Nas últimas semanas, os técnicos da área econômica do governo vêm acompanhando com lupa um indicador específico: a variação dos preços dos alimentos nos índices por atacado, que ajudam a sinalizar o comportamento futuro dos preços ao consumidor. Aos técnicos do governo, o comportamento dos preços dos alimentos preocupa por causa dos estragos que a inflação traz ao crescimento e aos objetivos de política econômica. Mas há também um impacto eleitoral nada desprezível que certamente preocupa a esfera política do Palácio do Planalto.
“A inflação dos alimentos atinge diretamente a faixa que votou em Dilma nas últimas eleições” diz o cientista político e professor da Universidade de Brasília David Fleischer, ao explicar o principal motivo que levou, em sua avaliação, à queda da popularidade da presidenta nas pesquisas de opinião mais recentes. O cientista político Cláudio Gonçalves Couto, professor da Escola de Administração da FGV-SP, tem a mesma opinião. “Há um peso particularmente maior para a faixa da população mais pobre, que consome a maior parte da renda com alimentos”, diz ele, ressalvando que fala sobre uma hipótese. Trata-se justamente da massa de brasileiros amparada pelo programa Bolsa Família, da base da pirâmide social que viu sua renda crescer mais rápido que a do topo nos últimos dez anos. São os brasileiros que ascenderam das classes D e E para a casse C.
Fleischer avalia que, para o eleitor de Dilma, as denúncias envolvendo a Petrobras e as discussões sobre as projeções futuras de crescimento e condução da política fiscal não afetam muito a decisão do eleitorado da presidenta. “Avalio que até afetam, mas de forma marginal. Não é um fator decisivo”, afirma Claudio Couto. “Esse tipo de debate atinge mais o eleitor que lê jornal, com nível de escolaridade mais elevado, e que não representa uma parte importante do eleitorado de Dilma”, completa Couto. Já o analista político Gaudêncio Torquato faz uma ressalva: “As denúncias envolvendo a Petrobras ainda não afetam o eleitor da presidenta, mas poderão afetar no futuro. Este tipo de tema tem impacto sobre a classe média tradicional, que tem influência sobre as demais classes”, analisa ele.
Para Fleischer, o aperto no crédito — uma consequência da elevação das taxas de juro — é outro fator de grande influência sobre o eleitorado de Dilma uma vez que representa perda da capacidade de consumo. “Também afeta o bolso do eleitor”, diz ele. “Além da inflação de alimentos, avalio que questões mais gerais relacionadas à capacidade de gestão do governo, como o atraso das obras da Copa, podem fazer o eleitor da presidenta se ressentir”, completa Couto. Torquato, bem humorado, acrescenta à lista de riscos a questão da energia em um plano mais prático: “Se faltar luz no meio de um jogo do Brasil durante a Copa, o impacto é certo”. O analista acredita no retorno das manifestações durante a Copa do Mundo, de forma pontual. Já para Fleischer, é possível que elas retornem com mais força. “O governo iniciou a campanha publicitária para buscar o apoio da população à realização da Copa tardiamente, a meu ver”, diz ele, referindo-se à ofensiva publicitária sobre o evento lançada pelo governo federal na semana passada.
Coleção de riscos específicos à parte, o professor da FGV-SP faz uma consideração mais geral, que pode servir de alerta não apenas aos gestores da campanha de Dilma, mas a todos os executivos ocupantes de cargos públicos que enfrentarão as urnas neste ano. “Desde o ano passado, houve claramente uma piora na avaliação que a população faz da esfera política. É algo que representará um desafio não apenas aos candidatos que disputam as eleições federais. Elas serão mais difíceis também nas esferas estaduais”, diz Cláudio Couto.
Surpresa geral
Apesar de contar com dois conselheiros supostamente mais próximos na Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), o Palácio do Planalto foi pego de surpresa com a renúncia, de uma só vez, de três dirigentes da entidade. Causou desconforto pelo golpe na imagem do governo como gestor do sistema elétrico e pelo inegável reforço que traz a respeito de suspeitas de ingerência federal no processo que levou à aprovação do empréstimo de R$ 11,2 bilhões, feito pela CCEE junto a um pool de bancos e repassado às distribuidoras de energia elétrica. O governo nega oficialmente qualquer ingerência e lembra que os três dissidentes encaminharam o empréstimo na assembleia que o aprovou posicionando-se técnica e juridicamente favoráveis.
De todo o imbróglio, ficou um consolo: ele não teve efeito prático sobre a operação de socorro às empresas distribuidoras de energia elétrica. A primeira tranche do empréstimo, de R$ 4,7 bilhões, será depositada hoje na conta da Câmara, que a repassará para as empresas. Entraram no pool de financiamento dez bancos — dois públicos e oito privados — e mesmo analistas do mercado financeiro mais críticos consideram que as garantias da operação (as próprias receitas das distribuidoras) são fortes. O dinheiro vem para apagar um incêndio: cobrir as necessidades de caixa das distribuidoras de energia que vêm comprando eletricidade cara. O governo sabe que em 2015, o custo do empréstimo será repassado às contas de luz dos consumidores. E, por isso mesmo, torce por um bom resultado no leilão de energia marcado para esta semana. Hoje, as distribuidoras de energia compram cerca de 3 mil megawatt-hora (MWh) no mercado à vista, a um preço superior a R$ 800 por MWh. O edital do leilão fixa em R$ 271 o valor teto por MWh que as usinas poderão cobrar para participar da disputa e vender às distribuidoras.