'O que pode derrubar a Dilma é a economia', diz Paulo Kramer

Crítico ferrenho do PT, o cientista político diz que a presidenta Dilma Rousseff corre o risco de perder votos quando o fraco desempenho econômico bater no bolso de seus eleitores

Por monica.lima

Brasília - O cientista político, consultor e professor licenciado da Universidade de Brasília (UnB)Paulo Kramer afirma que a presidenta Dilma Rousseff, embora ainda favorita, tem obstáculos à frente. O principal relaciona-se ao bolso do eleitor. “Dilma é competitiva, mas corre risco. E o fator que pode derrubá-la é a economia” diz Kramer, lembrando que nenhum economista prevê a chance de uma virada dramática nos indicadores econômicos até o final do ano. Ele destaca que, pela primeira vez, o eleitor de classe média será majoritário. “É um eleitor mais exigente e, neste momento, está percebendo que a escada da ascensão social do governo Lula para o governo Dilma se estreitou”. Liberal convicto e dono de um senso de humor culto e afiado, Kramer reconhece que não resiste “a um bom combate”. Foi com este espírito que deu entrevista ao Brasil Econômico.

'De uma maneira geral%2C a ética não ganha nem perde eleição no Brasil'%2C diz o cientista político Paulo KramerGlaucio Dettmar

Como o sr. avalia as três principais candidaturas à Presidência?

Venho estudando os programas de cada uma. O programa do Aécio Neves (PSDB) é o que tem maior superfície de contato com a classe empresarial. O programa de Eduardo Campos (PSB) não é diferente. O que diferencia Eduardo é que ele é mais vibrante, tem uma presença cênica muito forte. A Dilma, seu mentor (Lula) e o PT, estão confrontados com a seguinte realidade: em 2006 o eleitorado não queria mudar. Em 2010, não queria mudar e ficou com a candidata indicada pelo Lula. Em 2014, as pesquisas estão mostrando que em média 70% dos entrevistados dizem que querem mudança. O PT, espertamente, possui o programa de governo que mais usa a palavra “mudança”. A expectativa é mostrar ao eleitorado que essa ânsia por mudanças demonstrada pela população pode ser mais bem satisfeita, mais bem preenchida, pela Dilma. O raciocínio é: “Nós, nos últimos 12 anos, mudamos tanto o Brasil, que estamos credenciados para mudar mais”. Por isso o slogan é “Muda mais”.

Que obstáculos a candidata Dilma Rousseff enfrenta?

A despeito de tudo que o governo vem fazendo, a economia não cresce. Por vários fatores, mas o mais relevante é a falta de confiança, a falta de credibilidade. No segundo mandato do governo Lula, ocorreram três eventos significativos e impactantes: primeiro foi a crise mundial, a grande recessão de 2008. Em segundo, a saída do Palocci (Antônio, primeiro ministro da Fazenda de Lula). Ele era o único petista que o mundo dos negócios e o mercado aceitavam. Ele era o petista que havia se convertido totalmente às cláusulas pétreas da economia de mercado. Para completar, uma maldição disfarçada em forma de bênção: o pré-sal. As pessoas falam as coisas projetando seus desejos mais íntimos, o de Lula era nunca trabalhar. Foi ele quem disse “O Brasil tirou o bilhete premiado”. O raciocínio era “como vamos ter dinheiro para fazer tudo, podemos abandonar a ortodoxia do fernando-malanismo que fomos obrigados a herdar e aprofundar”. Este é o cenário da inflexão da política econômica do governo Lula do primeiro para o segundo mandato.

Havia uma expectativa de abundância fiscal?

Era uma expectativa de abundância fiscal que permitiria ao PT ser PT. O Lula e o PT, no primeiro mandato, tinham que seguir aquela cartilha estrita da ortodoxia. Por isso, precisavam de uma bandeira compensatória para o público interno do PT. Essa bandeira era a política externa. A mensagem era de que a fidelidade petista aos ideais de sempre estava estampada na política externa. Com o passar do tempo isso tomou uma dimensão maior e escangalhou com a tradição da política externa brasileira. Refiro-me, por exemplo, à autonomia que o Itamaraty sempre teve para conduzir uma política que não era de governo, mas de Estado, como deveria ser. Isso nos leva hoje a verdadeiros micos, vexames, saias justas diplomáticas. O Brasil apoiando tiranos, apoiando gangsteres do Terceiro Mundo, apoiando Putin (presidente da Rússia), cujos aliados derrubam aviões civis na Ucrânia.

Há outros obstáculos?

Há um fator ligado à Dilma. Ela é uma marxista de livro. Tudo ou quase tudo que ela sabe de economia, aprendeu naquelas reuniões semiclandestinas de grupo de leitura do “Capital” (de Karl Marx), em apartamentos sempre envoltos numa nuvem de fumaça de cigarros, com aquelas cortininhas de contas e estantes de livros montadas em tábuas e tijolos, pessoas sentadas numa esteira e bebendo as palavras do velho barbudo. Todos os conceitos e, sobretudo, os preconceitos de Dilma em relação à economia vieram de lá. Ela tem preconceito contra o lucro, que a realidade obrigou-a a atenuar.

Foi o preconceito contra o lucro que atrapalhou as discussões sobre concessões das rodovias?

No que diz respeito às concessões, a inspiração inicial de Dilma e de seu grupo era de cortar o máximo possível o lucro do empresário. O empresário só é atraído pela perspectiva de fazer o máximo de lucro. É um dilema insanável.


E em relação às Parceiras Público-Privadas (PPP)?

A legislação federal das PPPs existe desde 2004. Porque existem PPPs dando certo nos governos tucanos de Aécio em Minas e de Alckmin em São Paulo? Por uma questão de confiança. Empresário não quer se meter em PPP em que petista esteja metido. Ele tem medo da incompetência e do roubo.

Mas a perda de confiança só afeta o PT? E os outros partidos?

No caso do PT isso é mais grave, porque o PT tem uma ideologia patrimonialista. O socialismo e o comunismo são os últimos avatares do patrimonialismo. Com poucas exceções (entre seus integrantes), o PT foi um partido trabalhista que não se “social-democratizou”, no sentido de se converter à economia de mercado e à democracia representativa. Este é o caminho que o trabalhismo inglês percorreu, que as sociais-democracias alemã, holandesa e escandinava percorreram também. Na Escandinávia existe um Estado com bem-estar social parrudo, mas quem toca o dinamismo da economia é o setor privado. A esquerda da América Latina, de maneira geral, não compreende isso. Acha que se converter à economia de mercado e à democracia representativa é uma capitulação.

Além do Palocci, que o senhor disse que se converteu à economia de mercado, há outras exceções no PT?

O Genoino. Durante um tempo, ele (o ex-deputado José Genoino) comandou uma tendência dentro do PT chamada Democracia Radical. Um dos documentos dessa tendência dizia o seguinte: a democracia não é um instrumento tático, é um valor estratégico de longo prazo. Eles queriam dizer que, ao contrário do que muitos marxistas fizeram ao redor do mundo, não iriam usar a conquista da democracia para golpeá-la. A maioria dos petistas não sabe o que é isso. No fundo, os petistas desprezam a democracia representativa, o parlamento. Toda a lambança do mensalão, a dificuldade de articulação, tem relação com esse desprezo. No tempo do Lula, o impacto disso era um pouco menor por causa do carisma do presidente. No caso de Dilma, apareceu com toda a força negativa. Ela tem uma imensa dificuldade de negociar com o parlamento. No lugar da representação, o que eles querem é a cooptação. No regime cooptativo, quem está dentro determina quem continua fora e quem entra — é só olhar a Venezuela, Cuba. O pano de fundo ultrapassa a economia. É muito mais do que os erros de Dilma.

O tema da economia pode mudar o voto dos eleitores da presidenta Dilma?

Balança, se atingir o bolso deles. O economista Armando Castelar disse recentemente que a boca de jacaré que então estava aberta — entre as percepções dos economistas que olham à frente, e as do trabalhador e consumidor que vivem no curto prazo — vinha paulatinamente se fechando. Essa boca de jacaré já fechou. Uma dos poucas variáveis econômicas positivas a que o governo se agarra é o relativamente baixo nível de desemprego. As pesquisas de opinião sistematicamente têm mostrado que, na visão do eleitor, o governo não tem feito um bom trabalho no quesito política de emprego. Mesmo quem está empregado está percebendo a paradeira da economia e está com medo do desemprego. Além disso, tem a inflação, que reduz o poder de compra, inclusive e principalmente dos beneficiários de programas como o Bolsa Família, que teoricamente seriam eleitores do PT.

O PT corre o risco de perder esse grupo, potencialmente favorável à Dilma?

Dificilmente perderão esse grupo. O que existe hoje é uma situação mais complexa: pela primeira vez, mesmo levando em conta esses critérios brasileiros incrivelmente elásticos da definição do que é classe média, haverá uma eleição em que a classe média é majoritária.

Que diferença isso faz?

É um eleitor mais ?exigente e, neste momento, ele está percebendo que a escada da ascensão social do governo Lula para o governo Dilma se estreitou. Principalmente a chamada nova classe média, que cresceu e prosperou nos anos de bonança da economia internacional que tanto beneficiou o governo Lula. Durante o governo Dilma, a economia não prosperou. É lógico que as oportunidades não se multiplicarão.

Quais as suas previsões para estas eleições? Dilma corre risco?

Dilma corre o risco de perder essa eleição, porque será uma eleição mais competitiva. Primeiro, por causa do desconforto econômico do eleitor.

E a afinidade com o setor empresarial, pesa?

Se você encontra um empresário e pergunta em quem vai votar, ele vai dizer que votará no Aécio. Se você pergunta quem vai ganhar, ele vai citar a Dilma. Ela ainda é a candidata mais competitiva, porque é governo, porque os atos presidenciais são fatos obrigatoriamente noticiáveis em qualquer regime presidencialista. A oposição nos Estados Unidos também reclama que o presidente faz campanha permanente. Isso é um problema para a Dilma: segundo alguns institutos, ela sofre uma rejeição de mais de 35%. Por outro lado, ela é conhecida por 100% dos eleitores, ao passo que Aécio é conhecido por menos de 75% e tem uma rejeição menor. Há alguns números mágicos no marketing político. Analistas dizem que numa eleição fadada a ter dois turnos, o candidato que chega lá com 40% de rejeição já perdeu, porque todos os demais eleitores de candidatos do primeiro turno se unem e derrotam aquele que é mais rejeitado. O meu colega Alberto Almeida, do Instituto Análise, de São Paulo, fez um estudo detalhado de 104 eleições estaduais ocorridas de 1994, quando a reeleição passou a ser permitida, até 2010. Ele mostra que 100% dos candidatos à reeleição que tinham mais de 46% da aprovação do eleitorado tiveram sucesso. Nenhum dos que tinham menos de 34% de aprovação se reelegeram.

O senhor acha que haverá segundo turno?

O segundo turno é um capítulo interessante na história do PT. Todas as vezes que o PT conquistou a Presidência da República, teve de passar antes por um segundo turno. A minha teoria é que quando o PT concorre, precisa levar para a rua a sua militância mais aguerrida. É muita bandeira vermelha, muitos militantes do tipo “faca na boca”. Isso assusta a classe média, assusta o eleitor mais conservador. O partido pode até ganhar, mas parece que o eleitorado antes quer colocá-lo de castigo. O eleitor não votou no PT em 1998, votou em 2002 e voltou a votar em 2006 e em 2010. Em 2002, o ciclo de ideias era de mudança. Em 2006 e 2010, o ciclo de ideias era o oposto, o eleitor continuava satisfeito, não queria mudança. Este ano, os institutos de pesquisa mostram que a tendência do eleitorado é pró-mudança, o que não quer dizer que Dilma será derrotada necessariamente por isso. Espertamente, seus marqueteiros estão tentando fazer com que ela represente a mudança.

Mas ela pode ser derrotada?

O PT, nesta eleição, tem maior probabilidade de ser derrotado do que teve nas eleições anteriores.

É uma probabilidade grande ou pequena?

Não gosto de estabelecer percentuais, mas, com os olhos de hoje, diria que as probabilidades de vitória de Dilma são de 50% a 55%, o Aécio, de 35% a 40% e o Eduardo, o que restar. Dilma é competitiva, mas corre risco. E o fator que pode derrubá-la é a economia. Fernando Henrique ganha em 1994 porque o real consegue domar a hiperinflação. Volta a ganhar em 1998 não porque as pessoas estavam particularmente satisfeitas, mas porque temiam ficar em pior situação frente à crise internacional da época envolvendo a Rússia. FHC, com a autoridade de quem foi o introdutor do Plano Real, pode se vender como o grande timoneiro para aquela hora em que o mar estava mais tempestuoso. Lula, sem a experiência, não inspirava tanta confiança no eleitorado. Lula e o PT ganharam em 2002 e voltaram a ganhar em 2006 e 2010 por causa da economia — quando houve aquele crescimento expressivo de 7,5%. E o governo meteu o pé na jaca em investimento eleitoral. Foi algo atípico, que não se repetiu depois.

O senhor poderia citar alguns exemplos?

Basicamente houve muitas obras em estados e municípios com dinheiro federal. Essas obras dão emprego. Havia espaço fiscal, porque a economia mundial crescia. O Brasil foi na onda das commodities, foi a era do Eike Batista e de suas promessas mirabolantes.

Até outubro ainda dá tempo de a economia fazer mais estrago?

Dá. Nenhum economista prevê a chance de uma virada dramática nesses indicadores até o fim do ano. A cada semana, o boletim Focus do Banco Central (que traz a média das projções do mercado financeiro) revê para baixo as expectativas de crescimento da economia este ano.

A velha estratégia dos escândalos — Petrobras no caso de Dilma; aeroportos, no caso de Aécio — pode afetar a campanha?

Talvez a Petrobras possa, residualmente, pelo fato de ser um símbolo nacional, um ícone. O PT fez muita lambança na Petrobras. Conseguiu reduzir o valor de mercado da empresa pela metade. Diziam que Rockefeller (John, empresário americano do setor petrolífero) falava que os dois melhores negócios do mundo são uma empresa de petróleo bem administrada e uma empresa de petróleo mal administrada, porque ainda assim dá lucro. O PT conseguiu derrubar até essa lei econômica. Mas, de uma maneira geral, ética não ganha nem perde eleição no Brasil.

Alguns cientistas políticos dizem que Dilma dá sorte porque seus adversários seriam fracos. O sr. concorda?

Não. Tanto Aécio quanto Eduardo têm um histórico de boas realizações em seus estados. Têm uma narrativa favorável para fazer perante o eleitorado. Além disso, o fato é que, depois das manifestações de meados do ano passado, Dilma não conseguiu recuperar os patamares de popularidade anteriores. Ela teve leves recuperações no início deste ano, mas não conseguiu recuperar os números fantásticos do período anterior às manifestações.

Poderíamos então dizer que eles não são fracos, mas apenas menos conhecidos?

A rejeição de Dilma está aumentando quando ela já é 100% conhecida. A aceitação dos outros candidatos vem paulatinamente aumentando e ainda há eleitores que não os conhecem. Eles podem, pelo menos, ter esperança.

O horário gratuito na TV muda alguma coisa neste cenário?

Sim. Ele ajuda os indecisos a se decidirem. E ainda há muitos indecisos. É possível inclusive computar uma parcela daqueles entrevistados que dizem que vão votar nulo ou em branco como indecisos. Na hora, votam em alguém porque o horário gratuito ajudou a esclarecer suas dúvidas. O sociólogo Paul Lazarsfeld,  de origem austríaca, estudioso do fenômeno da comunicação de massa da primeira metade do século passado, criou o conceito de fluxo de comunicação em dois degraus. Na época, a mídia predominante era o rádio. Pela teoria, o rádio influenciaria primeiro os formadores de opinião, e os formadores de opinião influenciariam o público maior. Adaptando para os dias atuais, diria que as pessoas se informam inicialmente sobre as candidaturas no horário eleitoral gratuito. Ainda assim, como a maioria não se interessa por política e não acompanha política, essas pessoas vão procurar maiores esclarecimentos nos seus círculos de amizade, de trabalho, vizinhança ou na comunidade, entre os indivíduos que têm a reputação de entenderem de política. Esclarecendo essas dúvidas é que é formada a opinião do eleitor hoje em dia.

As alianças regionais interferem na decisão?

Elas são um fator importante. Este ano, mais uma vez, comprova-se a velha tese de que no Brasil a política é feita da periferia para o centro. A realidade local, regional sempre vai sobrepujar as intenções nacionais do partido. Temer (Michel, vice-presidente da República e presidente do PMDB) é aliado a Dilma, mas o PMDB fazendo todo tipo de aliança lá embaixo. O cientista político Ricardo Braga fez um artigo mostrando que este ano os anti-Dilma estão governando um maior número de eleitores do que a aliança pró-Dilma. No plano local, muita coisa interessante ocorre. Pernambuco é um exemplo. Em termos de popularidade, Dilma quase empata com Eduardo Campos. Intuitivamente se acharia que Eduardo levaria de lavada aquilo ali.

Muitos disseram que as manifestações demonstraram uma aversão à política, ao Parlamento. Existe um desgaste das classes políticas?

Existe. Apesar de a economia ser preponderante na decisão do eleitor, há também uma parcela do comportamento político das pessoas para o qual você vai encontrar explicação na dialética do senhor e do escravo, de Hegel (Georg W. Friedrich, filósofo alemão), uma metáfora da luta de cada um para ter sua dignidade reconhecida pelos demais. A teoria diz que entre os primeiros homens que surgiram na terra, aqueles que se deixaram subjugar pelos outros o fizeram pelo medo de morrer — ou seja, uma parte da humanidade se submeteu à outra por medo de morrer. Reduzido a viver para trabalhar, esse escravo, aos poucos, vai se aprimorando no que faz, até que a excelência adquirida na realização do trabalho lhe confere um novo sentido de honra, munido do qual passará a confrontar o seu senhor. Por isso, Hegel dizia que na dialética do senhor e do escravo, quem sai ganhando é o escravo. Óbvio que Marx tirou daí a conclusão de que o proletariado triunfaria um dia. A energia que levou às manifestações — as primeiras, não as dos Black Blocs — não foi apenas o aumento de centavos nas tarifas de ônibus, mas também o desejo de repudiar o descaso e a humilhação que recebem das autoridades que elegem. Claro que os protestos também tiveram uma nítida motivação econômica: afinal, nunca dantes na história do Brasil tantos trabalhadores formalmente empregados puderam ler nos seus contracheques quanto o governo e os políticos lhes subtraem e quão pouco lhes devolvem sob a forma de serviços públicos insuficientes e de péssima qualidade. A isso devemos juntar aquela imagem da escada que, de repente, ficou mais estreita, provocando a ira de quem havia apenas começado a galgá-la.

Trazendo mais para o presente, como o sr. analisa as colocações da Sininho (Elisa Quadros, presa nas manifestações do Rio sob a acusação de atos violentos)? É um novo anarquismo?

Este episódio da Sininho serve para mostrar o quão alienadas estão as nossas elites intelectuais em relação ao sentimento majoritário da população. Um exemplo bem atual é o seguinte: no Departamento de Sociologia da PUC do Rio de Janeiro, os únicos professores que se recusaram a assinar um manifesto pró-libertação da Sininho e seus asseclas foram Roberto DaMatta e Luiz Werneck Vianna. Além de serem grandes pensadores, grandes cientistas sociais, eles são cidadãos muito conscientes de seus deveres e sabem que Sininho e seus asseclas devem, sim, ser punidos pelos atos antissociais que cometeram ou que levaram os outros a cometer. A maior parte dos intelectuais das academias — infelizmente sou obrigado a ser colega dessa gente — tenta romantizar o crime, glamourizar a transgressão. E se quisermos mais uma vez retomar uma discussão clássica, poderíamos invocar a figura do Jean Jacques Rousseau, que glamourizou o bom selvagem. Infelizmente a maioria dos intelectuais hoje está nesta onda mental, por isso apoia Sininho.

Como vai ficar a nova configuração partidária nos estados e no Congresso?

Haverá uma renovação grande no Congresso. Antonio Augusto Queiroz, do Diap (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar), fez uma previsão apontando que na Câmara há 100 deputados que por diferentes razões não buscarão a reeleição. Alguns desistiram, outros sairão candidatos para outros cargos, outros se candidataram ao cargo de deputado estadual. Cerca de 20% da renovação na Câmara será obrigatória. Não sou capaz de prever com quanto de cadeiras cada partido vai ficar, mas eu posso, com uma razoável segurança, dizer que mais uma vez vai se repetir a tragédia que está na origem do nosso presidencialismo de coalizão. O nosso sistema eleitoral produz tanta fragmentação que nem mesmo o FHC no seu melhor momento, em 1994, nem Lula no seu mais glorioso período em 2002, conseguiram mais de 20% das cadeiras para o seu partido na Câmara. Isso obriga a fazer a coalizão. Enquanto no parlamentarismo clássico a maioria faz o governo, aqui no Brasil, após a eleição, o governo é obrigado a construir a sua maioria. Para isso usa os recursos habituais: distribuição de cargos, liberação de emendas para construção de obras nos municípios. Houve até recentemente quem quis usar dinheiro vivo e parece que não deu muito certo, algumas pessoas foram presas...

Há espaço para a reforma política?

Na minha avaliação mais otimista, a reforma política vai demorar a sair. Não há consenso e, no caso de consulta popular, as pessoas não saberão construir esta reforma. Além disso, aqueles que são eleitos e reeleitos dentro desse sistema viciado não têm estímulo nem incentivo para mudar, porque eles não sabem se serão reeleitos em um novo sistema.

Este ano mais uma vez teremos os candidatos não-políticos, como Tiririca. Como o sr. vê isso?

Essas pessoas, no fundo, refletem o modo como a nossa sociedade vê a política, ou seja, uma palhaçada. Se falta seriedade, porque não colocar ali os palhaços profissionais?

Mas alguns deles tiveram uma boa avaliação como parlamentar, como o próprio Tiririca, não é?

Tiririca não deu vexame. A grande revelação do não político que se tornou político é o Romário. Influenciou muito a conjuntura esportiva, com a Copa do Mundo e a polêmica com a Fifa.

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