Fernando Mansur - colunistaSABRINA NICOLAZZI

O estúdio de rádio foi, durante décadas, uma extensão de minha casa. Lá eu me mentia muito bem. Ih! Ato falho! Escrevi “mentia” em vez de “sentia”.
Por que escrevi “mentia”? Penso e repenso e vejo o que me vem.
Lá eu me mentia que estava tudo bem. Lá, o mundo era diferente do real, eu o construía e modelava e melhorava e decorava com os enfeites das canções, desenhos de corações. Ilusões prazerosas.
As músicas sempre foram minha paixão, no rádio, na TV, na vitrola... Dia e noite, até enquanto estudava. A música me entornava, me contornava, me consolava, assim como as notas que eu tomava no caderno. Anotava meus sentimentos por meio de poesias, crônicas, mensagens, meditações. Mas nada como o rádio para eu me relacionar comigo e com os outros, para me escutar, me esconder.
O artista chegava e eu logo me entregava, me empolgava. Quando eu abria o microfone eu era “outro”, e me exultava, me sentia um super-homem, senhor de mim e do mundo. Eu me aflorava.
Acho que sempre fui cortês com os convidados e a empatia logo se dava. E me lembro de como me preparava para as entrevistas, estudando e pesquisando sobre a vida e obra do cantor/a, ator e atriz, escritor/a... que ali chegavam para divulgar seus trabalhos. E foram muitos! E isso só me honra!!!
Agora, meio aposentado, recordo o passo a passo desses momentos de tantas lembranças boas, quando a amizade e atenção dos ouvintes sempre me acompanharam.
Nem sempre fui um bom “comunicador” fora das quatro linhas do estúdio, meu santuário, mas aqui estou, dando graças e prestando minha homenagem agradecida a todos que estiveram e seguem comigo nessa caminhada de sons e de sonhos.
Aproveito para saudar os ouvintes e meus colegas de profissão, com alegria, gratidão e admiração. Seguimos juntos, na mesma frequência: a da Vida.
Escrevi este texto na tentativa de entender quem sou hoje: a pessoa e a persona. Se as duas ainda são distintas e distantes ou se já se aproximaram. Acho que agora estou unindo esses dois pontos de mim, juntando juventude e velhice, e sendo mais inteiro, mais intenso, mais completo, mais certo, mais perto do que quero ser: Eu mesmo.
Assim vou, assim sou, assim vôo!!!