Perdas de geradoras de energia podem chegar a R$ 21 bilhões

Geradoras correm para tentar minimizar prejuízos com cortes na produção de hidrelétricas, para poupar água nos reservatórios. Governo já anunciou que não pretende ajudar

Por marta.valim

Geradoras de energia elétrica buscam uma solução para minimizar as perdas com a exposição ao mercado de curto prazo, provocadas pela redução do volume de geração hidrelétrica no país. Os cálculos variam de acordo com as premissas adotadas, mas o prejuízo pode ir a R$ 21 bilhões, segundo projeção da Bolt Comercializadora, a mais alta entre as estimativas divulgadas ao mercado. As duas associações que envolvem investidores no segmento (Abrage, dos geradores, e Apine, dos produtores independentes) vêm estudando medidas para minimizar o problema.

O valor se refere à negociação de volumes de energia no mercado de curto prazo, ao Preço de Liquidação de Diferenças (PLD) — no valor máximo de R$ 822 por megawatt-hora (MWh) —, para cobrir contratos que não podem ser atendidos após a redução da geração hidrelétrica por falta de água. Situação semelhante gerou um pacote de ajuda às distribuidoras, com recursos do Tesouro e empréstimo de R$ 11,2 bilhões tomado pela Câmara Comercializadora de Energia Elétrica (CCEE). No caso das geradoras, porém, o governo entende que as perdas fazem parte do risco do segmento de geração de energia.

A questão afeta todas as geradoras que integram o Mecanismo de Realocação de Energia (MRE), espécie de câmara de compensação na qual hidrelétricas que geraram acima dos volumes vendidos em contrato repassam o ganho adicional àquelas com geração abaixo. O problema é que, com os baixos níveis dos reservatórios, grande parte das empresas têm operado com volumes menores do que os comprometidos. A cobertura dos contratos tem que ser feita no mercado de curto prazo.

Na terça-feira, segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), o nível de energia armazenada nas hidrelétricas das regiões Sudeste e Centro-Oeste chegou a 38,2%. Para poupar água nos reservatórios, o operador tem optado por gerar o maior volume possível de energia térmica. Na semana passada, o presidente da AES Tietê, Britaldo Soares, calculou as perdas da companhia em R$ 350 milhões a R$ 500 milhões no ano. Segundo ele, a situação é parecida com a que ocorreu nos tempos do racionamento de 2001.

“No caso das distribuidoras, houve um descasamento de caixa, porque os valores têm de ser repassados às tarifas, mas o governo decidiu fazer reajustes só no ano que vem”, explica Érico Evaristo, presidente da Bolt Comercializadora. O pacote de ajuda foi justificado pela resistência do governo em promover reajustes tarifários extraordinários, conforme previsto nos contratos, para evitar pressão inflacionária. “A situação das geradoras é diferente. Elas terão que assumir as perdas”, completou.

Para chegar ao valor de R$ 21 bilhões, ele considerou que as geradoras têm contratos de venda semelhantes à garantia física registrada junto ao ONS no fim do ano e que vai chover 100% da média histórica até dezembro — previsão otimista, uma vez que o próprio operador trabalha com volumes abaixo de 80% da média.

Ontem, o presidente do Conselho de Administração da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), Luiz Eduardo Barata, disse que o leilão de energia realizado no final de abril equilibrou a oferta e reduziu a pressão sobre as distribuidoras, com potencial impacto positivo nos reajustes tarifários do ano que vem. “Até o fim de abril, o grau de exposição das distribuidoras era grande, então, o preço de liquidação das diferenças tinha impacto grande sobre as distribuidoras e, consequentemente, sobre a tarifa aos consumidores ”, justificou o dirigente.

Segundo o presidente do Conselho de Administração da CCEE, no leilão da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) de energia já existente para uso imediato, ocorrido no último dia 30, foram contratados 2.046 megawatts médios de usinas hidrelétricas e termelétricas movidas a gás natural e biomassa para fornecimento imediato, a partir deste mês.
Em encontro promovido pela Climatempo, o especialista americano em climatologia Vernon Kousky explicou que a estiagem no Sudeste foi provocada por uma massa de ar quente frontal que impediu a passagem das frentes frias que se formaram no extremo Sul. Ele considera prematuro fazer previsões, com margem de acerto, sobre como vai se comportar o clima após o período de estiagem no Centro-Sul do Brasil, que normalmente perdura de abril até meados de setembro.

*Com ABr

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