Arte coluna Bispo Abner 22 fevereiro 2026Arte Paulo Márcio

O Carnaval é, por vocação histórica, uma vitrine do imaginário brasileiro: exagera, caricatura, ironiza, denuncia. E justamente por isso, quando uma escola de samba escolhe retratar segmentos religiosos e a “família tradicional” como “enlatados” — em fantasias de “lata de conserva”, com rótulos e símbolos associados ao conservadorismo e à fé — ela não está apenas fazendo “arte”; está produzindo uma mensagem pública com alvo definido.
Foi o que se viu no desfile da Acadêmicos de Niterói, que, dentro de um enredo de homenagem política, trouxe a ala intitulada “Neoconservadores em Conserva”, com “família em conserva” e referências diretas ao universo evangélico, gerando forte repercussão e reação institucional.
A intenção, para muitos, pareceu clara: sugerir que a fé cristã e o conservadorismo seriam algo atrasado, rígido, “preso numa lata”, como se o compromisso com valores fosse uma espécie de museu ambulante. Mas aqui está o ponto decisivo — e é onde a tentativa de depreciar se converte em promoção involuntária: “conservar” é exatamente a função do sal. E o sal, no ensinamento de Cristo, não é insulto; é vocação.
1) A caricatura revela mais sobre quem ridiculariza do que sobre quem é ridicularizado
Chamar cristãos e conservadores de “enlatados” pretende reduzir pessoas a estereótipos: como se a fé fosse uma fantasia, e não uma convicção; como se a moral fosse um figurino, e não um caráter.
Só que caricaturas são, por natureza, confissões: elas denunciam a dificuldade de dialogar com o real. Quando falta argumento, sobra rótulo. Quando falta respeito, sobra escárnio.
E isso é um erro estratégico — até no campo cultural.
Porque o Brasil real não é feito apenas de arquibancada; é feito de famílias, de bairros, de trabalhadores, de mães e pais, de jovens e idosos, de igrejas que sustentam redes de assistência, recuperação, disciplina, esperança.
O “deboche” tenta criar vergonha; mas, na prática, acaba amplificando a identidade do grupo que pretendia constranger, dando-lhe visibilidade e unidade.

2) “Conservador” não é ofensa: é preservação do que sustenta a vida
A palavra “conservador” pode ser usada como xingamento por quem confunde liberdade com dissolução.
Mas, sob uma ótica madura, “conservar” é proteger o que não pode ser trocado por modas: dignidade, família, compromisso, verdade, responsabilidade, fé.
A Bíblia chama o povo de Deus de sal da terra e  luz do mundo. Sal retarda a corrupção; luz expõe o caminho. Isso não é arrogância; é serviço.
O sal não grita — ele age. A luz não agride — ela ilumina.
Se alguém, tentando ridicularizar, nos chama de “conserva”, sem perceber está dizendo: “vocês preservam”. E sim: preservamos o que entendemos ser santo, bom e justo.

3) Liberdade artística não é licença para desprezo religioso
É legítimo que manifestações culturais expressem críticas sociais; a própria tradição carnavalesca tem esse DNA. Mas há uma fronteira ética que uma sociedade civilizada reconhece: crítica não é desumanização; sátira não é escárnio contra a fé alheia.ão se trata de “censurar a arte”; trata-se de exigir que a arte, ao tocar em convicções religiosas, não desça ao nível do preconceito revestido de humor.
Tanto é verdade que a repercussão não ficou apenas nas redes: houve reação de parlamentares e acionamento institucional, sob alegação de preconceito religioso, exatamente porque o episódio foi interpretado por muitos como extrapolação do direito de expressão.
Uma nação madura protege a liberdade de expressão e protege a liberdade religiosa — não colocando uma contra a outra, mas lembrando que ambas convivem sob o guarda-chuva do respeito público.

4) O efeito bumerangue: ao tentar diminuir, a escola acabou confirmando nossa relevância
Há um detalhe revelador: ninguém “satiriza” o que considera irrelevante. A escolha de retratar evangélicos e conservadores como “lata” é uma admissão tácita de influência: há um incômodo real com a presença cristã no tecido social.
Quando a fé se torna apenas folclore, não assusta ninguém. Mas quando ela se mantém como convicção — e, sobretudo, como ética pública — ela incomoda projetos que dependem da relativização moral.
Por isso, o gesto, ao invés de “envergonhar”, tende a produzir o contrário: reforça a coesão dos que creem, dá linguagem simbólica ao que já era identidade e reacende um senso de missão.
É paradoxal, mas frequente: o escárnio, muitas vezes, funciona como propaganda do alvo.

5) Uma resposta cristã: firmeza sem vulgaridade, contundência sem crime
O caminho mais inteligente — e mais cristão — não é revidar com ódio. É responder com clareza, firmeza, elevação. Não precisamos “baixar o nível” porque nossa força não está no grito; está no conteúdo. E é aqui que a tradição cristã mostra superioridade moral: somos chamados a dizer a verdade sem difamar, a corrigir sem destruir, a resistir sem nos tornar aquilo que criticamos.

Assim, sustentamos três mensagens centrais, com segurança:
1.Rejeitamos a ridicularização da fé e da família, porque isso alimenta preconceitos e fere a convivência democrática.
2.Assumimos o termo “conservador” sem vergonha, pois conservar valores é preservar a saúde moral de uma sociedade.
3.Reafirmamos nossa vocação bíblica de sal e luz: não para dominar pessoas, mas para servir ao bem comum, com responsabilidade, disciplina e esperança.

Conclusão: a “lata” não nos diminuiu — nos descreveu

Se a intenção foi rotular para depreciar, o resultado foi outro.
Ao nos colocarem “em conserva”, acabaram por declarar, ainda que sem querer, aquilo que Cristo já disse sobre o seu povo: somos preservação em tempos de decomposição; somos claridade em tempos de confusão.
E aqui vai uma palavra final, franca e necessária: o Brasil não será melhor quando ridicularizar cristãos; será melhor quando reaprender a respeitar convicções, a discordar com civilidade e a reconhecer que há virtude em conservar o que é estrutural — família, responsabilidade, trabalho, fé e honra.
Se o desfile quis nos diminuir, falhou. Porque o sal continua sal. E a luz continua luz.