A indústria do petróleo sustenta a economia do Rio, mas a queda na produção é uma ameaça realTânia Rêgo/Agência Brasil
O Rio precisa se reinventar — antes que o petróleo acabe
Sem um novo projeto de desenvolvimento e diversificação econômica, o estado corre o risco de mergulhar em nova crise com o declínio do pré-sal.
O estado do Rio de Janeiro vive uma crise estrutural profunda. O decréscimo de sua economia, especialmente na capital e na região metropolitana, revela um cenário que vai muito além das oscilações do mercado ou de ciclos políticos: trata-se de um esgotamento do modelo de desenvolvimento baseado quase exclusivamente na exploração de petróleo.
Desde que deixou de ser a capital federal, em 1960, o Rio jamais contou com um projeto consistente de desenvolvimento regional. Tornou-se uma metrópole gigantesca, mas sem um plano econômico que sustentasse seu tamanho e complexidade. Com o tempo, a cidade foi perdendo sua base industrial e assistindo a um processo contínuo de desindustrialização — fenômeno que atinge o Brasil como um todo, mas de forma ainda mais severa no território fluminense.
Sem indústria, não há produção de riqueza real. É a indústria que gera valor, movimenta cadeias produtivas e alimenta setores como comércio e serviços. Quando essa engrenagem enfraquece, o dinheiro deixa de circular, a desigualdade aumenta e o crime encontra terreno fértil.
Os números comprovam essa deterioração. A participação da indústria no PIB do Rio, em 2021, foi de apenas 16,22% — muito abaixo da média nacional de 22,55%. Entre 2002 e 2022, a variação do emprego formal foi de 30,41%, penúltimo desempenho entre as capitais brasileiras, enquanto a média nacional chegou a 84%.
Na região metropolitana, o quadro é alarmante: em 2023, os empregos na indústria de transformação representavam apenas 7,13% do total, à frente apenas de Belém (PA) e um pouco atrás de Salvador (BA) — capitais que figuram entre as mais violentas do país. Entre 2002 e 2022, a indústria de transformação na região metropolitana do Rio encolheu 2,34%, enquanto o único setor que realmente cresceu foi o extrativo mineral — leia-se petróleo e gás — com uma impressionante alta de 466,7%. É esse segmento que ainda sustenta o estado, mas de forma frágil e temporária.
A dependência extrema do petróleo cria uma falsa sensação de prosperidade. Em 2023, 81,5% das exportações do Rio vieram do petróleo cru, um dado que revela o tamanho do risco: qualquer oscilação no mercado internacional ou declínio na produção tem impacto direto sobre as contas públicas e o nível de emprego. O colapso de 2016 é uma lembrança recente. Quando a produção das antigas plataformas declinou e a Operação Lava-Jato atingiu o setor, o estado praticamente quebrou.
A recuperação com o pré-sal trouxe um alívio temporário, mas o alerta precisa ser ouvido: especialistas já preveem que a produção do pré-sal começará a cair nos próximos anos. A Petrobras, inclusive, planeja migrar parte significativa de sua exploração para a Margem Equatorial nos próximos dez anos, deixando a Bacia de Campos e a Bacia de Santos em segundo plano. Quando essa transição ocorrer, o que restará ao Rio? Sem uma estrutura produtiva diversificada, o estado pode reviver a mesma crise — com desemprego, queda de arrecadação e aumento da violência.
O Rio precisa de um projeto de desenvolvimento estruturado, com planejamento de curto, médio e longo prazo, como fizeram estados vizinhos, a exemplo de São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo. Essa reconstrução passa pela valorização de seu interior e de suas vocações regionais. Há exemplos de sucesso que mostram que é possível reverter a maré: o Polo Cimenteiro de Cantagalo, o Polo Metalmecânico do Sul Fluminense, o Porto do Açu, o turismo na Região dos Lagos, o Polo de Moda Íntima de Nova Friburgo e a indústria de pedras do Noroeste Fluminense.
Esses polos demonstram que o desenvolvimento não depende apenas do petróleo, mas de políticas públicas de industrialização, inovação, capacitação profissional e infraestrutura energética e logística.
Existem condições para que isso aconteça. O Rio possui o segundo maior parque universitário e de pesquisa do país, um ativo que pode ser decisivo para uma nova fase de crescimento. A chamada “tríplice hélice” — a integração entre governo, universidades e setor produtivo — é a base de políticas industriais bem-sucedidas no mundo todo. Apostar na indústria de inovação, de tecnologia limpa e de transição energética é o caminho mais promissor.
A decadência do Rio não é irreversível, mas o tempo urge. Se não houver planejamento e ação coordenada para diversificar a economia, o estado corre o risco de ver sua crise social e econômica se aprofundar — e o brilho do passado, mais uma vez, se perder no horizonte do petróleo.

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