Segundo o IBGE, mais de 15% dos brasileiros têm 60 anos ou mais. As políticas públicas precisam acompanhar esse envelhecimento Marcelo Camargo/Agência Brasil
O tempo não espera: o Brasil está pronto para envelhecer?
Entre o avanço da longevidade e a falta de preparo social, político e econômico, o país precisa decidir se quer temer o futuro ou aprender a envelhecer com dignidade.
A escolha do tema da redação do Enem 2025 — “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira” — caiu como um lembrete inesperado numa manhã de domingo: estamos ficando mais velhos. Não apenas eu, você ou aquele vizinho que corre menos do que corria antes. O país inteiro. As estatísticas do IBGE, sempre tão frias, se tornam quase afetivas quando dizem que mais de 15% dos brasileiros já têm 60 anos ou mais. Dentro de poucas décadas, seremos um país com mais avós do que crianças.
Deveria ser motivo de festa. Viver mais não é só um dado demográfico; é um triunfo humano, civilizatório. Mas, por aqui, esse triunfo anda tropeçando numa pedra antiga e insistente: a precariedade do futuro. Parece até ironia que uma conquista tão bonita venha acompanhada de uma sombra tão incômoda: o etarismo, essa doença silenciosa que faz do idoso um quase invisível na esquina, no mercado de trabalho, na propaganda e, às vezes, dentro da própria casa.
O presidente do IBGE, Marcio Pochmann, falou recentemente sobre o “novo mundo do trabalho”. Disse que temos no Brasil “uma geração que pode não se aposentar”. Não por escolha, mas porque o próprio conceito de aposentadoria, corroído por reformas, foi virando areia entre os dedos. Enquanto isso, o jornalista e gerontólogo Jorgemar Felix alerta que o envelhecimento sem cuidado pode se tornar um gargalo econômico — uma barreira que pode impedir o país de crescer. Um país que não cuida dos seus velhos, afinal, cuida mal de si mesmo.
No fundo, o envelhecer diz muito sobre quem somos. Há uma frase que insiste em me voltar à memória: “O respeito aos idosos é o espelho de uma sociedade que compreende o próprio futuro”. Talvez seja esse o problema — ainda não compreendemos o nosso. Mesmo com uma base legal relativamente avançada, o Brasil continua tropeçando em sua incapacidade de tirar as leis do papel.
Os hospitais especializados são poucos; os centros de convivência, raros; os programas de assistência sobrevivem como quem respira por aparelhos. A previdência, tratada apenas como questão fiscal, esquece-se daquilo que deveria ser sua alma: garantir amparo e dignidade a quem dedicou a vida ao trabalho. E, quando o Estado falha, sobra para as famílias, que enfrentam sozinhas o peso de cuidar dos seus — muitas vezes sem qualquer apoio.
Mas esse dilema não mora só nas instituições. Mora também nos hábitos, nos discursos, no olhar que desviamos do cabelo branco no ônibus. O etarismo se esconde nas piadas, nas propagandas que evitam rugas, nas empresas que enxergam idade como defeito e não como bagagem.
Zygmunt Bauman já dizia que vivemos numa sociedade líquida, onde tudo se descarta: objetos, relações, certezas. Talvez por isso envelhecer tenha se tornado, por aqui, um ato de resistência. Mas o fato é que envelhecer é inevitável; envelhecer com dignidade é uma escolha coletiva. Não falta quem mostre o caminho: políticas públicas integradas, promoção de saúde preventiva, inclusão digital, espaços de convivência e lazer e programas de cuidado de longa duração.
No fim das contas, o tempo não espera. Ele apenas chega. A questão é saber se estaremos prontos para recebê-lo — ou se continuaremos fingindo que ele não bate à porta todos os dias.

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