Influenciadora dos influenciadores: Fátima Pissarra, CEO da Mynd, conversou com a Coluna Andrei Lara sobre os bastidores da indústria dos influenciadores e os segredos para transformar conteúdo em carreira duradouraFoto: divulgação
Fátima Pissarra: O maior desafio para se manter relevante é a constância, a recorrência e a disciplina. O algoritmo muda, a inteligência artificial acelera a produção e o volume de conteúdo cresce todos os dias. O que mantém um influenciador relevante é a autenticidade, a clareza de propósito e a capacidade de se adaptar rápido. Quem depende só de truques de algoritmo não constrói longevidade. A audiência quer a verdade do influenciador, quer se sentir próximo.
Andrei Lara: Muitas vezes vemos creators buscando ‘viralizar’ a qualquer custo. Como você enxerga a linha tênue entre hype passageiro e construção de autoridade verdadeira?
Fátima Pissarra: O viral pode até ser a porta de entrada, mas a autoridade é o que garante a permanência. Vejo muitos creators que buscam hype a qualquer custo e desaparecem na mesma velocidade. Quem entende que viralizar é só um recurso, e não o objetivo final, constrói comunidade, confiança e negócios duradouros. O importante, no caso de viralizar rápido, é entrar no processo e planejamento de um influenciador, entender o mercado que quer atuar, o perfil dos seguidores e manter isso vivo.
Andrei Lara: Todos os dias acordamos e nos deparamos com um novo influenciador surgindo e fazendo sucesso. Isso dá a impressão de que qualquer pessoa pode estourar na internet. Pensando em quem está começando do zero, absolutamente do zero, e sonha em ser um influencer: o que essa pessoa deve fazer? Que tipo de conteúdo precisa produzir? Onde deve investir tempo e dinheiro? Que estrutura ou aparato é realmente necessário para transformar esse sonho em realidade? Explica pra gente de forma bem didática.
Fátima Pissarra: Quem está começando do absoluto zero precisa entender três pilares:
Clareza de nicho: escolher um tema ou estilo que tenha verdade pessoal. Qual sua área de influência? O que as pessoas te ligam para pedir opinião? Esse é seu nicho!
Constância de conteúdo: não adianta postar uma vez por mês. É rotina. Faça um planejamento, analise quem você gosta de seguir que tem conteúdo semelhante. Faça roteiros, crie, mande para amigos. O importante é ter conteúdo constante e ir aprendendo com ele.
Investimento inteligente: celular com boa câmera, iluminação básica, internet estável e, se possível, investir em conhecimento, cursos e mentorias.
O resto é suor, tempo e consistência. A estrutura inicial não precisa ser cara, mas precisa ser organizada. Disciplina é muito importante, e não desistir, aprender, inovar, estudar, entender e se adaptar.
Andrei Lara: Do ponto de vista de negócio, qualquer pessoa pode se tornar um influenciador relevante ou as marcas ainda buscam características muito específicas para apostar em alguém?
Fátima Pissarra: Qualquer pessoa pode se tornar relevante, a questão é a profundidade que se associa a uma temática que tenha uma marca interessada. As marcas buscam fit: valores, credibilidade, engajamento real. O número de seguidores sozinho nunca foi suficiente. O que faz diferença é a coerência entre o que o influenciador tem como comunicação e o que a marca precisa comunicar.
Andrei Lara: Você já geriu crises gigantes de imagem com artistas e influenciadores. Qual foi o maior aprendizado ao lidar com momentos em que uma carreira inteira parecia em risco?
Fátima Pissarra: Em um momento de crise o mais importante é calma. Corra da resposta por impulso, se afaste da opinião de um monte de gente que só aparece nesse momento. Seja transparente. Numa crise de imagem, esconder ou tentar manipular piora tudo. É preciso analisar as origens da crise, o caminho que ela está desenhando, ter clareza na narrativa e um plano de longo prazo para reconstruir reputação. Crise não é fim de carreira, mas sim um divisor de águas e precisa ser tratada de forma séria para uma mudança efetiva.
Andrei Lara: Você tem falado sobre transformar creators em marcas, indo além da publi. O que significa, na prática, uma ‘marca sócia’? Pode dar um exemplo de sucesso nesse modelo?
Fátima Pissarra: Transformar creator em marca significa ir além da publi e criar negócios próprios. Uma marca sócia é quando o influenciador não só divulga, mas se torna parte do produto ou empresa, com participação real em cima de resultado de venda. Exemplos: linhas de cosméticos, bebidas, produtos licenciados que se transformam em business independentes da publi. Isso é o futuro. Nestes casos, é importante ter em mente que o influenciador se torna sócio, dono do negócio, e sua conta não é mais custo por um post. É um ganho a longo prazo, de construção contínua e trabalho com a marca, envolvimento real do influenciador com o produto. Para mim, o maior caso de marca sócia é da Virginia com a WePink. Ela vive a marca, se mostra e atua como sócia e fez de um negócio que poderia ser pequeno um dos maiores cases de marca sócia do país.
Andrei Lara: Muita gente acredita que ser influenciador é sinônimo de ficar rico rapidamente. Isso é verdade? Quanto mito existe nessa ideia?
Fátima Pissarra: Isso depende muito, como você analisa “ficar rico”. Ganhar muito dinheiro depende muito mais do seu trabalho no dia a dia, não cai do céu. Não é postar um conteúdo e esperar o dinheiro cair na conta. Ser influenciador é um trabalho como qualquer outro: exige disciplina, investimento, equipe, estratégia. O dinheiro pode vir, e vir forte, mas não é instantâneo. Quem entra achando que vai ficar rico em um ano tende a se frustrar. É claro que existem hoje diversas formas de gerar remuneração, o que para mim é excelente. Nunca o país teve um mercado tão grande, que dá muita oportunidade e empregabilidade, mas precisa de trabalho.
Andrei Lara: A gente vê tanta gente talentosa, com conteúdo profundo e de qualidade, que não viraliza, enquanto bobagens acabam dominando as redes. O que explica esse fenômeno? É algoritmo, timing, sorte ou existe uma lógica que a gente ainda não entendeu?
Fátima Pissarra: O fenômeno é multifatorial: algoritmo, timing, cultura do entretenimento rápido e, sim, um pouco de sorte. O conteúdo raso às vezes atende ao que o algoritmo prioriza: tempo de tela e repetição. Isso não significa que o conteúdo profundo não tenha espaço, mas exige mais estratégia de distribuição e construção de comunidade. Eu acredito que o conteúdo de nicho está vindo com muita força, o algoritmo está se desenvolvendo a favor do que você está procurando. Por isso, mais profundidade para atender demandas diretas. Você fala de um tema, ele vai aparecer para quem está procurando, e isso é incrível! Você precisa ser relevante naquilo que fala para quem quer saber sobre isso ou faz parte da mesma roda, ou seja, quer falar do mesmo assunto. Viralizar não significa que você terá audiência recorrente. O caminho do mercado está indo para mais profundidade, menos seguidores, conteúdo e audiência mais assertivos.
Andrei Lara: Na sua visão, qual é o segredo para um influenciador não ser só uma moda passageira e conseguir se manter relevante por anos?
Fátima Pissarra: O segredo é nunca parar de se reinventar. Quem se limita a repetir uma fórmula morre com ela. O influenciador que se mantém por anos entende seu público, se adapta às plataformas e diversifica suas fontes de receita. Relevância é construída na interseção entre autenticidade, consistência e inovação. Estude, aprenda, pesquise, entenda os números e inove sempre.

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