Brasil cai em ranking mundial de liberdade de imprensa pelo 2° ano seguido

País ocupa a 107 posição. Esta é a segunda vez que o Brasil cai na lista, segundo relatório da ONG Repórteres sem Fronteiras. Desta vez as atitudes de hostis Bolsonaro e apoiadores deram um empurrãozinho para baixo

Por O Dia

Presidente costuma debochar de repórteres, principalmente mulheres, que cumprem seu ofício na porta do Palácio da Alvorada, em Brasília
Presidente costuma debochar de repórteres, principalmente mulheres, que cumprem seu ofício na porta do Palácio da Alvorada, em Brasília -
O Brasil caiu duas posições no ranking anual de liberdade de imprensa divulgado pela ONG Repórteres sem Fronteiras desde 2002. A queda na colocação, segundo a ONG, foi motivada pela atitude hostil do presidente Jair Bolsonaro aos veículos de imprensa desde o início da pandemia de coronavírus e o ódio a jornalistas encorajado por parte de seus apoiadores.

Divulgado anualmente pela ONG Repórteres sem Fronteiras, que promove a liberdade de imprensa e o direito da população à informação, o ranking monitora 180 países e se tornou uma referência para a diplomacia e para organizações internacionais como a ONU e o Banco Mundial.

O Brasil ocupa a posição 107 da lista. Essa é a segunda queda consecutiva: no ano passado, o Brasil havia descido três lugares devido ao clima anti-imprensa das eleições presidenciais de 2018 e ao assassinato de quatro jornalistas no período.

“Os jornalistas brasileiros, e sobretudo as mulheres, estão cada vez mais vulneráveis e são regularmente atacados por grupos promotores de ódio e por apoiadores do presidente, em particular nas redes sociais”, aponta o relatório, sem especificar nomes, acrescentando que repórteres dos meios de comunicação mais importantes do país são alvos frequentes.

Apesar de ser considerado pelo estudo um antimodelo no tratamento dado à imprensa, os Estados Unidos (45) subiram três posições em relação à 2019, saindo da faixa “problemática” e ingressando na “satisfatória”.

O relatório não explica os motivos da melhora, ao passo em que enumera razões problemáticas: Trump ataca jornalistas durante suas entrevistas coletivas sobre coronavírus, e repórteres que fazem a cobertura da complicada fronteira do país com o México passaram a ser assediados com muita frequência por autoridades aduaneiras.

Quando vistos em conjunto, os dados do relatório são alarmantes: mais de 60% dos países do mundo estão em situação que a entidade considera “problemática” ou “muito difícil”, e 12,9% caem na pior categoria, chamada de “muito séria”. Apenas 8% das nações gozam de boa liberdade de imprensa —nenhuma da África— e 18% de satisfatória.

Países hispânicos
À exceção do Uruguai (19), a situação é complicada para os países hispânicos: o relatório aponta dezenas de agressões a jornalistas que participaram da cobertura dos protestos recentes contra os presidentes Lenín Moreno, do Equador, e Sebastián Piñera, do Chile, e reportaram a turbulenta eleição presidencial boliviana de 2019.

Quase não há novidades nos extremos da lista. Noruega (1) e Finlândia (2) ocupam, pelo segundo ano seguido, as primeiras colocações, seguidas pela Dinamarca (3), que subiu dois pontos, e pela Suécia (4), que caiu um.

O pior país para um jornalista é a fechada Coreia do Norte (180), que tomou o lugar do Turcomenistão (179), onde o ditador proibiu o uso da palavra coronavírus. A pandemia provocou medidas restritivas em relação à imprensa em países fortemente afetados pela Covid-19, aponta o estudo.
Em antepenúltimo lugar, a China (177) instaurou um massivo sistema de censura, bem como o Irã (173).

No Iraque (162), a agência de notícias Reuters teve sua licença suspensa após publicar uma notícia questionando os números de infectados divulgados pelo governo.
“A crise sanitária é uma oportunidade para governos autoritários implementarem a famosa ‘doutrina do choque’: tirar proveito da neutralização da vida política, do espanto do público e do enfraquecimento da mobilização para impor medidas impossíveis de adotar em tempos normais”, afirma Christophe Deloire, secretário-geral da Repórteres sem Fronteiras.

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