Uma das imagens traz justamente como inspiração a fita cassete, um símbolo para a geração que cresceu ouvindo música antes das plataformas digitais. Como era boa aquela época em que usávamos uma caneta como gambiarra para voltar a fita ao seu início!Arte: Paulo Márcio
O show, que abriu a programação do último domingo do Festival de Inverno na Marina da Glória, na Zona Sul do Rio, foi todo pautado pelo tempo. Não só o que está por vir, mas especialmente aquele que já passou e perdura dentro da gente. Eu matei as saudades de 'Tédio', canção que nunca saiu da minha memória: "Vejo um programa que não me satisfaz/ Leio o jornal que é de ontem, pois pra mim tanto faz". Também nunca me esqueci de 'Timidez': "Eu carrego comigo a grande agonia/ De pensar em você toda hora do dia". Parte da minha juventude está nesses versos. Já fui uma adolescente entediada e tímida.
O passar do relógio também se fez presente em uma canção que até então não conhecia, 'A Vida Começa Agora'. "A gente nasce, cresce/ Aprende, esquece/ Bate, apanha/ Perde, ganha/ Briga, brinca/ Abraça, xinga/ Ri, faz manha/ Acorda e sonha": está aí parte da cronologia da vida, cheia de opostos. Afinal, a nossa jornada está longe de ser linear. A música fala do presente, o único instante que temos de fato, mas teimamos em deixar escapar, ou por estarmos agarrados no que já passou ou por estarmos ansiosos pelo que virá. "E enquanto nós fazemos planos/ Dias se tornam anos", canta o Biquini.
A turnê, aliás, é batizada de 'A vida começa aos 40'. A banda, que tem Carlos Coelho na guitarra, Miguel Flores da Cunha nos teclados e Álvaro Birita na bateria, festeja quatro décadas de existência. Curiosamente, em um de seus maiores sucessos, 'Zé Ninguém', o grupo contestava: "Quem foi que disse que a vida começa aos 40?/ A minha acabou faz tempo". O mistério do tique-taque do relógio também está em outra canção da banda, que indaga: "Quanto tempo será que dura um mês pra passar?". Pode parecer contraditório, mas nem sempre as folhas do calendário se movem no mesmo compasso para cada um de nós. Há instantes que se arrastam enquanto há dias que passam num piscar de olhos.
Naquele show de domingo, outro instante também me chamou a atenção. Depois que o Biquini deixou o palco, o guitarrista Carlos Coelho desceu para a plateia e ficou assistindo à apresentação seguinte, da banda 'Os Paralamas do Sucesso'. Logo, ele arrumou um cantinho na grade e ficou olhando para Herbert Vianna & Cia. Em diversos momentos, percebi que ele batia as mãos no peito, do lado esquerdo, onde pulsam os afetos. Inclusive, achei linda essa ideia de que um dia a gente é palco e no outro é plateia. Na vida é assim: queremos aplausos pelo que fazemos de bom, mas precisamos reconhecer o que há de belo no outro.
Já em casa, em uma prosa com gente boa das Minas Gerais, fiquei sabendo que a turnê de aniversário conta com um figurino assinado pelo estilista Ronaldo Fraga. Até hoje, quando celebro a minha vida, também gosto de escolher uma roupa especial para a ocasião. Foi assim na última quarta-feira, quando fiz 48 anos. Também veio dessa conexão Rio-Beagá, onde Bruno Gouveia mora atualmente, a informação de que o artista Guilherme Maizena fez as ilustrações para as roupas usadas pelo Biquini nas celebrações pelo Brasil.

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