Aquele post me levou a pensar no tanto de trabalho que é preciso para a gente se enxergar no mundo do tamanho que realmente é — e isso não diz respeito apenas às etiquetas das peças que vestimosArte: Paulo Márcio

Outro dia, vi um post no Instagram de uma mulher linda, que falava sobre a luta que travou durante boa parte da vida para caber em números de roupas que não condizem com o seu biotipo. Ela relatou ter feito dietas mirabolantes, além de ter enfrentado cobranças internas e externas para ter um corpo que não cabe na sua beleza natural. Destacou ainda que não é uma determinada peça que vai dizer se ela está ou não saudável. Ela não se enquadra na magreza excessiva que tem virado moda novamente, mas deixa claro que valoriza a saúde, medida por taxas em exames sérios.
Logo me identifiquei com aquelas palavras. Nunca segui uma alimentação muito restritiva, mas vivi boa parte da vida achando que eu não era magra o suficiente. Eu me via maior fisicamente e, assim, me apequenava emocionalmente. Aquele post me levou a pensar no tanto de trabalho que é preciso para a gente se enxergar no mundo do tamanho que realmente é — e isso não diz respeito apenas às etiquetas das peças que vestimos. Por diversas vezes, eu me vi em pedaços e não inteira, por achar que o meu exterior não era bonito o suficiente e o meu valor não era alto o suficiente. Pode parecer que está tudo desconectado — a nossa casca e a essência — mas acredito que elas se entrelaçam durante a nossa jornada por aqui.
Aprendi, inclusive, que não é necessariamente a vida em um corpo muito magro que nos confere felicidade. E também entendi que, se eu estiver em uma dieta muito restritiva de autoconhecimento, o metabolismo das emoções desanda. Não foi à toa que custei a aceitar o meu tamanho no mundo e, às vezes, ainda me pego diante do provador da vida tentando caber em espaços que não são meus. A gente realmente se aperta para ter o manequim dos sonhos, o corpo dos sonhos, as medidas dos sonhos e o amor dos sonhos quando, na verdade, a realidade já pode ser bela e a gente nem se dá conta, na espera infinita da perfeição.
Inclusive, não é por acaso que a psicóloga Valeska Zanello criou o termo 'prateleira do amor', para falar da forma como nós, mulheres, somos tratadas no mundo. A ideia é a de que estamos sempre ali, numa estante do afeto, à espera de um homem que nos escolha e, assim, nos faça felizes. A maneira como cada uma fica exposta nesse espaço é determinada pelos padrões de beleza e pela idade também. Quanto mais velhas, mais longe ficamos de sermos alcançadas e desejadas.
De objeto a ser escolhido, passando pela procura de uma peça de roupa que nos caiba, é angustiante a briga para entrar em lugares apertados demais para nós. Seja um amor que não se expande ou um vestido que não nos cabe. É bom que sejamos grandes — e isso independe da numeração da nossa calça jeans. O importante é que a gente tenha consciência da imensidão das nossas possibilidades, inclusive no trabalho que nos insere no mundo. E isso me lembra o que ouvi outro dia na recepção de um consultório médico, quando a secretária perguntou a uma paciente qual era sua profissão. Ela respondeu: "Do lar mesmo". Depois, ao se levantar para assinar algum documento, completou: "Na verdade, eu faço muita coisa. É muito trabalho. Deveria dizer tudo o que faço".
É isso! Todos existimos e queremos ser vistos e reconhecidos pelo tamanho que temos. Recentemente, aliás, tive o privilégio de trocar mensagens com um ex-professor da época da faculdade. Gentilmente, ele leu um texto meu e elogiou! Naquele momento, era como se eu estivesse tirando novamente uma nota boa na matéria que ele lecionava. Já se passaram mais de 20 anos desde que eu fui universitária, mas até hoje ainda faço o exercício de valorizar o quanto cresci na carreira, sem dispensar as miudezas ainda tão valiosas para mim.
Para completar, a autora do post que inspirou este texto rebelou-se até contra o limite de caracteres permitidos na legenda do Instagram e continuou a sua bela reflexão nos comentários da publicação. Lógico que o padrão da rede social vale para todos, mas é sempre bom pensar que a gente pode ter a voz do tamanho que quisermos. Assim como as emoções. Eu, por exemplo, sou grandiosa para chorar. Costumo derramar tantas lágrimas de dor que, depois que a tempestade passa, até fico rindo de mim mesma. Mas o fato é que ninguém vai dizer o tamanho do pranto que eu posso ter. Nem da alegria que eu posso festejar.