É bonito ver quem não segura as lágrimas ao relatar que se deu conta de que o seu trabalho em um escritório, em frente ao computador, tem ligações com vidas reais. Vou morrer acreditando que seremos sempre melhores do que robôs. Afinal, temos almaArte: Kiko

"Tripulação, preparar para o pouso": bastou o comandante dar esse aviso para que eu e o rapaz ao meu lado direito fizéssemos o sinal da cruz quase ao mesmo tempo. O jovem parecia integrar um grupo religioso que estava naquele voo de Belém para Belo Horizonte, no último domingo à tarde. Não sei nada da sua vida, mas aquele gesto praticamente simultâneo me aproximou de casa. Afinal, cresci vendo os meus pais repetindo esse ritual toda vez que passavam em frente a uma igreja.
Essa cena foi só um pedacinho da reflexão que eu já estava alimentando nos dias anteriores. Vinha pensando sobre os encontros que a vida nos proporciona e que me encantam. Durante a nossa jornada, incontáveis pessoas passam diante de nós. Algumas ficam por alguns minutos, outras por horas, semanas ou até anos. Há quem permaneça por uma vida inteira, através da presença física ou da lembrança.
Aquele voo fazia parte do meu trajeto de volta para casa após uma viagem ao município paraense de Altamira, ao lado de jornalistas de São Paulo, Bahia, Pernambuco, do próprio Pará e ainda de Portugal, para a cobertura do Chocolat Xingu, festival que tem o cacau como protagonista. Durante alguns dias, tentei fazer jus aos versos do poeta cuiabano Manoel de Barros: “Quando meus olhos estão sujos de civilização, cresce por dentro deles um desejo de árvores e aves". Eu quis sentir a natureza, mesmo sofrendo com o calor extremamente úmido da região. Quis me encantar com o Rio Xingu, com a cultura local e as histórias daquele povo.
É grande a minha vontade de conhecer o universo do outro. Sou fascinada pela mágica de encontrar pessoas tão diferentes e ver que algo nos aproxima. Podemos ter histórias totalmente distintas. Mas eu não me sinto sozinha quando alguém revela que, assim como eu, também sente enjoo em viagens de carro e assim vira a minha companhia na parte da frente da van. Também me encontro na humanidade de quem revela uma parte dos seus afetos, seja a mãe de três filhos, a mulher que nunca gestou biologicamente mas ajudou a educar alguém, a filha única ou o homem que se orgulha da filha e da esposa. É saudável constatar que há tantas outras formas de existência.
Da mesma forma, os meus olhos ganham vida quando ouço que alguém veio da Bahia, lugar para onde sonho em viajar apenas para descansar após ter estado tantas vezes a trabalho. Eu me fascino com a história da paraense que fala sobre o aroma de maniçoba que toma conta da cidade de Belém na época do Círio de Nazaré. O prato típico da culinária local exige dias e dias de cozimento e, assim, seu cheiro sai das casas uma semana antes da festa religiosa, chamando os visitantes a testarem a hospitalidade de quem mora na capital do Pará. Ao mesmo tempo, acho graça de mim mesma quando me dou conta de que a expressão 'Mas quando' é uma gíria local para dizer 'Tá brincando?' quando se discorda de algo. 
É bonito ver quem não segura as lágrimas ao relatar que se deu conta de que o seu trabalho em um escritório, em frente ao computador, tem ligações com vidas reais. Vou morrer acreditando que seremos sempre melhores do que robôs. Afinal, temos alma. Também vejo beleza quando alguém esbanja o orgulho das suas origens com o mapa de Pernambuco, seu estado natal, estampado na blusa. Assim, quando uma pessoa fala de uma forma tão empolgante da sua história e das suas origens, o meu desejo de conhecer cada cantinho só aumenta. Dá vontade de ir a Amarante quando uma portuguesa nos conta sobre os doces tradicionais da cidade feitos de receitas oriundas do Convento de Santa Clara.
Tudo isso veio à minha mente no portão 5 de embarque do aeroporto de Confins, em Belo Horizonte, enquanto esperava o meu voo final para o Rio de Janeiro. Foi ali que comecei a escrever este texto. Pouco a pouco, cada uma daquelas pessoas que conheci no Pará iam retornando aos seus lares e eu me peguei pensando em algo que aconteceu no começo da viagem de volta para casa, no trecho de Altamira para Belém, no início da tarde de domingo. Pouco tempo após a decolagem, o comandante anunciou que teríamos que retornar para a cidade de origem.
Houve momentos de tensão no voo. Pousamos de volta em Altamira e alguns passageiros não quiseram mais seguir viagem naquele dia. A informação era de que o sensor havia acusado algum problema e o comandante, por precaução, resolveu retornar. Depois de tudo checado, decolamos novamente. "Não podemos trabalhar com a dúvida", justificou o comandante.
A vida, no entanto, é bem diferente: ela nos obriga a lidar com dúvidas. Tanto que uma avalanche de incertezas atingiu, de diferentes formas, quem estava naquele voo que precisou voltar à origem. Já em solo, eu e uma colega passamos a ver nossas fotos mais recentes, talvez como forma de comprovar que não deixamos vida para trás. A experiência incrível de percorrer o Rio Xingu, naquele mesmo domingo pela manhã, ainda estava bem evidente na memória e me dava o sentido da vida vivida. Ao mesmo tempo, retornei ao Rio disposta a continuar com essa sensação no dia a dia, sem perder de vista que o cotidiano também pode ser lindo. Afinal, viajar é muito bom, mas voltar para casa é ainda melhor.