Não demorou muito para eu me deparar com um post do apresentador Gominho em homenagem à cantora Preta Gil, na ocasião de um mês da morte da artista. Na legenda, ele dizia: "Eu não consigo imaginar como seria a minha vida sem o nosso encontro" Arte: Kiko
Desejo de amor
O fato é que, quando os meus olhos se sujam da armadilha de ver a vida no modo automático, cresce por dentro deles um desejo de perceber o mundo com o maior amor que eu já conheci no mundo: o da minha mãe
Era manhã de quinta-feira e, ainda na cama, o meu pensamento e o meu coração foram, ao mesmo tempo, para bem longe e bem perto dali. Eu me lembrei da minha mãe, que está agora em outro plano e que nunca saiu do meu lado. Sua presença nunca me faltou, nem mesmo quando eu rumava para longe. Em casa, transformamos a sala, o cômodo vizinho ao meu quarto, no nosso ponto de encontro em tantos momentos. Quando eu chegava cansada depois do trabalho, geralmente corria para o lugar onde ela estaria assistindo à televisão: o sofá da sala. Curiosamente, de uns tempos para cá, tenho revisitado este cantinho quando quero tomar um café mais demorado. Coloco a xícara na mesinha onde fica um abajur, mas nem preciso ligá-lo. Geralmente é dia e eu me delicio com as frestas de sol que brotam da janela.
Confesso que, depois que a minha mãe morreu, cheguei a me culpar por levar a ela, nesse cantinho, algumas das minhas maiores preocupações. Mas ali era o lugar em que eu me sentia no seu colo, já que ela não poderia mais carregar uma Ana adulta. E ela sempre me acolhia e me compreendia de uma forma que nenhuma outra pessoa é capaz. Tive esse amor na sua presença física e sou grata por ele.
Assim, com o olhar e o coração mais emocionados do que o de costume, comecei a visitar o Instagram naquela quinta-feira. Achei lindo o post em que uma escritora parabenizava o namorado e dizia: "Tenho 46 anos e estou acreditando no amor ainda mais do que acreditei aos 20". Que lindo é não desistir do encontro com o outro e se permitir ser feliz, independentemente da idade.
Logo vi um vídeo em que um casal de bailarinos dançava com leveza e suavidade. Eles se beijavam e, em determinado momento, a mulher entrelaçava os braços no pescoço do homem e levantava as pernas como se voasse. E os dois bailavam lindamente. Não demorou muito para eu me deparar com um post do apresentador Gominho em homenagem à cantora Preta Gil, na ocasião de um mês da morte da artista. Na legenda, ele dizia: "Eu não consigo imaginar como seria a minha vida sem o nosso encontro".
Na trilha sonora, Rita Lee: "Tem pessoas que a gente/ Não esquece nem se esquecer". O post mesclava registros com Preta Gil e o último deles me encantou: a cantora estava sentada em um sofá — olha que simbólico — enquanto alguém fazia as suas unhas. Até que Preta viu alguém e começou a balançar os braços efusivamente, fazendo muita festa para a chegada tão solar. Era sua neta, Sol, que logo abraçava a avó. Suspeito que ali também morava o acolhimento que eu experimentei com a minha mãe em vida.
Tudo isso me fez lembrar do poeta Manoel de Barros, que escreveu certa vez: "Quando meus olhos estão sujos da civilização, cresce por dentro deles um desejo de árvores e aves". A lembrança desses versos me fez entender por que eu havia enxergado tanto amor naquele dia nas redes sociais, um lugar em que também há tanto sentimento ruim. O fato é que, quando os meus olhos se sujam da armadilha de ver a vida no modo automático, cresce por dentro deles um desejo de perceber o mundo com o maior amor que eu já conheci no mundo: o da minha mãe.

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