Vi uma foto que mostra parte das minhas pernas, vestidas com uma calça marrom, e os meus pés, de tênis azul, em um piso que achei lindo. E tirei daquilo o desejo de sempre olhar para onde piso e admirar o chão por onde passoArte: Kiko

Nunca fui a pessoa que faz listas de desejos para a vida. Costumava, sim, projetar a chegada de um ano novo durante o Réveillon. Geralmente, pedia paz, amor e saúde. Fazia simpatias ou pulava sete ondinhas, mas não me lembro de ter em mente algum outro desejo. Inclusive, depois que a minha mãe morreu, em agosto de 2019, também entendi que nem sempre está nas nossas mãos definir como será a nossa jornada. Podemos fazer escolhas e bancar as consequências do caminho por onde optamos andar. Mas há sempre o imprevisível que nos tira certezas e nos obriga a lidar com aquilo que jamais imaginamos ser possível. Curiosamente, a minha mãe era a pessoa dos planos. Capricorniana raiz, ela começava um ano anotando na agenda seus planos para os próximos 365 dias. Ela era metódica com isso e parece que a escrita eternizava a força de quem geralmente realizava o que queria. Minha mãe era assim: mentalizava e concretizava.
O fato é que, outro dia, sem planejar, eu me peguei vendo fotos recentes da minha trajetória e enxergando a beleza em momentos simples, daqueles que eu não quero me despedir jamais. Assim, acabei fazendo uma lista do que eu quero da vida. Vi uma foto que mostra parte das minhas pernas, vestidas com uma calça marrom, e os meus pés, de tênis azul, em um piso que achei lindo. E tirei daquilo o desejo de sempre olhar para onde piso e admirar o chão por onde passo.
Segui olhando as imagens na galeria do meu celular e logo me deparei com o vídeo de parabéns pelos meus 48 anos, completados neste mês. Nele, aparece um bolo de cenoura com calda de chocolate, duas velinhas indicando a minha nova idade, e as mãos de um dos meus sobrinhos acendendo cada uma delas com um isqueiro. Dá para ouvir a minha irmã falando: "Tem que fazer um pedido". E ainda a voz do meu pai: "Devolve meu isqueiro". É também isso o que quero da vida: ouvir o meu pai pedindo as coisas que pegamos emprestadas dele, com medo de que a gente perca uma delas. Daquela mesma festinha do meu aniversário na cozinha e na área de casa, também guardei o desejo de festejar sempre com salgadinhos sortidos, com direito a risole - aliás, há quanto tempo eu não comia um desses!
Entre tantas fotos, também vi uma imagem minha, de cara lavada, fazendo uma selfie no espelho de uma loja. Sim, eu quero continuar me libertando da ideia de que preciso me maquiar para ir à rua. Quero também sair de cabelos molhados, como fiz outro dia, certa de que eles vão secar naturalmente no caminho. Ainda alimento o desejo de nunca perder um sentimento recente, em um festival de música: dançar e cantar, sabendo que o movimento do corpo e da mente espanta nossos males.
Entre as minhas vontades está ainda a chance de seguir compartilhando a vida como os mais novos, como aconteceu em uma volta para casa. No banco do carona do carro, eu admirava a paisagem do Rio de Janeiro pela janela, como o Pão de Açúcar ao fundo, enquanto a minha irmã dirigia e a garotada conversava na parte de trás, falando sobre os anéis de compromisso que usam durante o namoro. Ah, e se não for pedir muito, também quero continuar comendo bolo de chocolate com calda de chocolate com a minha irmã. Espero compartilhando o momento em que ela pega o pote da cobertura e fala: "Não vai querer mais? Eu vou comer mesmo!".
Ainda planejo da vida seguir brindando momentos com cerveja, outros tantos com café. E alguns também com vinho. Quero combinar o meu look com o cenário sem planejar, como fiz outro dia ao sair com um casaquinho rosa e tirar uma foto em um ambiente de tom parecido. Também desejo ser, de fato, dona do meu estilo. Essa é uma conquista que trabalhei muito para conseguir e espero não abrir mão dela. Também pretendo fazer parte do grupo que celebra os momentos, como dizia um copo personalizado de uma festa julina recente: "Não seguimos o baile. Nós somos o baile".
Da vida, eu desejo mesmo o luxo de sorrir, amar, abraçar e ser abraçada. Quero a riqueza de fazer a unha e transformar esse momento num respiro na minha rotina. É ali que coloco os assuntos em dia com a minha manicure, tomo um cafezinho sem pressa, e ainda levo chocolate para nos deliciarmos. Sim, eu tenho a pretensão de que a vida pode ser doce também, apesar de toda a aridez. Eu penso alto mesmo. Estou me permitindo "viver e não ter a vergonha de ser feliz", como eternizou Gonzaguinha. E talvez a escrita seja uma forma de continuar atraindo tudo isso.