Por diana.dantas
Quem vem lá dos anos 70 certamente ficou impressionado com uma informação do currículo do futuro ministro da Fazenda, Joaquim Levy: mestre pela Fundação Getúlio Vargas, ele tornou-se doutor em Economia pela Universidade de Chicago em 1992. Trata-se de escola das mais conceituadas dos Estados Unidos. Fundada pela magnata do petróleo John Rockfeller em 1980, Chicago formou mais de 70 ganhadores do Nobel, com destaque para a ciência econômica. É um bastião do pensamento liberal e teve, entre seus principais expoentes, o professor Milton Friedman, Prêmio Nobel de Economia de 1976 e um dos papas da corrente monetarista. Pelo mundo afora, sempre que defendem medidas austeras para combater a inflação e o déficit público, economistas tomam emprestada frase cunhada por Friedman: “Não há almoço grátis”, citação do título de seu livro “There's No Such Thing as a Free Lunch”, de 1975.
O adágio, na verdade, não é de autoria de Friedman. Dizem os estudioso que surgiu no século 19, quando, na Inglaterra e nos EUA, restaurantes ofereciam aos clientes “almoço grátis”, desde que comprassem bebidas. Como o preço da bebida incluía, mesmo com desconto, o da refeição, algumas promoções foram enquadradas por falsa propaganda. Incorporada à cultura popular, a frase foi usada por autores de ficção, antes de ser difundida pelos discípulos de Friedman. De qualquer forma, ganhou força como antítese da ideia keynesiana de que o Estado deve subsidiar o investimento e o consumo para impulsionar a economia. Ao fim e ao cabo, a conta das benesses estatais terá de ser paga, dizem os monetaristas, já que não existe almoço grátis. A ortodoxia liberal de Friedman ganhou muitos adeptos nos anos 70 e 80 e inspirou os modelos privatistas de Ronald Reagan e Margaret Thatcher.

Na América do Sul, os ensinamentos de Friedman foram aplicados ao pé da letra à economia do Chile, durante a ditadura do general Augusto Pinochet. Como estratégia de combate à inflação, economistas egressos de Chicago aplicaram uma inflexível política de taxas de juros, com corte radical no crédito e no orçamento público, além do inevitável arrocho salarial. A receita deu resultados, ajudou a reorganizar a economia – mas obviamente com alta taxa de desemprego e um enorme custo social. Afinal de contas, “there's no such thing as a free lunch”. No Brasil, num determinado momento da ditadura militar, a corrente monetarista também prevaleceu. E o remédio amargo de juros nas alturas e salários congelados foi aplicado sem piedade. Na oposição, apesar da censura, fala-se horrores dos chamados “Chicago's boys”. Um deles, Carlos Geraldo Langoni, foi uma espécie de menino de ouro da Fundação Getúlio Vargas e ocupou a presidência do Banco Central de 1983 a 1985.

Os tempos são bem diferentes. O próprio Langoni, que hoje dirige o Centro de Economia Mundial da FGV, mudou bastante. E o fato de um economista ser doutor por Chicago não é mais visto como um anátema. Ao escolher Joaquim Levy para a Fazenda, a presidente Dilma Rousseff aposta em sua vasta experiência no controle de despesas públicas. No primeiro governo Lula, ela pôde acompanhar de perto a eficiência de Levy à frente da Secretaria do Tesouro Nacional. Quem é oriundo da Universidade de Chicago sabe muito bem como conter os ímpetos keynesianos. Neste sentido, Levy é o homem certo no lugar certo.
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