Racionamento pode atingir lavouras de São Paulo

Com as nascentes secas por conta da estiagem histórica que afeta o estado, Secretaria de Agricultura estuda reduzir oferta de água no campo para priorizar consumo humano

Por monica.lima

São Paulo - Depois do racionamento, da redução da pressão nas torneiras e da discussão sobre as perdas de água tratada no caminho até as residências, a agricultura entrou na mira do governo paulista na luta pela redução do consumo. O secretário da Agricultura, Arnaldo Jardim, disse que o governo deve restringir o uso na irrigação, o que pode prejudicar a produção. Já a assessoria de imprensa da pasta diz que não há nada decidido e que a restrição ainda está sendo estudada.

Ainda assim, na semana passada, o secretário se reuniu com a Câmara Setorial de Equipamentos de Irrigação, ligada à Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), para discutir ações para racionalizar o uso dos recursos hídricos, principalmente nas bacias que hoje são as mais afetadas pela seca: Alto Tietê, Cantareira e Piracicaba.

Visitas dos fabricantes de equipamentos de irrigação a todos os distribuidores para orientar na otimização do uso dos diferentes aparelhos utilizados na captação e irrigaçã e revisão dos equipamentos estão na lista de ações a serem adotadas. Também será elaborada uma cartilha com diretrizes e normas para que os produtores rurais possam desenvolver projetos com baixo volume de água.

Dados da Organização das Nações Unidas (ONU) apontam que 70% da água para consumo do mundo é usada atualmente na irrigação. No Brasil, esse percentual alcançaria 72%.

Os produtores querem de toda forma evitar a restrição, que deve abarcar o chamado Cinturão Verde, principal região de plantio de verduras e legumes do país, composto 39 municípios da região metropolitana de São Paulo e dividida em duas grandes áreas — leste e oeste — tendo a capital paulista como o centro. Afinal, mesmo sem restrição, a produção de hortaliças e verduras já apresentou queda, elevando o preço: de acordo com a Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais do Estado de São Paulo (Ceagesp), as hortaliças tiveram uma elevação média de 10% nos preços. Alguns produtos, como alface, brócolis, agrião e chuchu aumentaram até 70%.

“O racionamento na agricultura, além de prejudicial, pode não ter efeito prático, pois algumas regiões já não têm água para irrigar, com as nascentes comprometidas pela estiagem”, diz o gerente agronômico da Netafim Carlos Sanches. A empresa aplica irrigação por gotejamento técnica que, segundo Castro, economiza de 30% a 50% da quantidade de água comparada o outros métodos.

Segundo ele, alguns produtores apontam queda de 30% de toda a lavoura pela falta de água.
Gerente comercial da Valmont, Carlos Reiz alerta que, independentemente da técnica utilizada — gotejamento ou pivô central, que irriga toda a área plantada —, a fonte é a mesma e vai faltar, pois as nascentes estão secando.

Na opinião do executivo, criou-se uma imagem de que a irrigação é a vilã da água na estiagem. “Mas a verdade é que o volume de chuvas vem diminuindo há anos e os investimentos para armazenamento não acompanharam o crescimento da demanda, que não parou. O resultado é esse: o risco de queda na produção do agronegócio.”

Reiz lembra também que o o ciclo da água não muda. “A agricultura utiliza 70% da água disponível para consumo, mas parte evapora e retorna em forma de chuva e parte é absorvida pelos lençóis freáticos. A questão é que não temos tecnologia que barateie o uso dessa água. Ter poços artesianos ainda custa caro, mas pode ser uma saída se situação se agravar.”

“A agricultura é hoje uma plataforma de governo, responsável por parte significativa do pouco crescimento econômico que ainda temos. É inviável restringir seu desenvolvimento”, afirma Reiz.

Estimativa do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/USP) aponta que o agronegócio continuará sendo o grande condicionante do desempenho da economia e um dos poucos setores que vai crescer em 2015.

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