A arte genuína reflete a sua época. Infelizmente, há tempos que se perpetuam. Como a desigualdade cantada há anos pelos Paralamas: "De um lado esse Carnaval/ De outro a fome total". Uma composição do trio Herbert, Bi e Barone com o incrível Gilberto GilArte de Kiko com fotos de Patrick Rocha/ Divulgação

Quando Dado Villa-Lobos começou a cantar sucessos da 'Legião Urbana' na noite do sábado retrasado, na Farmasi Arena, na Barra da Tijuca, eu passei a agradecer pela época em que nasci. Como uma prece solitária, mesmo cercada por uma multidão, eu reverenciei a minha geração e o privilégio de ter acompanhado a cena musical do país nos anos 80. O rock brasileiro daquela década, aliás, foi tema de um trabalho quando eu cursava a faculdade de Jornalismo. Também me lembro da imagem do álbum 'Que País É Este', da banda liderada por Renato Russo. Era um tempo muito bom, do vinil e da vitrola, que não volta mais. Felizmente, dá para teletransportar a alma de vez em quando para lá. Afinal, a música tem o poder de fazer isso. Basta silenciar o mundo ao redor e escutá-la.

Assim, acompanhei todas as letras que Dado entoava naquele palco, na companhia de André Frateschi. Quase quarenta anos depois, não me esqueci de como se canta 'Quase Sem Querer', composta por Renato Russo, Dado e Renato Rocha, o Negrete: "Sei que às vezes uso palavras repetidas, mas quais são as palavras que nunca são ditas?". Também sei que já sou adulta, mas acredito que só deixei a juventude do RG para trás. A mocidade da alma continua bem viva, e talvez isso explique por que ainda lembro que "mentir para si mesmo é sempre a pior mentira".

Aquela noite foi toda assim, com um passado cantado e iluminado por artistas que protagonizaram uma época e agora mostram que é possível estar na ativa quando o mundo insiste que é tempo de nos aposentar da vida. Achei lindo quando, em determinado momento do show, luzes alaranjadas deram a nuance exata para outra música que todos sabiam: "Quando o sol bater na janela do seu quarto..." Depois, foi a vez de colocarmos as mãos para o alto, balançando de um lado para o outro em um lindo balé. Foi o cenário ideal para a composição de Dado, Renato Russo e Marcelo Bonfá que reforça algo tão urgente: "É preciso amar/ As pessoas como se não houvesse amanhã..."

Assim, Dado e André Frateschi já haviam esquentado aquela noite não tão fria do outono carioca quando 'Os Paralamas do Sucesso' apareceram no palco para mais uma celebração de seus 40 anos de carreira. Estavam lá Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone mais garotos do que nunca. Vivos, vigorosos e entregues no palco. Do meu cantinho da plateia, agradeci novamente por ter crescido com letras que contam uma história e fazem uma reflexão sobre o mundo. A arte genuína reflete a sua época. Infelizmente, há tempos que se perpetuam. Como a desigualdade cantada há anos pelos Paralamas: "De um lado esse Carnaval/ De outro a fome total". Uma composição do trio Herbert, Bi e Barone com o incrível Gilberto Gil.
Tudo o que vi e senti naquela noite reforçou a minha crença de que é preciso olhar para o passado. Meu corpo pode até não ter estado em alguma época lá atrás, mas eu posso levar a minha mente a entender quem nos trouxe até aqui. Felizmente, cresci com Paralamas, Legião, Titãs... Mas procuro escutar quem veio antes e quais caminhos desbravou. Reverencio Gil, Caetano Veloso, João Bosco... Admiro e aplaudo os artistas que foram resistência. São eles que ainda nos salvam diariamente da aridez da vida.

E, para não dizer que não não falei da modernidade, a tecnologia ajudou em um lindo momento poético da noite, quando as luzes do celular iluminaram a arena enquanto os Paralamas cantavam "Eu tô na Lanterna dos Afogados/ Eu tô te esperando/ Vê se não vai demorar". Foi um momento lindo, tanto quanto o brado de que, por trás desses óculos, também bate um coração. Aliás, como boa míope, vejo a vida embaçada sem lentes, mas sempre tento focar nas memórias que constroem a história, seja ela coletiva ou bem particular.