A reconstrução de Dilma

É ilusão acreditar que o crescimento de Marina Silva explica-se única e exclusivamente pela emoção provocada pela morte de Eduardo Campos

Por douglas.nunes

Antes de ser divulgada a última pesquisa do Ibope, um especialista em consultas de opinião garantia ontem à tarde que o panorama da sucessão presidencial está consolidado: “A ascensão de Marina é muito consistente. Haverá segundo turno e Dilma e Marina vão disputar até o final”. Portanto, é pura ilusão acreditar, a esta altura, que o crescimento de Marina Silva explica-se única e exclusivamente pela emoção provocada pela morte de Eduardo Campos. Ou insistir que ela ainda pode murchar até o dia 5 de outubro. A ex-ministra continua a crescer nas pesquisas e faltam apenas 30 dias para o encerramento oficial da campanha. Não há tempo para reação de Aécio Neves, mas a presidente Dilma, o ex-presidente Lula e a direção do PT têm força suficiente para tentar endurecer a partida e, talvez, virar o jogo no mano a mano marcado para 26 de outubro.

Em reunião na segunda-feira, após o debate do SBT, o núcleo duro da campanha de Dilma reuniu-se em São Paulo, para discutir os rumos da eleição. Lá estavam, além de Lula e Dilma, o marqueteiro João Saldanha, o jornalista Franklin Martins, ex-ministro da Comunicação Social, e o presidente do PT, Rui Falcão. O grupo trabalhou tendo à mão as pesquisas internas de intenção de votos (os trackings), que confirmam o avanço de Marina nas grandes capitais, com destaque para o Rio de Janeiro e São Paulo. E traçou o difícil objetivo (mas não impossível) de enfraquecer a adversária e ao mesmo tempo aumentar o fôlego da atual ocupante do Palácio do Planalto, que sonha com a reeleição. Não há um plano B. Por mais que ressurjam os comentários sobre a volta de Lula este ano, trata-se de hipótese remotíssima. Lula está de olho em 2018.

Uma decisão, já anunciada, é a de atacar os conflitos entre as convicções de Marina e o programa de governo do PSB. A tentativa de desconstrução inclui também um jogo bruto, que, pelo retrospecto, leva certamente a assinatura de Franklin Martins. Desde o início da campanha, Franklin defendeu estratégia mais agressiva, em lugar do enfoque mais propositivo ao gosto de João Santana. Tudo indica que a opinião do ex-ministro de Lula está prevalecendo, pois, nos últimos dias, entraram no ar golpes abaixo da linha de cintura, como a comparação de Marina com Jânio Quadros e Fernando Collor. O tiroteio pesado se estendeu a blogs na internet, com análises enfurecidas sobre os planos e as opiniões da sucessora de Eduardo Campos. As investidas fazem parte da tática de arrasa quarteirão. Mas o resultado pode ficar aquém do esperado. Por uma razão muito simples: Dilma também tem pontos vulneráveis.

As pesquisas de opinião mostram que Dilma está desgastada, principalmente com a classe média. No Rio, por exemplo, segundo avaliação do ex-prefeito César Maia, Dilma abre vantagem entre os eleitores de menor nível de renda, enquanto Marina a supera entre os de maior nível. Marina ganha na capital e Dilma vence por pouco na Baixada Fluminense e São Gonçalo. Logo, não basta atacar Marina. Dilma Rousseff tem que melhorar sua imagem. E, pelo visto, a própria presidente fez movimento nesta direção ontem, em Belo Horizonte, ao anunciar que, se for reeleita, seu novo governo terá uma nova política industrial e novas equipes. Ela disse que não está satisfeita com a economia e gostaria de ver “o Brasil crescendo em ritmo mais acelerado”. Os eleitores também.

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