Recessão é bicho papão só para economistas

Contrariando o humor dos analistas, a população nas ruas ainda está confiante com o cenário econômico, embora a inflação seja preocupação constante

Por monica.lima

A taxa de desocupação ainda baixa, na casa dos 5% segundo a Pesquisa Mensal de Emprego do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (PME/IBGE), tem mantido o bom humor dos brasileiros quanto aos rumos da economia. Nas ruas, apenas a inflação — que acumula alta de 6,52% nos últimos 12 meses, segundo o IPCA e que é sentida especialmente nos supermercados — assusta e posterga planos. Ainda assim, o aumento nos preços não vem tirando a confiança da população de que o cenário econômico não é dos piores, o que contraria o pessimismo dos economistas.

No Rio, o analista de Sistemas, Vitor Teixeira diz que a vida está caminhando de forma positiva, tanto para ele quanto para parentes e amigos. “Todos que conheço estão empregados”. Segundo ele, mesmo percebendo a inflação mais alta no bolso, ainda não foi preciso mudar radicalmente de estilo de vida. “Passei a cozinhar mais em casa, mas só em alguns fins de semana”, conta o jovem de 28 anos.

Em São Paulo, o segurança patrimonial Emerson de Souza diz que continua gastando no supermercado o mesmo valor que gastou nos últimos meses. Sentado em um banco da Praça General Enéias Martins Nogueira, no Brooklin, bairro empresarial, ele conta que não percebeu grandes mudanças no seu padrão de vida. “Como vou todo mês no mesmo supermercado, não vejo diferença nas contas. Eu sei que as pessoas dizem que estão gastando mais, mas isso não acontece comigo. Talvez uma coisa compense a outra e, no fim, a conta fique a mesma”.

Economista da Confederação Nacional do Comércio, Fabio Bentes explica que é natural que ocorra um descasamento entre o que a pessoa comum percebe no dia a dia e o que se passa na cabeça dos economistas. “Temos acesso a séries históricas de dados macroeconômicos que nos permitem fazer projeções. Já o consumidor, ele projeta o futuro com relação à situação atual dele”, afirma Bentes.
Já o professor de economia Celso Grisi, da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi), destaca que há ainda uma sensação de quase pleno emprego. Embora perdure, aos poucos o mercado de trabalho vem perdendo força, mas ainda não o suficiente para que as pessoas percebam a piora do cenário.

“No dia a dia, é como se nada tivesse acontecido, exceto pelo aumento nos gastos. Mas a tendência é que a preocupação vá crescendo, pois embora ainda não haja desemprego perceptível, elas terão mais dificuldade em conseguir reposição salarial acima da inflação como vinha acontecendo. Verão mais pessoas ao redor perdendo a colocação e tendo dificuldade para se recolocar. Só então vão perceber algo errado”, diz.

É o que já acontece na vida da servidora pública Ana Maria Câmara, que mora no Rio. Através do marido, corretor de seguros, ela sente que a economia está mais fraca: “O mercado vem esfriando. Meu marido reclama todo o dia”, conta ela.

LUIS SÉRGIO PIRES
Geógrafo

Casado e com filhos já adultos, o geógrafo Luis Sérgio Pires, de 62 anos, não vê com pessimismo o futuro da economia, embora tenha noção de que a situação já foi melhor comparada a anos anteriores, tanto no quesito preço dos alimentos e serviços, quanto com relação ao mercado de trabalho. “Minha filha, que é engenheira química, já vem percebendo que o emprego está desaquecendo”, conta ele, que em seguida complementa não conhecer ninguém desempregado. “Ainda não. Mas é uma sensação que ela tem me passado”. Para Luis Sérgio, apenas a inflação tem incomodado bastante: “Transferimos para o ano que vem a viagem à Holanda, para conhecermos o nosso neto”.

SANDRA MARIA, 
Dona de um trailer de lanches

Dona de um trailer que vende sanduíches na região da Berrini, em São Paulo, Sandra Maria diz que percebe aumento de preços a cada ida ao supermercado. “Sempre pago um pouco a mais do que paguei na semana anterior”. Ainda assim, ela tenta não repassar a diferença para o consumidor. Diz que tem um lucro menor, mas mantém o cliente. “Tenho ouvido que muita gente deixou de comer na rua. Mas isso não acontece aqui, continuo com o mesmo movimento. E a maioria paga com cartão alimentação, o que mostra que meus clientes estão empregados”. Apesar disso, ela conta que todo dia alguém passa por ali em busca de trabalho. ”Tem muita gente batalhando emprego, talvez porque essa região concentre muitas firmas”, diz ela.

CAROLINA OLIVEIRA, 
Analista de sistemas do BNDES

Há três anos morando no Rio de Janeiro, a analista de sistemas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) Carolina Oliveira vê a inflação alta como o principal problema da economia atual. Nascida em Recife, ela conta que sente a diferença no custo de vida entre as cidades. “ Os preços aqui no Rio são surreais”, resume a jovem, de 30 anos. Embora reclame do aumento nos preços da comida e do aluguel, Carolina afirma que vem tentando manter o padrão de vida. “Ficamos reféns às vezes porque tudo está caro. Mas, agora com o fim da Copa espero que o aluguel caia”, afirma ela, que também se mostra preocupada com o aumento do desemprego: “Tenho duas amigas que recentemente ficaram desempregadas e as perspectivas para elas não têm sido muito boas”.

JOÃO MELLO, vendedor de móveis

Otimismo é a palavra de ordem para o vendedor de móveis de escritório, João Mello. Aos 36 anos, ele conta que só neste ano mudou de emprego duas vezes e que oportunidades não faltam em sua área de atuação. “A Copa só veio favorecer a economia do país, especialmente a do Rio de Janeiro. Muitas empresas têm vindo para cá”, afirma ele, que também enxerga um futuro de oportunidades para o Brasil. “Não conheço uma pessoa desempregada”, conta o vendedor, para logo em seguida, afirmar que o otimismo não é uma particularidade só dele. “Meu pai é aposentado e também tem tido melhores expectativas com relação ao futuro”.

PAULO RODA, taxista

Gasolina, lava-rápido, estacionamento e serviços de manutenção são os itens apontados pelo taxista Paulo Roda como os que mais subiram de preço nos últimos meses em São Paulo. Ele conta que, em 2013, fez uma revisão completa do carro e gastou R$ 1,5 mil. “Semana passada, fiz a mesma revisão e gastei mais de R$ 3 mil”, diz. “O dinheiro está mais curto, mas não consigo economizar em nada. Parece que tudo está mais caro. Para mim, as notas de R$ 2, R$ 5 e R$ 10 saíram de circulação. Nenhum passageiro paga com essas notas porque nas compras nunca tem troco”, diz ele. Roda têm quatro vizinhos de prédio desempregados. “Para as classes C e D de fato não falta emprego. Mas as pessoas com formação um pouco maior têm dificuldade em se colocar no mercado. Até surgem vagas, mas com salários muito aquém do que merecem”.

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