É preciso estar bem vivo para assumir a aventura de mostrar o seu talento com uma referência altíssima por pertoArte de Paulo Márcio com fotos de Leo Aversa/ Divulgação
Por sua atuação, Sterblitch foi consagrado como o melhor ator de musical no Prêmio Bibi Ferreira de 2024. Estou longe de ser estudiosa das técnicas de atuação, mas compartilho o que senti ao vê-lo no palco. Afinal, acho que as sensações também nos movem no mundo. De fato, é mágica a forma como ele interpreta o papel-título da peça. Sterblitch realmente vive o fantasma, por mais contraditório que possa parecer essa ideia de dar vida à morte. No fundo, é isso que muitos de nós alimentamos: a esperança de que nossa jornada não termine por aqui.
O improviso também é dominado por Sterblitch, que tirou proveito de um problema de microfone durante a apresentação. Quando uma pessoa da produção, toda vestida de preto, entrou no palco para ajustar o equipamento, ele correu para o lado oposto do cenário e gritou: "Nossa, alguém sem personagem!". É isso que me atrai: não fingir que não está acontecendo, mas colocar ainda mais luz sobre o incidente. Aliás, faz um tempo que deixei de ver Sterblitch como o Freddy Mercury Prateado do antigo 'Pânico na TV'. Aconteceu quando assisti o ator no papel do miliciano Sérgio na primeira temporada da série 'Os Outros', do Globoplay. Eram dele algumas das cenas mais tensas da obra. E assim, passei a enxergá-lo também como aquele homem que causava tensão e aflição.
Assim, desde sábado, passei a vê-lo também como 'Beetlejuice', o fantasma que tem o seu lado carismático. Inclusive, não é de hoje que a gente busca acreditar que existem espíritos camaradas depois que morremos. Tanto que nos encantamos por Gasparzinho e Pluft. Também fiquei pensando no desafio dos atores que entraram no elenco para essa segunda temporada, depois de a peça ter conquistado tantos elogios e prêmios em sua primeira montagem. É preciso estar bem vivo para assumir a aventura de mostrar o seu talento com uma referência altíssima por perto.
De volta à publicação sobre a peça que eu folheava em casa, me chamou a atenção a forma como Sterblitch fala de sua ligação com o teatro: "Me sinto presente aqui e é aqui que encontro Deus. Essa é a minha igreja... Nasci e morri pro teatro. Nasci e morri pro papel nesse show". Talvez seja por isso que a peça é um sucesso: a gente precisa renascer muitas vezes para fazer o que amamos. Só assim os fantasmas e os vivos se divertem.

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