Comércio alimenta pessimismo, mas 2014 ainda não está perdido

Economistas ainda estão divididos sobre os rumos do crescimento este ano, com previsões indo de 1,3% a 2%

Por monica.lima

O economista-chefe da Opus e professor da PUC-RJ, José Márcio Camargo, prevê queda nos investimentos e avalia que as indefinições para 2015 ampliam as incertezasMurillo Constantino

Brasília - O fraco resultado das vendas no varejo em março acabou ajudando a sancionar as expectativas de crescimento mais pessimistas do mercado para 2014. É o caso, por exemplo, das avaliações do Banco Santander, que trabalha com uma expansão de apenas 1,3% d o Produto Interno Bruto (PIB) neste ano; da Opus Gestão de Recursos, que prevê expansão de 1,5%; e do Banco Itaú, que prevê 1,4% de expansão. Todas estão abaixo do consenso de mercado captado pelo Boletim Focus, do Banco Central, divulgado no último dia 12, que apontava 1,69% de crescimento. Mas ainda há divergências entre os economistas sobre o destino de 2014, inclusive com previsões de crescimento de 2%.

José Márcio Camargo, economista-chefe da Opus e professor da PUC-RJ, diz que embora a renda ainda cresça acima do PIB e o desemprego esteja baixo, o comércio sente os efeitos da queda na disponibilidade de crédito. “Na comparação com 2013, a variação da oferta de crédito é de 0%”, diz ele. Além disso, o economista prevê queda nos investimentos e avalia que as indefinições para 2015, mais ligadas à conjuntura eleitoral, ampliam as incertezas.

“O resultado do varejo acabou confirmando as nossas previsões, que estão abaixo da média apontada pelo Focus”, afirma Caio Megale, do Itaú. Fernanda Consorte, do Santander, minimiza o dado do trimestre por conta das peculiaridades sazonais (número de dias úteis e datas diferentes para o carnaval em 2013 e 2014), que dificultam as comparações. “Mas não há dúvida de que há uma desaceleração” diz ela, referindo-se não apenas ao comércio, mas à economia com um todo. “Avalio que se indicadores fracos assim se repetirem, o consenso do mercado tenderá a cair”, diz ela, adiantando que estima 0% de crescimento do PIB no primeiro trimestre deste ano — dado a ser divulgado pelo IBGE no próximo dia 30.

Já o professor Pedro Rossi, da Unicamp, que integra o núcleo de estudos conjunturais da universidade, minimiza o resultado do varejo. “É um dado muito conjuntural e o efeito calendário dificulta as avaliações”, diz. Para ele, o indicador mais importante é o do investimento, que não está tão ruim quanto o mercado avalia. “Há um ciclo de recuperação nos investimentos e ele deve continuar”, afirma Rossi, referindo-se ao fato de a taxa de Formação Bruta de Capital Fixo ter saído de uma queda de 4% no segundo trimestre de 2013 para 6,3% de expansão no último trimestre do ano. “Parece haver uma convenção pessimista no mercado que é perigosa, porque contamina as expectativas”, diz ele, que trabalha com uma expansão de 2% neste ano.

O economista da Unicamp Julio Gomes de Almeida, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, também trabalha com um crescimento de 2% em 2014 e diz que, embora o comércio tenha vindo fraco, o resultado acumulado no trimestre, em comparação com o ano anterior (4,5%), “seria disputado a tapa por alguns países desenvolvidos”. Para ele, o perigo de uma frustração maior no crescimento do ano está no desempenho do consumo, dos investimentos e das exportações. Gomes acrescenta que os cenários estão ainda nebulosos e os dados do PIB do primeiro trimestre ajudarão a clarear projeções.

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Aloísio Campelo, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getúlio Vargas, avalia que o dado da PMC terá pouca influência nas expectativas. “Ele é resultado de um ciclo de elevação dos juros para combater a inflação. Não há como escapar. Há setores mais sensíveis à política monetária”, diz. “Vejo também que há um limite dado pelo nível de preços, que se elevara na área de serviços”, complementa. Para ele, o ano terminará com uma expansão entre 1,6% e 1,8%, com queda, por exemplo, dos investimentos da indústria de transformação.

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