de máquinas. Mauro Rezende, consultor em agropecuária da FGV, cita ainda como pressão os aumentos de custos decorrentes de dissídios trabalhistas e motivos sazonais, como a escassez de água, que neste ano está prejudicando a lavoura e contribuindo para elevar os preço.
Para Rafael Coutinho, economista da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), o frete é outro item a pesar na inflação dos alimentos. Até mesmo as restrições ao transporte de carga durante o dia, em São Paulo, refletem num encarecimentos dos alimentos.
“É difícil fazer uma política de criação de cinturões agrícolas em São Paulo, por exemplo, onde já há um adensamento populacional muito alto. O aumento do preço do metro quadrado na região metropolitana acaba impactando também nas cidades vizinhas e a agricultura vai se afastando cada vez mais das cidades. A solução seria uma infraestrutura melhor de transportes para baixarmos os custos com o frete”, afirma.
Especialista do Grupo de Pesquisa e Extensão em Logística Agroindustrial da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq Log/ USP), Fernando Rocha destaca que nos últimos cinco anos os preços dos fretes para o escoamento de alimentos in natura vêm seguindo uma trajetória crescente de altas. Neste caso, o peso dos combustíveis na composição do valor cobrado pelas transportadoras acaba sendo determinante para o valor final do serviço.
“Nos últimos cinco anos, verificamos que houve uma pressão no preço do diesel e ele é o principal fator de impacto no valor do transporte, da ordem de 30%. Esse custo é sempre repassado para quem comercializa, pois dificilmente as empresas de logística reduzem suas margens de lucro. Em períodos de entressafra de produtos voltados ao mercado externo, como a soja, a lei da oferta e da demanda acaba pressionando ainda mais esses preços”, completa Rocha.
Quando chegam às cidades, a concorrência entre os supermercados ajuda a conter os preços dos alimentos, dizem os especialistas. Ainda assim, o setor vive um processo de concentração que acaba limitando a competição, segundo Coutinho. Ele acredita que o aumento do preço do metro quadrado nas principais regiões metropolitanas do país acaba dificultando a manutenção de pequenos mercados, que contribuiriam para o equilíbrio dos preços, devido ao aumento da concorrência.
“O mercado precisa ser muito lucrativo para conseguir se manter nesse metro quadrado cada vez mais valorizado. Os pequenos acabam sendo engolidos pelos maiores e a menor concorrência na revenda pode impulsionar essa maior inflação”, observa.
Presidente da Associação de Supermercados do Estado do Rio (Asserj), Aylton Fornari, rebate a tese. Segundo ele, há pelo menos dez anos os varejistas fecham o ano com margem líquida menor que 2% sobre as vendas.
“A formação de grandes redes acirrou o já tão competitivo mercado. Com uma inflação mais alta, o consumidor redobra a atenção e os supermercados precisam sempre lançar mão de estratégias para serem mais competitivos que o concorrente”, defende.