Juntos, São Francisco e Campos somam 52% da área plantada de cana em todo o Estado do Rio Foto Secom Campos/Arquivo (reprodução Antônio Cruz)
O renascimento da cana, uma nova oportunidade para o Rio de Janeiro
Com terras disponíveis e tecnologia, o Rio pode retomar protagonismo e transformar o Norte Fluminense em polo estratégico de etanol e energia limpa sustentável.
Às vésperas da abertura da safra sucroalcooleira 2026/2027, que gera milhares de empregos nas lavouras e usinas fluminenses, dados recentes indicam que a produção de etanol segue em forte expansão, impulsionada pelo aumento da mistura na gasolina e pela valorização do petróleo no cenário internacional, consolidando o biocombustível como peça-chave na matriz energética nacional. A produção está em alta — na avaliação da consultoria Safras & Mercado, 3,15% mais cana que na safra anterior.
O crescimento da safra não é o único fator relevante. Diante da crise mundial do petróleo, deflagrada pelo conflito no Golfo Pérsico, há expectativa de crescimento na produção de etanol, o que reforça a relevância estratégica do setor. Além de reduzir a dependência de combustíveis fósseis, o etanol contribui diretamente para a diminuição das emissões de carbono, alinhando o país às metas ambientais globais — uma solução brasileira que o Brasil está redescobrindo.
Esse cenário favorável reacende um debate: o papel histórico e o potencial futuro do Rio de Janeiro na cadeia produtiva da cana-de-açúcar. Líder nacional até a década de 1970, o estado carrega tradição, conhecimento técnico e localização estratégica. Em especial, o Norte Fluminense se destaca como uma região com grande disponibilidade de terras e condições naturais propícias para a retomada do crescimento do setor.
Ao longo das últimas décadas, mudanças econômicas e estruturais reduziram a participação fluminense na produção nacional — cenário agravado pelas estiagens cada vez mais prolongadas e pela instabilidade climática. Quem planta hoje não sabe se sofrerá com a seca ou com o excesso de chuva.
O contexto atual, no entanto, abre uma janela concreta de oportunidades. Com investimentos em tecnologia, mecanização, inovação genética e políticas públicas adequadas, o estado pode não apenas recuperar parte de sua relevância, mas avançar em produtividade e sustentabilidade. Uma necessidade urgente é a reavaliação do Projeto de Lei 1.440/19, do então deputado federal Wladimir Garotinho, que instituiria o clima do Norte/Noroeste Fluminense como semiárido, permitindo que os agricultores obtivessem acesso aos benefícios do Garantia-Safra. Aprovado pelo Congresso em 2025, o projeto acabou vetado pelo governo federal.
Dos incentivos, dependem ações fundamentais, como modernização das lavouras. Novas técnicas agrícolas, uso de inteligência de dados, irrigação eficiente e variedades mais resistentes permitirão o aumento da produtividade, hoje abaixo de estados como São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso do Sul. Paralelamente, o fortalecimento de usinas com capacidade de produzir não só açúcar e etanol, mas também bioeletricidade e, futuramente, hidrogênio verde, amplia o papel da cana como vetor energético.
Nesse sentido, o Norte Fluminense reúne condições únicas para se tornar um polo regional de energia limpa. A integração entre produção agrícola, indústria e geração energética pode impulsionar a economia local, gerar empregos e atrair novos investimentos. Trata-se de uma oportunidade de reposicionar o Rio de Janeiro não apenas como produtor, mas como protagonista na transição energética brasileira.
Mais do que uma atividade agrícola, a cana-de-açúcar representa um ativo estratégico. Em um cenário global de incertezas energéticas, o Brasil — e particularmente o Rio de Janeiro — tem nas mãos a chance de transformar tradição em inovação, e vocação em desenvolvimento sustentável. O futuro da energia pode, mais uma vez, passar pelos canaviais. E o Rio tem tudo para voltar a ser parte central dessa história.

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