Por diana.dantas
As políticas de enfrentamento da crise atual implementadas pelos Estados Unidos e a China (o G2) tem sido importantes fontes de desequilíbrios globais nestes últimos seis anos. E talvez não seja um exagero dizer que sejam também um dos motivos porque patinamos sobre uma fraca e frágil recuperação mundial. Ao que tudo indica, elas pecam por não enfrentar um dos problemas fundamentais dessas economias: a desigualdade. E sem um enfrentamento necessário desse problema, suas atuais políticas podem ser pouco eficazes, além de trazer consequências nada boas para as demais economias do globo. Isto é o que parece vai ocorrer, de novo, em 2015.
Comecemos com os Estados Unidos. Ao longo de quase 20 anos que antecederam a crise, o salário médio dos assalariados foi seguidamente achatado. Apesar disto, a classe média americana pode manter-se na liderança do consumo global graças a um extravagante acesso ao crédito. A crise de 2008/9, primeiro capítulo da novela da crise econômica atual, acertou em cheio a máquina consumista americana. Desmontou os mecanismos de alavancagem de crédito — especialmente devido à abrupta queda do preço dos imóveis utilizados como garantia.

O segundo capítulo dessa novela ocorre com a eleição do presidente Barack Obama, que deu início a um dos maiores cercos políticos por parte do Congresso para obstruir ações do executivo. Desde então, os republicanos bloquearam as tentativas de aumentar o salário mínimo e de expansão dos gastos públicos. Assim, apesar de o governo Obama manter uma política fiscal contracíclica, ainda em plena crise teve de reduzir substancialmente seu déficit fiscal de 12,1%, em 2009, para -2,8%, em 2014. Com isso, e sem instrumentos de redistribuição de renda, restou utilizar-se de política monetária não convencional, que permitiu ao banco central (Fed) injetar mais de US$ 4 trilhões nos mercados financeiros locais — uma pequena parte da qual estabilizou o mercado imobiliário e outra resultou em pequena melhora do crédito ao consumidor.
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A contrapartida global do ajuste dos EUA está clara hoje. Por um lado, a fraca recuperação da demanda americana privou o comércio internacional de uma fonte importantíssima de demanda — e, não por outra razão, até pouco tempo muitos (erroneamente) contavam com as chamadas economias emergentes, especialmente a China, como fonte propulsora da recuperação global. Por outro lado, o excesso de liquidez injetado pelo Fed acabou por escoar para finanças internacionais — contribuindo para o boom das commodities e para enormes desequilíbrios no mercado de moedas internacionais.

No caso do outro membro do G2, a China, um tema em comum: tendo em vista os baixíssimos salários médios (e o alto nível de desigualdade) a resposta anticíclica foi pelo lado dos investimentos e do crédito. Assim, o mundo viu estarrecido a China aumentar a participação do investimento sobre o Produto Interno Bruto de 44% em 2008 para quase 49% em 2010. E viu também o crédito ao consumidor mais que triplicar desde 2009. Nenhum desses estímulos chineses são sustentáveis: por um lado, criou-se um excesso de capacidade (produtiva e também de infraestrutura) que por si só impede a continuidade dos investimentos; por outro, o setor de crédito começou a apresentar preocupantes sinais de fragilidade e riscos excessivos, principalmente considerando o absurdo crescimento do “sistema bancário sombra”, de financiamento direto não regulado. Hoje, as autoridade chinesas estão ativamente buscando soluções para manter o crescimento em torno de 7,5%, um desemprego de 4,1% e evitar uma crise financeira — fundamentais para manter a estabilidade política e econômica.

E o que se pode esperar daqui para diante? Arrisco dizer que, da parte do G2, mais políticas que não ajudam para reduzir os desequilíbrios globais. Apesar do deficit fiscal nos Estados Unidos (especialmente dos estados) estar se elevando, não será este ano que veremos uma expansão substancial dos investimentos públicos. Já a política monetária deixará de ser super expansionista, o que joga a favor do fortalecimento do dólar; mas também será insuficiente para promover mais elevação do consumo ou do investimento locais.

Já as autoridade chinesas prometem um déficit de US$ 220 bilhões para este ano (2,1% do PIB), um crescimento de quase 12% em relação ao ano anterior (2,0% do PIB). Outra promessa é manter uma política monetária prudente, que na versão chinesa representa uma expansão da oferta de moeda (M2) de 13% (!), após ter crescido 13,6% no ano passado. Com essa política, pretende-se manter baixíssimos os juros, o que teria a vantagem de mitigar os riscos de instabilidade no setor bancário sombra. Mas nenhuma dessas políticas aponta claramente na direção de ampliar os gastos de consumo — e muito menos dos investimentos.

No fundo, o que parece claro é que um dos entraves principais das economias do G2 continua a ser a desigualdade, gerada por salários médios baixos achatados, que terminam por impedir um crescimento sustentado do mercado doméstico. Enquanto esses países não enfrentarem esse problema, creio, em 2015 teremos de continuar a conviver com um ambiente externo de grandes incertezas, fluxos de capital voláteis e comércio global caminhando de lado.