É preciso estar bem vivo para assumir a aventura de mostrar o seu talento com uma referência altíssima por pertoArte de Paulo Márcio com fotos de Leo Aversa/ Divulgação

Já era início da madrugada de domingo quando, sentada no sofá da sala da minha casa, comecei a folhear a publicação que havia recebido ao fim do musical 'Beetlejuice', na noite de sábado, ao lado da minha irmã, no Teatro Multiplan, na Barra. Logo nas primeiras páginas, Renata Borges, idealizadora da peça dirigida por Tadeu Aguiar, falava sobre o sonho que nutria de montar esse clássico de Tim Burton no Brasil. Ela contava que 'Beetlejuice' foi sua paixão desde a infância pela forma como "desmistifica a morte, nossa única e temida certeza". Tim Burton lançou 'Beetlejuice — Os Fantasmas se Divertem', em 1988. Virou um grande sucesso, ganhou montagem na Broadway e marcou gerações. Em 2024, a história voltou aos cinemas, mostrando que esse pessoal do além ainda nos entretém. A obra conta a história de um casal fantasma, recém-falecido, que se junta a outro fantasma, 'Beetlejuice'. Marido e mulher desejam assombrar a casa onde viviam e expulsar os novos moradores, que também sofreram uma perda recente.

Por sua atuação, Sterblitch foi consagrado como o melhor ator de musical no Prêmio Bibi Ferreira de 2024. Estou longe de ser estudiosa das técnicas de atuação, mas compartilho o que senti ao vê-lo no palco. Afinal, acho que as sensações também nos movem no mundo. De fato, é mágica a forma como ele interpreta o papel-título da peça. Sterblitch realmente vive o fantasma, por mais contraditório que possa parecer essa ideia de dar vida à morte. No fundo, é isso que muitos de nós alimentamos: a esperança de que nossa jornada não termine por aqui.
Sua atuação traz luz a um personagem que poderia ser apenas sombrio e zombeteiro, mas também entrega humor e leveza para a grande incógnita da nossa existência: o que virá depois dessa travessia? Ele brinca com as crianças da plateia — tanto que elegeu uma delas como sua melhor amiga — e utiliza de forma primorosa o texto com piadas adaptadas para a nossa realidade, em especial a do Rio de Janeiro, no caso da exibição de sábado. O bairro de Lins de Vasconcelos estava lá, assim como a união do humor com o factual, nos aproximando ainda mais do que é contado nos palcos.

O improviso também é dominado por Sterblitch, que tirou proveito de um problema de microfone durante a apresentação. Quando uma pessoa da produção, toda vestida de preto, entrou no palco para ajustar o equipamento, ele correu para o lado oposto do cenário e gritou: "Nossa, alguém sem personagem!". É isso que me atrai: não fingir que não está acontecendo, mas colocar ainda mais luz sobre o incidente. Aliás, faz um tempo que deixei de ver Sterblitch como o Freddy Mercury Prateado do antigo 'Pânico na TV'. Aconteceu quando assisti o ator no papel do miliciano Sérgio na primeira temporada da série 'Os Outros', do Globoplay. Eram dele algumas das cenas mais tensas da obra. E assim, passei a enxergá-lo também como aquele homem que causava tensão e aflição.
No sábado passado, eu até me perguntei algumas vezes, a sós na minha poltrona: "Ele está realmente citando o Marcinho no musical?". Esse é o nome do personagem de Antônio Haddad em 'Os Outros', que tem uma relação complexa com o personagem de Sterblitch na obra.

Assim, desde sábado, passei a vê-lo também como 'Beetlejuice', o fantasma que tem o seu lado carismático. Inclusive, não é de hoje que a gente busca acreditar que existem espíritos camaradas depois que morremos. Tanto que nos encantamos por Gasparzinho e Pluft. Também fiquei pensando no desafio dos atores que entraram no elenco para essa segunda temporada, depois de a peça ter conquistado tantos elogios e prêmios em sua primeira montagem. É preciso estar bem vivo para assumir a aventura de mostrar o seu talento com uma referência altíssima por perto.

De volta à publicação sobre a peça que eu folheava em casa, me chamou a atenção a forma como Sterblitch fala de sua ligação com o teatro: "Me sinto presente aqui e é aqui que encontro Deus. Essa é a minha igreja... Nasci e morri pro teatro. Nasci e morri pro papel nesse show". Talvez seja por isso que a peça é um sucesso: a gente precisa renascer muitas vezes para fazer o que amamos. Só assim os fantasmas e os vivos se divertem.