Sede da Petrobras, no Rio: com menos investimentos em petróleo, o estado precisa pensar mais nos biocombustíveisFernando Frazão/Agência Brasil

Em planejamento estratégico, uma ferramenta conhecida — e necessária — é a chamada Matriz de SWOT. Ela analisa quatro fatores para avaliar a situação de um negócio diante de um cenário macro: forças, fraquezas, oportunidades e ameaças. O SWOT vale para a tomada de decisões não apenas da iniciativa privada, mas também de todas as esferas de governo.
No setor de energia, o estado do Rio de Janeiro está diante de uma ameaça e uma oportunidade. Divulgado na noite da última quinta-feira (27), o Plano Estratégico 2026-2030 da Petrobras projeta investimentos menores no setor de petróleo, em meio à queda no preço do barril no mercado internacional. O novo plano considera que a média do barril Brent em 2026 será de 63 dólares — bem menor que os 77 dólares adotados como base de cálculo no planejamento 2025-2029. Na avaliação da presidente da companhia, Magda Chambriard, 2026 será um ano difícil, porque muitos cenários apontam para uma queda de até 50 dólares já no primeiro semestre.
Para o Rio de Janeiro, a notícia é uma ameaça. O estado tem na produção e exportação de petróleo sua maior força econômica – tema que abordamos em coluna publicada no dia __. Em 2023, 81,5% das exportações do Rio vieram do petróleo cru. Oscilações no mercado internacional ou declínio na produção impactam diretamente sobre as contas públicas e o nível de emprego no território fluminense. Além da perspectiva de queda no preço do barril, já alertamos também para a queda iminente na produção nas Bacias de Campos e de Santos, sobretudo diante da nova menina dos olhos da Petrobras: a Margem Equatorial.
É hora de pensar – e trabalhar – com foco nas oportunidades. Ao contrário de ciclos anteriores, a Petrobras deixou claro em seu Plano de Negócios 2026-2030 que vai priorizar biocombustíveis no segmento de renováveis. A companhia vai se voltar com especial atenção para o etanol e o biodiesel. Somente no etanol, serão investidos 2,2 bilhões de dólares. Outro foco serão os combustíveis coprocessados com percentual de óleo vegetal, a exemplo do S10 e do SAF.
Investimentos já em andamento, como o Complexo de Energias Boaventura, em Itaboraí, serão acelerados – o que é uma boa notícia para o estado e para o Brasil, que ainda depende da importação de derivados de petróleo. Mas todos os sinais de alerta já foram ligados: o ouro negro, que até agora salvou o estado da completa decadência financeira, vai deixar de ser a “galinha dos ovos de ouro” mais cedo do que se imagina.
Com foco em pesquisas e planejamento, o Rio pode estender sua atuação, deixando de ser um mero estado produtor de petróleo para ser um produtor de energia. Um dos horizontes que se abrem está na Região Norte/Noroeste Fluminense, vasto em áreas e com uma indústria canavieira consolidada, que precisa de apoio para se manter. A região, que já foi a maior produtora de cana de açúcar do Brasil na década de 1970, pode ser revitalizada, num esforço conjunto envolvendo governos, produtores e órgãos de pesquisa agrícola. Sem falar no potencial para produção de biocombustíveis a partir do plantio de oleaginosas, que nascem até nos solos mais áridos.
Na minha humilde avaliação, uma grande oportunidade se abre para o Rio de Janeiro nesta cadeia produtiva, mais limpa e sustentável. Mas a hora de começar é agora. Porque, em planejamento, é fundamental pensar os passos a curto, médio e longo prazo. Na crônica de uma tragédia anunciada, melhor do que cruzar os braços e lamentar depois é se movimentar na direção certa enquanto é tempo. Disso, depende o nosso futuro.