Afinal, acredito que viver consiste nessa magia de sabermos que somos alados e podemos sempre conhecer novos céusArte: Kiko

A imagem passou nos Stories do Instagram e fez morada na minha memória e no meu coração. Nela, um menino aparecia de costas, no ar, logo após saltar da borda para dentro de uma piscina. Ele vestia uma sunga com estampa de golfinhos, tinha bóias no corpo e no pescoço e usava touca e óculos de natação. Imaginei que estivesse radiante mesmo sem ver sua fisionomia. À sua frente, dentro da água, o pai abria um sorriso enorme à sua espera. Dava para perceber que a piscina não era muito funda, nem grande, e ficava em um espaço interno de algum prédio. Na legenda da foto, a mãe da criança escreveu: "Voa". Também imaginei que ela tenha feito aquela captura.
Assim que coloquei o meu olhar naquele registro, pensei em sua simbologia. Aquele instante representava a mãe e o pai que soltam a cria para o voo na piscina, mas sem perder a proteção de vista. A bóia estava no corpo do menino, guiado também pelos olhares daqueles que o educam. Pensei em como é linda essa mágica de permitir novas braçadas na vida sem deixar de ser um porto seguro.
Da mesma forma, eu me encantei pelo registro de outra criança, uma linda menina de uns três aninhos. No vídeo, o pai não aparece, mas filma a garotinha na sua aventura de subir até o alto de um escorrega. Dava para ouvir a voz dele dizendo que iria lhe dar a mão na hora da descida. Assim, ela escorrega no brinquedo toda sorridente. Para mim, a simbologia era bem parecida com a da piscina: permitir o novo sem deixar de ser colo. Depois da primeira aventura, a menina, toda feliz, colocava os pés no chão e já dizia: "De novo!". E assim a brincadeira se repetia. É mesmo bela a chance de compartilhar a caminhada com alguém!
Em outro vídeo da mesma menina, o pai a acompanhava com o olhar enquanto ela subia uma escada. Pequenina, ela precisava abrir bem a passada para transpor o degrau. Depois, sugeria ao pai uma brincadeira de pique-pega e logo corria. Seus passos eram miúdos e ligeiros. O pai, mais uma vez, não aparecia na imagem. Mas imaginei que ele estivesse controlando a sua velocidade para acompanhar o ritmo da menina. Essa, aliás, é uma das belezas da vida: ser companhia até o dia em que, já crescida, a garotinha fará caminhadas, corridas e até voos bem mais firmes, para longe dali.
Em todas essas imagens, eu me encantei com a possibilidade de voar sabendo que o lugar de pouso estará sempre a postos para nos receber de volta. É belo quem sabe fazer isso: ajudar e permitir que o outro caminhe por si só. Na minha vida adulta, aliás, fui presenteada com esse gesto, vindo de grandes amigas, quando eu estava me descobrindo como cronista. Elas liam meus textos, davam pitacos, analisavam e me estimulavam a continuar. Mas, em algum momento, soltaram a minha mão para o meu voo solo.
De volta às crianças, mesmo não sendo mãe, penso que deve ser difícil para os pais reconhecerem o momento em que a trajetória do filho vai se desenvolver de modo independente. Permitir os voos na piscina ou no escorrega é entender que cada um tem direito às suas próprias experiências. Afinal, por mais que os responsáveis estivessem por perto nas duas ocasiões, só a criança sabe como viveu aquela aventura. Fico imaginando o coração daqueles pinguinhos de gente batendo mais acelerado: tanto o do menininho que pulou na água quanto o da garotinha que desceu pelo escorrega. Já na minha fase de criança crescida, também senti um friozinho na barriga quando descobri que poderia colocar os meus sentimentos na escrita. Afinal, acredito que viver consiste nessa magia de sabermos que somos alados e podemos sempre conhecer novos céus.