As árvores são essenciais para tornar as cidades mais humanas e resilientesMarcelo Camargo/Agência Brasil

Por trás da árvore que alguém planta na calçada ou que você encontra crescendo tranquila no parque, há muito mais do que um tronco, galhos e folhas. Há história, descaso, escolhas políticas equivocadas e uma longa convivência mal resolvida entre as cidades brasileiras e a natureza que insiste em sobreviver nelas.
Crescemos aprendendo a ver a árvore como enfeite — um cenário bonito para a selfie. Raramente vemos como aquilo que ela de fato é: infraestrutura essencial. Enquanto a água corre pelos canos, a energia chega pelos fios e o asfalto se estende pelas ruas, as árvores seguem tratadas como detalhe — quando, na verdade, trabalham silenciosamente para resfriar o ar, filtrar a poluição, absorver a chuva e sustentar a vida urbana. Talvez por isso nossas cidades adoeçam junto com o clima, sufocadas pelo calor, pelas enchentes e pelo concreto.
Essa relação torta não nasceu ontem. Desde o período colonial, o Brasil aprendeu a crescer suprimindo vegetação — começando com a quase extinção do pau-brasil, enviado para Portugal de navio. Florestas foram derrubadas para abrir caminho. Solos foram cobertos por camadas impermeáveis. A cidade avançou como quem apaga rastros, expulsando árvores para dar passagem ao progresso. Com o tempo, plantar virou um gesto isolado, muitas vezes eleitoreiro: uma muda aqui, uma foto ali, nenhum plano para o futuro daquela sombra.
Basta uma chuva mais forte para a conta chegar. Em metrópoles como São Paulo, árvores caem, ruas escurecem, casas ficam sem luz. E logo surge o coro: “a culpa é das árvores”. Mas elas não caem por vontade própria. Caem porque foram maltratadas, podadas sem critério, confinadas em calçadas estreitas, esquecidas por políticas públicas que nunca chegaram. Tornam-se frágeis não por natureza, mas por abandono.
Ainda assim, insistem. Mesmo mal cuidadas, as árvores seguem fazendo o que sempre fizeram: refrescam o ar, acolhem pássaros, seguram a água da chuva, aliviam o peso invisível da vida urbana sobre o corpo e a mente. Em tempos de emergência climática, são aliadas preciosas — talvez das mais acessíveis. Mas continuam sem orçamento e sem prioridade real. Cuidar delas parece sempre ficar para depois.
O abandono da arborização revela algo mais profundo: a velha ideia de que cidade e natureza não se misturam. Como se uma precisasse eliminar a outra para existir. Mas a verdade é outra. Árvores não atrapalham o desenvolvimento urbano — elas o sustentam. Ignorar isso custa caro: em dinheiro público, em saúde, em qualidade de vida. E, cada vez mais, em vidas.
Talvez seja hora de olhar para aquela árvore da calçada com mais atenção. Entender que sua sombra é fruto de escolhas — ou da falta delas. Reverter séculos de negligência exige mais do que boas intenções: pede vontade política, planejamento e respeito. Porque cidades mais humanas, resilientes e saudáveis começam assim, quase sem alarde, na decisão de plantar uma árvore — e permanecer ao lado dela por muitos anos.