Enquanto a COP30 discute as mudanças climáticas, o Norte/Noroeste Fluminense já vive seu drama e cobra soluçõesCésar Ferreira

Enquanto o mundo discute caminhos para conter as mudanças climáticas na COP30, em Belém (PA), no Norte e Noroeste Fluminense a crise ambiental já deixou o campo em alerta. Os agricultores e pecuaristas da região enfrentam um clima cada vez mais instável — com estiagens prolongadas, chuvas cada vez mais irregulares e perdas crescentes na produção. A paisagem que antes sustentava lavouras de cana, milho, feijão e pastagens verdes vem sendo substituída por solos ressecados e áreas improdutivas, num processo silencioso e persistente de desertificação.
Em um estado que importa a maior parte dos hortifrutigranjeiros e da proteína animal que consome, o impacto dessa transformação climática é profundo. Somente em Campos dos Goytacazes, segundo dados do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) e de levantamentos da Embrapa Solos, já são mais de 200 mil hectares de terras degradadas — uma extensão equivalente a quase um terço de todo o território do município. Nos últimos anos, a produção agropecuária no Norte e Noroeste Fluminense encolheu cerca de 30%, de acordo com estudos da Pesagro-Rio e da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), refletindo o aumento das temperaturas médias e a redução dos índices pluviométricos em até 40% em algumas áreas.
O quadro se agrava com o empobrecimento dos solos e a queda no nível dos rios e açudes, afetando não apenas a produtividade, mas também a fixação do homem no campo. Pequenos produtores — que já enfrentam dificuldades históricas de acesso a crédito e tecnologia — se veem agora diante de um novo inimigo: o clima. A estiagem que antes era cíclica tornou-se imprevisível, e o que antes era exceção passou a ser regra.
Medidas que poderiam ser um alento foram ignoradas pelo governo federal. Aprovado pelo Congresso Nacional em julho deste ano, o Projeto de Lei 1.440/2019 — de autoria do então deputado federal Wladimir Garotinho, atual prefeito de Campos — mudava para semiárido a classificação do clima dos 22 municípios da região, o que permitiria aos agricultores familiares o acesso ao Benefício Garantia Safra.
Mas o cenário, ainda que crítico, também carrega oportunidades e desafios inéditos. Na linguagem popular: dá para fazer desse limão uma limonada. Diante da crise, o Norte e Noroeste Fluminense pode se tornar um laboratório a céu aberto de iniciativas voltadas à descarbonização e à sustentabilidade rural. Projetos de regeneração florestal, recuperação de nascentes, manejo sustentável do solo e captura de crédito de carbono têm grande possibilidade de se multiplicar na região, unindo universidades, prefeituras, cooperativas e empresas privadas.
Essas ações, aliadas ao avanço das tecnologias agroecológicas, poderão não apenas reduzir as emissões, mas também restaurar o equilíbrio hídrico e fortalecer a resiliência do campo fluminense. Experiências-piloto em alguns municípios já mostram que é possível recuperar áreas degradadas, aumentar a infiltração de água e diversificar culturas com base em sistemas produtivos de baixo impacto.
Se o clima mudou, a agricultura também precisa mudar. O futuro do Norte e Noroeste Fluminense depende, mais do que nunca, de políticas públicas consistentes, inovação tecnológica e da união entre ciência e tradição rural. Em meio ao debate global sobre o aquecimento do planeta, a região mostra que a luta contra a desertificação não é apenas ambiental — é também social, econômica e, sobretudo, uma batalha pela sobrevivência.