Assim, sete meses após voltar à academia, chego lá preparada para o som alto. Mas constatei que, por mais que a música esteja no volume máximo, há momentos em que não a perceboArte: Kiko
Quando tudo silencia
Naquele instante, no meio da sala de musculação, todo mundo ao meu redor deveria estar ouvindo música alta e o barulho dos pesos. Mas eu simplesmente não tenho nenhum registro da trilha sonora que tocava: aquele momento foi tão potente que silenciou tudo em volta
Posso dizer que relutei um bocado para voltar à academia no ano passado. Uma das razões era o fato de estar em um ambiente com música alta, aliada ao barulho do salão de musculação, com pesos sendo levados de um lado para outro e muita gente falando em um volume também elevado. Eu vinha de mais de dez anos praticando pilates em um estúdio onde o som tem um volume moderado e é possível conversar sem aumentar o tom de voz. Mesmo com esse estranhamento, eu me rendi. Para fortalecer os músculos e ter uma vida mais saudável à medida em que fico mais velha, eu me matriculei na academia em outubro e, pouco a pouco, fui me readaptando.
Sei que existem alunos que chegam e saem da academia com fones no ouvido e, assim, ouvem suas próprias canções — eu já fui assim e não julgo. Até faço um exercício de imaginar como é o universo de cada um ali, com as suas belas melodias e também ruídos. Afinal, de uns anos para cá, mudei muito a minha forma de ver o mundo e me relacionar com as pessoas. Hoje, entre uma série e outra, eu quero ouvir e ver histórias. Também reclamo do 'búlgaro', um tipo de agachamento, ou da elevação pélvica no aparelho — e até ganhei apoio de outra aluna nessa reivindicação. Mas não tem jeito: vira e mexe, estou de olho em algo por trás de cada pessoa ali. Fico reparando no ir e vir das pessoas quando paro para tomar um iogurte depois da aula, ao lado da cafeteira.
A música, é claro, continua lá, geralmente em alto e bom som. Inclusive, há dias em que amo a trilha sonora! Foi assim às vésperas do Carnaval, quando tocou axé music. Assim, pude relembrar o meu breve passado de micareteira, que durou exatos três eventos: um show do Asa de Águia, um do Chiclete com Banana e outro da Ivete Sangalo. Todos no Riocentro, na Zona Oeste do Rio, em 2006. Acho que ainda tenho guardado algum abadá, que não cabe mais em mim.
Outro dia, também adorei o som da academia quando tocou funk das antigas, especialmente o saudoso MC Marcinho. "Se quiser falar de amor, fale com o Marcinho", dizia ele em 'Glamurosa'. Deu até para cantarolar 'Garota Nota 100' em um momento de descanso: "Igual a você, eu sei que não tem/ De zero a dez, te dou nota 100/ E até hoje eu lembro de ti/ E ainda sonho que um dia você vem...". Em clima de flashback, o meu professor, Wallace, perguntou se eu havia assistido ao filme 'Nosso Sonho', sobre a dupla Claudinho e Buchecha, e contou ter saído do cinema emocionado por se lembrar das festas de sua família.
Assim, sete meses após voltar à academia, chego lá preparada para o som alto. Mas constatei que, por mais que a música esteja no volume máximo, há momentos em que não a percebo. São instantes em que a cena capturada pelo meu pelo coração fala mais alto do que qualquer outra melodia. Poucos dias após o meu professor ter escrito e publicado um texto para a mãe dele, que não está mais aqui, uma aluna se aproximou dele e contou que ter se emocionado com aquela escrita. Os dois se abraçaram e ela sorriu — e eu congelei essa cena no meu coração.
Em seguida, comecei a conversar com a Nathália, professora que já me deu aula de pilates e que conheceu a minha mãe, que hoje também me acompanha de outro plano. A Nathália falava sobre os meus textos e me incentivava a realizar o sonho de um dia escrever um livro de crônicas. Também nos abraçamos e ela me disse: "Se estivesse aqui, sua mãe estaria orgulhosa de você. Mas, de onde estiver, ela está", disse Nathália, que hoje é mãe de uma linda menina. Foi o bastante para os meus olhos ficarem marejados, assim como os dela.
Naquele instante, no meio da sala de musculação, todo mundo ao meu redor deveria estar ouvindo música alta e o barulho dos pesos. Mas eu simplesmente não tenho nenhum registro da trilha sonora que tocava: aquele momento foi tão potente que silenciou tudo em volta. Somente aquela cena ficou registrada para mim. Cheguei à conclusão de que canções podem nos trazer lindas lembranças. Mas há momentos em que um abraço emocionado é a melhor melodia que temos na vida.

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