Por falar em lágrimas, as minhas brotaram em um momento singelo e lindo do filme quando sapatos clássicos, de bico fino, apareceram em detalhe em um palco. Era Ney, vivido de forma extraordinária pelo ator Jesuíta BarbosaArte Kiko com fotos de Divulgação (Marina Vancini e Lucas Ramos)

Já tinha escutado falar muito bem de 'Homem com H', filme com direção de Esmir Filho que retrata a vida de Ney Matogrosso. Mas pedi que os amigos não se alongassem em seus comentários sobre o longa nem quis me aprofundar em leituras prévias sobre a obra. Queria o direito de me surpreender. E consegui! Assisti ao filme no domingo à noite e me encantei com a história do cantor. Tanto que segui chorando, em um misto de tentar enxugar as lágrimas e deixar que elas caíssem, enquanto todos os créditos desciam na tela à minha frente.

Ney se mostra como rio que corre pelo latifúndio da vida e segue o curso da sua essência, apesar das pedras no caminho. Aliás, todos nós somos, mas nos esquecemos disso em diversos momentos. Não é à toa que a natureza em água doce e corrente aparece no início e no fim do filme. A história do cantor me fez lembrar dos tantos moldes que tentam nos impor. Ney se rebelou contra todos eles, desde a rigidez do pai militar, passando por um relacionamento aprisionante mostrado logo no começo do filme, até romper com padrões artísticos durante a ditadura. "Não sou criança. Nunca fui. Nem quando eu era": essa frase dita no filme foi marcante. Também passei a entender com uma potência ainda maior os versos de 'Sangue Latino', de João Ricardo e Paulinho Mendonça: "Rompi tratados/ Traí os ritos".

Aliás, há cerca de dois anos tive a sorte de conferir o Ney performático e talentoso. Eu me encantei com ele no palco. Extremamente potente aos 81 anos na época. Na ocasião desse show, eu perguntei à assessora de imprensa da casa de espetáculos no Rio se a apresentação deveria começar no horário - moro distante do local e queria planejar a logística para voltar para casa. Ela me respondeu que não atrasaria porque Ney é muito certinho com horários. Durante a exibição do filme, ao ver sua disciplina sendo elogiada no tempo em que serviu a Aeronáutica, eu me lembrei disso. Ney foi transgressor em muitos aspectos, mas não se rebelou contra a pontualidade. Seu público agradece.

Ao ver a obra, também comprovei algo que já sabia: homem com H não é aquele que não chora, aquele que tenta impor o que uma mulher deve ou não fazer ou o que não mostra sua vulnerabilidade. O H maiúsculo é de quem entende que não é preciso nada disso para ser respeitado de fato. Percebi ali de onde vem a força do cantor. O choro contido pelo menino Ney na infância se revela na doença do marido, Marco de Maria, interpretado por Bruno Montaleone, que morre em decorrência de complicações associadas à Aids.
Por falar em lágrimas, as minhas brotaram em um momento singelo e lindo do filme quando sapatos clássicos, de bico fino, apareceram em detalhe em um palco. Era Ney, vivido de forma extraordinária pelo ator Jesuíta Barbosa. Os calçados revelavam o figurino de terno branco que simbolizava lindamente as pazes com o pai. Ali, eu vi o nó de uma relação se afrouxar na tentativa de virar laço. Não segurei o choro. É belo ver quem consegue lidar com as dores e entender que muitos daqueles que vieram antes de nós são frutos de um tempo que só lhes deu de herança uma visão limitada do mundo. É preciso ser homem com H para se expandir além disso.
Segui emotiva até o fim do filme. Chorei de novo quando Cazuza, vivido por Jullio Reis, canta 'O tempo não para', música do próprio Cazuza com Arnaldo Brandão. E me debulhei em lágrimas nos créditos ao fim da obra, com a voz de Ney Matogrosso entoando 'Balada do louco', composta por Arnaldo Batista e Rita Lee: "Dizem que sou louco por pensar assim/ Se eu sou muito louco por eu ser feliz/ Mas louco é quem me diz/ E não é feliz, não é feliz".