Cenários para o varejo

Não é possível crer em uma reversão imediata, mas o segundo semestre sinaliza para uma possível melhora no elemento que mais influencia as vendas reais do comércio varejista: o preço

Por diana.dantas

A interação entre preços elevados, renda restrita e crédito limitado tem sido o pano de fundo para o desempenho especialmente enfraquecido do comércio que está sendo visto desde o início de 2015. Em maio, as vendas no varejo restrito, apuradas pela Pesquisa Mensal de Comércio (PMC), do IBGE, cederam 4,5% ante maio de 2014 — a maior queda desde agosto de 2003 (-5,7%). No varejo ampliado, que inclui veículos e materiais de construção, a queda de 1,8% em maio ante abril, além de ser a sexta consecutiva, é a mais intensa para o mês desde o início da série, em 2003.

Os juros reais elevados inibem a tomada de crédito para o consumo, e as restrições de emprego e renda fazem com que as despesas familiares se concentrem nos artigos mais básicos e necessários.

Nessas condições, as vendas de duráveis são intensamente atingidas. O setor de móveis e eletrodomésticos, por exemplo, costumava ser beneficiado pelo Dia das Mães. Em 2015, porém, a restrição de crédito e renda dos brasileiros não favoreceu a data. O setor de veículos é um espelho significativo dessa situação. As vendas de automóveis recuaram 22,2% em maio de 2015 ante maio de 2014. Foi a queda mais intensa entre os segmentos do varejo ampliado e a 12ª taxa negativa consecutiva para o setor. Poucos segmentos resistiram às quedas, a exemplo dos artigos farmacêuticos, em que a alta de preços sustenta a receita de vendas.

Ao desempenho desfavorável das vendas soma-se a elevação de custos e despesas do setor, tais como gastos com energia elétrica, combustíveis, pessoal, etc. Nesse sentido, os varejistas têm buscado adaptar o quadro de funcionários à nova realidade do setor. No período de 2004 a 2012, quando as vendas do varejo cresceram a uma média anual de 8,5%, o comércio foi responsável por 26% das vagas formais criadas no país, atrás apenas do setor de serviços, com 42% do total. Naquele momento, o emprego no comércio avançou 89% (7% ao ano), ante 5% ao ano do restante da economia. A partir de 2013, o ritmo de vendas do setor iniciou um novo ciclo marcado por forte desaceleração. O volume de vendas no varejo ampliado, que cresceu 8% em 2012, avançou 3,6% no ano seguinte. Em 2014, a crise no setor automotivo levou as vendas agregadas do varejo ao seu primeiro resultado negativo em dez anos (-1,6%).

Um dos principais entraves à retomada das vendas no varejo é o nível de preços atual. A inflação já está longe da meta há diversos períodos e ainda se mostra elevada mesmo com o desaquecimento da demanda. A principal barreira à sua queda é o reajuste dos preços administrados. No último relatório de inflação, o Banco Central declarou esperar que ela atinja 9% ao final de 2015. A última previsão para o IPCA, de março deste ano, estava em 7,9%. No Relatório Trimestral de Inflação (RTI) o Copom também atribui a alta dos preços ao processo de realinhamento dos administrados e dos preços livres. Adicionalmente, o RTI ressaltou que o real se depreciou significativamente nos últimos três anos em relação a outras moedas relevantes, e, por isso, já ocorre realinhamento entre preços domésticos e preços internacionais.

Há a expectativa de que o orçamento das famílias esteja menos apertado na segunda metade do ano, por conta de um possível alívio na inflação. O realinhamento de parte importante dos preços administrados, como gasolina, diesel, energia elétrica, entre outros, tem sido relevante na inflação, bem como na condução da política econômica nos últimos meses. De acordo com estudo recente divulgado pelo Bradesco, com o encerramento do primeiro semestre a avaliação é que 64% desse realinhamento de preços já ocorreu. Nesse sentido, são esperadas menos elevações daqui para frente, e, assim, deve ocorrer menor impacto sobre a inflação ao consumidor no segundo semestre.

Em uma das pesquisas apuradas pela CNC é possível verificar alguns sinais, embora leves, de um olhar menos pessimista para a segunda metade do ano. Após acumular oito quedas consecutivas, em junho o Índice de Confiança do Empresário do Comércio (Icec) registrou variação de +0,6% em relação ao último mês de maio, já descontados os aspectos sazonais. O resultado positivo nessa base comparativa foi particularmente influenciado pela revisão das expectativas, que avançaram pela segunda vez seguida (+3,8%), e pela variação na intenção de investimentos (+0,6%). Já a avaliação das condições correntes oscilou -1,6% e manteve a tendência de deterioração observada nos últimos dez meses, embora com menor intensidade. Na comparação com o mesmo mês do ano passado, o índice registrou a 23ª queda seguida (-21%), resultado fortemente impactado pela deterioração na percepção das condições correntes (-42%). Com quedas recorde nas vendas em 2015, o percentual de empresários reportando níveis dos estoques elevados está no segundo maior patamar da série histórica.

Embora a pesquisa da CNC e alguns outros indicadores de outras situações mostrem uma trégua no ritmo de queda, o cenário para o ano continua negativo. Em longo prazo, a sustentabilidade do consumo reside no mercado de trabalho, que mostra clara desaceleração neste ano. A taxa de desemprego medida pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) chegou a 8% no trimestre encerrado em abril — a maior da série, iniciada em 2012. A renda também segue em queda.

Outro fator complicador é o nível de estoques do varejo, que continua elevado. Não é possível crer em uma reversão imediata, mas o segundo semestre sinaliza para uma possível melhora no elemento que mais influencia as vendas reais do comércio varejista: o preço. O câmbio também deve ser mais favorável, pois não são esperadas novas desvalorizações do real, como já houve nos últimos meses. Consequentemente, as pressões sobre a inflação também serão menores, melhorando o nível de confiança da economia, reativando os investimentos e o consumo.

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