Escrevo estas memórias algum tempo depois de tê-las vivido, valorizando a beleza desses instantes simples, que fazem a vida ganhar um colorido especialArte: Kiko
Onde mora a beleza...
A simplicidade, que por vezes me escapa e tento agarrar novamente, também está no momento em que meu pai tenta me alegrar e me oferece sopa de ervilha, mesmo sabendo que eu não gosto da iguaria
Os dias já tinham temperaturas mais amenas, com neblina ao entardecer e friozinho dentro de casa, ideal para colocar pantufas nos pés e cobertores bem quentinhos na hora de dormir. Já fazia um friozinho, ainda mais para quem sentiu o calor intenso do verão no Rio neste ano. Assim, a efusividade com que os dois meninos chegaram à sala daquele apartamento de uma amiga na Região Serrana do Rio aqueceu o meu coração.
Os dois são filhos de outra amiga — o mais velho, de 10 anos, carregava um boneco que até então eu não conhecia. Logo fui apresentada ao Athos, que também estampava a camisa dos dois irmãos. Não demorou muito para que o caçula, de 7 anos, começasse a mostrar suas cartas de Pokémon, inclusive as raras, trazendo uma brisa de vida para os dias meio nublados. Logo fiquei pensando que a gente cresce, se depara com situações que nos frustram e acabamos por esconder nossas cartas raras do outro — elas podem ser um sorriso, um afeto ou alguma conversa mais prolongada. Que bom foi ter contato com a pureza de uma criança para me lembrar de que a simplicidade ainda é muito valiosa.
Também reparei na felicidade com que o caçula mostrava a janelinha no seu sorriso, depois de um dente ter caído naquela semana. E o mais velho ainda contou, todo animado, sobre a fada do dente, aquela que realizaria um pedido do irmão.
Como já estava perto da hora do almoço, resolvemos sair logo do apartamento para um restaurante de comida a quilo ali pertinho. Desci no elevador com o filho mais velho da minha amiga e ele logo me deu a mão — e fiquei pensando novamente em como a gente se esquiva de caminhar ao lado do outro em algumas situações da vida adulta. Fazemos isso para nos preservar, mas o desafio é achar o equilíbrio entre o momento certo de estender ou recolher a nossa ajuda e confiança.
Escrevo estas memórias algum tempo depois de tê-las vivido, valorizando a beleza desses instantes simples, que fazem a vida ganhar um colorido especial. Foi assim que aconteceu quando entrei no salão e percebi que a Fernanda, manicure que faz as minhas unhas, havia comprado balas de café, as minhas preferidas! Sempre que vou lá, pego duas unidades para levar para casa e desembrulhar em momentos estratégicos em que desejo um docinho.
Outro dia, aliás, ali mesmo no salão, fiquei feliz da vida porque as meninas elogiaram a minha roupa e repararam que o lenço que havia amarrado na bolsa jeans era do mesmo tecido da calça que eu vestia. Fiquei tão boba que, ao dar uma voltinha para mostrar o look, acabei borrando a unha. Parece besteira, mas onde estaria a beleza da rotina senão em um momento banal desses?
Desde o encontro com aqueles dois irmãos lindos, também tive o privilégio de ficar feliz por encontrar duas alunas na academia que me incentivam a malhar — ou treinar, como se diz nos dias de hoje. O simples fato de alguém estar esperando a minha presença já me estimula a ir também. Por algumas vezes, uma olhou para a outra e falou: "Hoje eu pensei em desistir, mas vim porque vocês viriam". Talvez haja aí algo da infância, quando a gente estende a mão para o outro. Em alguns momentos da vida, pode até parecer uma carta rara ter alguém que nos faça ser uma pessoa melhor. Mas eu ainda creio que isso seja mais corriqueiro do que pode parecer.
A simplicidade, que por vezes me escapa e tento agarrar novamente, também está no momento em que meu pai tenta me alegrar e me oferece sopa de ervilha, mesmo sabendo que eu não gosto da iguaria. Ou quando a minha irmã compra um brownie para adoçar os meus dias. Assim, acredito que é um exercício não se perder na ilusão de que o luxo está atrelado ao que custa muito no mundo do dinheiro. Costumo escrever sobre isso inúmeras vezes, provavelmente para não me esquecer da beleza desses momentos que um dia virarão saudade no meu coração.
Justamente por isso, teve muito valor quando vi os filhos da minha amiga se encantarem com vários patinhos à beira do lago. Para completar, o caçula perguntou para ela: "Mãe, um pato é amigo do outro?". Eu achei isso tão genial! Afinal, o que mais haveria de importar nessa vida a não ser saber quem é nosso amigo de verdade?

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