Todas essas memórias reforçam que eu sou mesmo uma amante do afeto, algo que nenhum robô pode nos darArte: Paulo Márcio

Sei que nem todos os laços de sangue se perpetuam. Mas sinto encantamento quando há uma conexão, mesmo que esporádica, com as pessoas que vieram antes de mim e ajudaram a construir a minha história. Foi o que aconteceu em um sábado à noite do outono carioca, em maio, quando o meu primo Rodrigo reuniu praticamente toda a minha família paterna para festejar seu aniversário.
Logo que me avistou, a Rose, uma das primas do meu pai e leitora das minhas crônicas, se levantou da cadeira para me abraçar. Achei tão lindo o gesto dela! É tão bom quando alguém se alegra em nos reencontrar. Também vi beleza quando ela, ao lado da irmã Angela, contou a história da época em que moravam em frente à casa de uma das melhores amigas da minha mãe, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Assim, sempre que a minha mãe estava por lá, meu pai pedia a uma das primas para entregar os bilhetinhos que havia escrito para ela.
Era o cupido na sua forma mais original, longe dos tempos atuais em que o algoritmo tenta fazer conexões em aplicativos de paquera simplesmente porque as pessoas gostam de café. Ah, se a inteligência artificial fosse humana, saberia que há tanta afinidade além disso! Ou melhor: saberia que não é preciso que a gente goste das mesmas coisas para amar alguém. Ou simplesmente saberia que é bom unir pessoas que, aparentemente, não têm tanta afinidade. Inclusive, não me esqueço de um post da escritora Ruth Manus ao falar sobre a forma como a relação com o marido foi construída através da gentileza. Precisamos ser gentis para entender que o outro gosta de algo diferente da gente. E que está tudo bem ser assim, respeitando e aceitando que não somos iguais.
Todas essas memórias reforçam que eu sou mesmo uma amante do afeto, algo que nenhum robô pode nos dar. Também sou fã das histórias de família recontadas, como no momento em que relembrei que a Zilma, mãe do meu primo aniversariante, havia sido criada com o meu pai nas Minas Gerais e que ele já havia dito que ela dava um trabalho danado. Foi o bastante para a Angela e a Rose relembrarem histórias da irmã arteira.
Sou assim: gosto de saber de onde vim e quem me trouxe até aqui. Sei que os bilhetinhos do meu pai que as primas levavam para a minha mãe fazem parte de quem sou. Assim como as viagens com o Rodrigo e sua irmã, Maria Zilda, constituem a minha infância. Não é à toa que comecei aquele sábado escrevendo a palavra gratidão em uma mensagem. Também sou a filha que volta da festa de família com uns docinhos na bolsa para o meu pai — confesso que eles chegaram um pouco amassados, mas a intenção foi boa. Acredito que um dos melhores presentes da vida é se lembrar de alguém e ser lembrado pelo outro.
Assim, entre tantas histórias de família, gosto especialmente daquela que uniu a minha mãe e a Zilma, madrinha do meu irmão ao lado do Nem. As duas se encontraram nas diferenças de personalidades e no chamamento de "comadre", que eu gravei direitinho no meu coração. Posso até fechar os olhos e me transportar para aquela época. Em um mundo bem particular, ouvirei de novo, a sós, aquele jeito carinhoso com que as duas se tratavam. Minha mãe e a Zilma nasceram em uma época em que nem sonhávamos com Internet, muito menos com Inteligência Artificial. E elas sempre foram muito mais sábias do que qualquer algoritmo.