Com eventos climáticos cada vez mais imprevisíveis, os agricultores não conseguem prever mais como será a colheitaTomaz Silva/Agência Brasil
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Até poucos anos, os agricultores confiavam em técnicas ajustadas aos padrões climáticos historicamente esperados para determinadas épocas do ano. Tinha a época das chuvas fortes, a época das chuvas fracas, a época da seca.
Não é mais assim. Com eventos climáticos cada vez mais imprevisíveis, o cenário mudou. Ninguém consegue mais prever se, ou quando, vai chover. Muito menos quando a água virá mais forte, alagando as lavouras.
Quem primeiro paga a conta dessa mudança são os produtores rurais. Áreas tradicionalmente dedicadas à agricultura está sendo abandonadas, enquanto outras precisam de adaptações. O calor excessivo afeta as características das plantas, com impacto na qualidade dos alimentos produzidos. O efeito é repassado aos consumidores, que, diante da escassez de produtos ou da queda da sua qualidade, acabam pagando mais caro no supermercado. Uma família de baixa renda já chega a comprometer 50% de seus rendimentos com alimentação.
Tem sido assim em todo o estado do Rio de Janeiro. No Norte Fluminense, em especial, a escassez de chuvas e o excesso de radiação solar têm impactado fortemente na agricultura familiar e no plantio da cana-de-açúcar e do abacaxi - principais culturas de uma região que, nas últimas três décadas, viu a temperatura média aumentar 2 graus.
Enquanto os grandes debates mundiais sobre o clima empacam na falta de consenso e comprometimento dos líderes em adotar medidas para conter o aquecimento global, por aqui algumas medidas precisam ser adotadas.
Uma das boas iniciativas é o projeto Pró-Águas Rio de Janeiro. Lançado em 2024, numa parceria do governo do estado com o Instituto Espinhaço, ele prevê a recomposição de 7.500 hectares de vegetação nativa do bioma Mata Atlântica em 30 anos, num esforço conjunto com os municípios fluminenses, produtores rurais, iniciativa privada e terceiro setor. O raciocínio é conhecido tanto pelos produtores rurais quanto pelos ambientalistas: quando a mata se recupera, muitas nascentes que haviam secado também se recuperam e passam a alimentar as bacias hidrográficas. Mais água chega aos campos.
Mas é preciso ir além. A atividade agrícola depende de outras ações, como crédito acessível à agricultura familiar, inovação tecnológica e assistência técnica. Sem essas medidas concretas, a crise climática e agrícola tende a se aprofundar. Ganham destaque o papel das universidades, Pesagro-Rio e Emater.
Nesse contexto, uma iniciativa chama a atenção: o Projeto de Lei 1440/2019, que classifica como semiárido o clima dos 22 municípios do Norte e Noroeste Fluminense. Apresentado há cinco anos pelo então deputado federal Wladimir Garotinho, atual prefeito de Campos, o PL prevê a alteração da Lei 10.420/2002, que criou o Fundo Garantia-Safra e o Benefício-Safra, assegurando apoio financeiro aos agricultores familiares que sofrem perdas de safra por estiagem ou excesso hídrico. É fundamental apoio político para sua aprovação no Congresso Nacional.
Diante das ameaças de um clima cada vez mais incerto, a resposta é tão simples quanto dramática: ou todos se unem pelas soluções ou vamos ter cada vez mais motivos para lamentar. Estamos falando em desemprego no campo, êxodo rural e aumento da insegurança alimentar, uma herança que ninguém deseja. A resposta está nas nossas mãos.

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