É especial ouvir os primeiros acordes de 'Cheia de Manias' e já saber exatamente um dos trechos que vem a seguir: "Então me ajude a segurar/ Essa barra que é gostar de você"Arte: Paulo Márcio
'Didididiê'
Ouvi esses relatos, cheios de afeto, quando compartilhei com pessoas próximas que iria assistir a um show do Raça Negra, na Marina da Glória. E tudo isso me fez comprovar que a gente se encontra no passado em comum, por mais que tenhamos trajetórias tão diferentes
Quando cheguei à Marina da Glória no início da noite do último domingo, algumas histórias já estavam comigo nos pensamentos. Eram relatos de quem tinha memórias afetivas de familiares que passavam os fins de semana ao som do Raça Negra. Houve quem recordasse a juventude na Baixada, com a turma mais velha levando instrumentos musicais para o tradicional encontro e fazendo o seu próprio pagode, sempre ao som de Luiz Carlos & Cia. Também houve a lembrança vinda de um amigo querido, o Macarrão, que contou entusiasmado sobre o ritual do pai. Aos sábados ou domingos, Seu Hildo Delgado acordava cedo, ia na rua com cinco cascos de cerveja para comprar bebida, passava na feira para pegar peixe e voltava para casa com todos os ingredientes para fazer o almoço. Na hora de preparar a comida, ele acionava a fita cassete do Raça Negra, colocava o lado A, o lado B, e repetia tudo de novo até 14h, mais ou menos. "Não sei como a fita durou tanto tempo", comentou meu amigo, bem-humorado.
Ouvi esses relatos, cheios de afeto, quando compartilhei com pessoas próximas que iria assistir a um show do Raça Negra, no 90's Festival, na Marina da Glória. E tudo isso me fez comprovar que a gente se encontra no passado em comum, por mais que tenhamos trajetórias tão diferentes. A música tem essa magia, de nos ajudar a ver a vida pelo retrovisor e constatar que choramos, sorrimos e criamos histórias. Naquele domingo, na plateia do espetáculo, cantei todas as letras e pensei em como deve ser bom para um artista saber que suas músicas atravessaram anos e ainda continuam sendo entoadas por uma multidão. É especial ouvir os primeiros acordes de 'Cheia de Manias' e já saber exatamente um dos trechos que vem a seguir: "Então me ajude a segurar/ Essa barra que é gostar de você". O refrão também nunca se apagou da minha memória: "Didididiê". Inclusive, não sei o nome de algumas músicas, mas as reconheço pelas letras: "Você não quis me ouvir/ Você não quis saber/ Desfez do meu amor/ Que pena, que pena..." Felizmente, se eu procurar no Google por 'que pena', ele já sabe que eu quero ouvir Raça Negra.
O que eu vivi na juventude também estava exposto no cenário da Marina, no símbolo dos fantasminhas do PacMan, jogo famoso do videogame Atari que marcou a minha geração. Sinto que não tínhamos tanta tecnologia, mas tínhamos felicidade. O passado também estava evidente no espaço do Museu de Brinquedos, de Petrópolis. Ao longe, vi uma moça segurando um boneco e comentei com a minha amiga: "Qual era mesmo o nome daquele personagem que falava: 'Não é a mamãe, não é a mamãe'?". Ela logo respondeu: "O Baby, da Família Dinossauro'. Minha mente é mesmo assim: às vezes, ela grava partes de uma história, mas alguns nomes são esquecidos. Talvez porque eu memorize pelo afeto.
Assim, logo que acabou o show do Raça Negra no palco externo da Marina, o público rumou para um espaço coberto. De longe, já era possível ouvir o início da apresentação de Buchecha. Tanto que o coro foi acompanhando a multidão ao encontro do cantor: "Quero te encontrar/ Quero te amar/ Você para mim é tudo/ Minha terra, meu céu, meu ar". Mais uma vez, percebi como é mágica a forma como a gente se renova ao cantar e dançar músicas que marcaram uma fase das nossas vidas. Também sabíamos cantar "Só love, só love", sucesso do Buchecha com Claudinho, já falecido. E conhecíamos direitinho o que vinha depois que Buchecha começou a entoar 'Tempos Modernos', sucesso de Lulu Santos. Aliás, toda vez que ouço essa música, tento reforçar minha crença no futuro: "Eu vejo um novo começo de era/ De gente fina, elegante e sincera". Sim, eu também quero crer no amor numa boa.
Inclusive, essa esperança de criarmos laços — em vez de nós — fica ainda mais forte quando vejo um cantor buscando no repertório do outro algo que lhe sirva de inspiração. Aconteceu também no show do Raça Negra, quando Luiz Carlos cantou 'Será', do Legião Urbana: "Brigar pra quê? Se é sem querer/ Quem é que vai nos proteger?". Reverenciar um colega não apaga a sua trajetória. Prova disso é que conheço várias músicas que falam de saudade, mas ainda sei direitinho como se canta uma ausência no melhor estilo 'Claudinho e Buchecha': "Carro sem estrada/ Queijo sem goiabada/ Sou eu assim sem você".

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