A providência e a realidade

Até que ponto as concessões pragmáticas que Marina Silva terá de fazer vão bater de frente com o desejo de mudança de seus eleitores?

Por marta.valim

À falta de um programa oficial de governo, começam a surgir as primeiras indicações sobre as linhas básicas da política econômica na hipótese de Marina Silva chegar ao Palácio do Planalto. Sua candidatura, como se sabe, foi obra do acaso ou “dos desígnios divinos”, nas palavras da própria ex-ministra. Exatamente por isso, houve forte reação em alguns setores do empresariado. “Será que ela pensa que Deus vai comandar a economia?”, perguntou uma raposa do mercado financeiro, em roda de amigos. Pode parecer exagero, mas, se não há dúvidas em relação ao receituário de PT e PSDB, é enorme a desconfiança quanto ao que a ex-ministra do Meio Ambiente pensa a respeito da economia brasileira. Sabe-se pouco ou quase nada sobre suas ideias. E qualquer luz nessa direção é bem-vinda.

Daí a importância das sinalizações, mesmo que improvisadas. Em sua primeira entrevista já candidata do PSB, Marina afirmou que pretende manter a inflação dentro da meta e também que vai respeitar os fundamentos básicos, com câmbio flutuante e controle fiscal. Disse que há consenso sobre a questão da independência do Banco Central. No sábado, durante caminhada de campanha no Recife, voltou a falar da inflação, lamentando a perda de valor dos salários.

“Não adianta fazer filme bonitinho, dizendo que está tudo azul, tudo cor de rosa, quando a inflação ameaça corroer o salário dos trabalhadores”. No horário eleitoral, ela prometeu uma máquina administrativa mais enxuta e eficiente, já que não se dispõe a repetir o loteamento político no Ministério. E há quem lembre que a ênfase na gestão dos recursos públicos já fazia parte da plataforma de Marina na campanha de 2010.

A exemplo do que aconteceu com Lula em 2002, os principais assessores de Marina Silva concluíram que está na hora de acalmar os ânimos dos senhores da indústria e das finanças. Mesmo que eles não tenham muitos votos, são formadores de opinião. Sua hostilidade é sempre motivo de preocupação. Na primeira eleição de Lula, José Dirceu tratou de mandar um recado tranquilizador com a “Carta aos Brasileiros”, em que o PT assumiu compromisso com a racionalidade econômica, abandonando bandeiras radicais como o rompimento com o FMI. Agora, comenta-se que Marina deveria repetir a fórmula. Ou, pelo menos, dar sinais de que tem os pés no chão e não ficará limitada aos “desígnios divinos”.

Fiel escudeira de Marina, a educadora Maria Alice (Neca) Setubal, herdeira do Banco Itaú, saiu em defesa da amiga e disse, em entrevista a Fernando Rodrigues, da “Folha”, que os principais operadores do mercado financeiro serão ouvidos pela coordenação da campanha. Antecipou que já existem economistas se aproximando e garantiu que os pontos levantados por Eduardo Campos serão respeitados. Será mantida a prioridade para a reforma fiscal, “a responsabilidade fiscal muito grande da qual Eduardo falava”. Este também o caso do Banco Central. “Ela não achava que precisaria de uma lei para dar mais autonomia. Existiam diferenças e o programa reflete o que é de consenso. Então, ela, enfim, aceitou”.

Pelas declarações de Neca Setúbal, constata-se que Marina Silva está disposta a fazer concessões de ordem prática – assim como Lula em 2002. Resta saber até que ponto tais concessões vão bater de frente com a principal fonte de seus votos: o desejo de mudança de quem protestou nas ruas no ano passado.

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